Uma nova vida em Ibicaba

Os primeiros dias e a adaptação à nova terra

Em 16 de junho de 1847, depois de uma jornada que começara muitos meses antes em pequenas localidades dos territórios germânicos, atravessara parte da Europa, alcançara Hamburgo, vencera o Atlântico e continuara pelas difíceis estradas da Província de São Paulo, a viagem finalmente terminava.

Diante dos imigrantes estava a Fazenda Ibicaba. Para Martin Fischer, Katharina e seus filhos, aquele momento representava muito mais do que a chegada a uma propriedade rural. Era a chegada ao lugar em torno do qual haviam sido construídas todas as expectativas da emigração.

Ali trabalhariam. Ali viveriam. Ali teriam de pagar as dívidas contraídas para chegar ao Brasil. E ali começaria efetivamente a história brasileira da família.

Os Fischer faziam parte da grande leva germânica contratada pela Vergueiro & Companhia. Estudos recentes identificam 64 famílias, majoritariamente prussianas, bávaras e renanas, incorporadas à Colônia Senador Vergueiro em 1847. Na fazenda encontraram ainda sete famílias portuguesas remanescentes de uma experiência anterior e uma realidade que provavelmente lhes causou forte impressão: Ibicaba possuía também 215 pessoas escravizadas.

Duas formas de trabalho passariam, portanto, a coexistir dentro da mesma propriedade: a escravidão e a parceria com trabalhadores europeus livres. Era uma experiência social e econômica ainda em construção.

Uma fazenda dentro da fazenda

É importante abandonar a imagem de que os imigrantes simplesmente chegaram à sede de Ibicaba e receberam casas ao redor da residência de Nicolau Vergueiro. A organização espacial era diferente. A colônia germânica constituía praticamente uma pequena povoação dentro da propriedade, separada do núcleo principal da fazenda.

Carlos Perret Gentil visitou Ibicaba poucos anos depois e deixou uma descrição extraordinariamente detalhada. Em 1851, informou que a aldeia dos colonos ficava aproximadamente um quarto de légua distante da sede, sobre uma pequena elevação na encosta do Morro Azul, cercada por cafezais. Naquele momento havia 39 casas construídas segundo um mesmo padrão e distribuídas em ruas retas. No centro havia um grande espaço reservado a um edifício público e um chafariz. 

Mas aquela era Ibicaba quatro anos depois da chegada dos Fischer. Em junho de 1847, a situação era muito mais rudimentar. As fontes indicam que as primeiras famílias receberam pequenas casas sem divisões internas. Cabia aos próprios moradores subdividir, mobiliar e conservar essas habitações. A colônia foi progressivamente tomando a forma de uma pequena vila. Isso ajuda a imaginar o primeiro impacto.

Casa de colonos em Ibicaba
Casa de colonos em Ibicaba

Depois de Flonheim, das cidades europeias, de Hamburgo, do navio, de Santos e das estradas paulistas, a família entrava numa casa extremamente simples no interior do Brasil. Provavelmente havia pouco mobiliário. Objetos trazidos da Alemanha ganhavam enorme importância.

Uma panela, uma ferramenta, uma peça de roupa, um baú ou uma Bíblia não eram apenas utensílios: constituíam parte do mundo anterior que ainda acompanhava aquelas pessoas. O restante precisaria ser construído.

Os primeiros dias

A primeira necessidade era descansar. Depois vinha algo muito mais complicado: entender como funcionava Ibicaba. Onde buscar água? Onde obter comida? Qual era a casa da família? Quem comandava a colônia? Onde ficavam os cafezais? Quais cafeeiros caberiam a cada família? Onde poderiam plantar alimentos? A quem deveriam recorrer quando precisassem de alguma coisa? Como comprar mantimentos? Como seriam registradas as despesas?

E, talvez o problema mais imediato: como perguntar tudo isso sem falar português?

A barreira linguística era enorme. Pesquisas sobre Ibicaba mostram que muitos dos recém-chegados falavam alemão ou diferentes dialetos germânicos e tinham dificuldade para participar das negociações realizadas em português. Isso os tornava dependentes de administradores, intérpretes e intermediários. 

Aprender algumas palavras devia tornar-se rapidamente uma necessidade. Água. Comida. Café. Casa. Dinheiro. Trabalho. Números. Os primeiros rudimentos de português provavelmente foram aprendidos menos em aulas do que na urgência do cotidiano.

Conhecendo a nova casa

O contrato estabelecia que a família receberia moradia e uma quantidade de cafeeiros proporcional à sua capacidade de trabalho. A unidade fundamental do sistema não era simplesmente o indivíduo. Era a família.

Isso fazia enorme diferença. Um casal com vários filhos suficientemente crescidos para trabalhar possuía maior capacidade produtiva do que um casal jovem com crianças pequenas.

A família Fischer era numerosa. Martin e Katharina haviam chegado acompanhados dos filhos. Portanto, aos olhos da administração de Ibicaba, não representavam apenas uma família a ser alojada. Representavam também uma unidade potencial de trabalho.

Martin Fischer tinha cerca de 43 anos quando chegou em Ibicaba. Sua esposa Katharina Stumpf tinha aproximadamente 53 anos. Os filhos eram sete, pela ordem: Anton 24, Johann Jacob 22, Johann Martin 18, Friedrich 15, Heinrich 13, Katharina 10 e Philipp de 4 anos.

Em algum momento dos primeiros dias, um funcionário da colônia precisou mostrar aos Fischer aquilo que passaria a constituir parte essencial de sua vida: os seus cafeeiros. Martin provavelmente conhecia pouco ou nada sobre café. Sua experiência europeia estava ligada a outro ambiente agrícola e, profissionalmente, ao trabalho com pedra. 

Agora precisaria aprender a reconhecer o cafeeiro, compreender seu ciclo, limpar a área ao redor das plantas, participar da colheita e entender o processo pelo qual aquelas pequenas frutas vermelhas acabariam transformadas numa mercadoria exportada para lugares tão distantes quanto a Europa que ele acabara de deixar.

Um mundo de café

O Morro Azul e as terras ao redor da colônia eram progressivamente ocupados por cafezais. Havia uma divisão espacial importante dentro da propriedade. O trabalho dos colonos europeus, organizado por famílias, não funcionava exatamente como o trabalho das turmas de escravizados. Pesquisas sobre a organização de Ibicaba mostram áreas distintas de cultivo e moradia associadas aos diferentes regimes de trabalho. 

Isso não significava ausência de contato. Pelo contrário. Os imigrantes viviam dentro de uma fazenda escravista. Encontravam pessoas escravizadas nos caminhos, instalações, trabalhos agrícolas e serviços. Para aqueles alemães recém-chegados, tratava-se de uma realidade social profundamente diferente daquela que haviam conhecido na Europa.

E havia uma contradição evidente: eles haviam emigrado em busca de melhores condições de vida e liberdade econômica, mas começavam sua experiência brasileira numa propriedade onde centenas de pessoas não eram livres.

Cafezal em Ibicaba
Cafezal em Ibicaba

A terra para comer

Os cafeeiros não resolveriam todas as necessidades. Café produzia renda. Não alimentava uma família. Por isso o sistema permitia que os colonos cultivassem roças de mantimentos. Milho, feijão, mandioca e outros produtos começariam progressivamente a entrar no cotidiano alimentar.

A adaptação não foi apenas econômica. Foi também culinária. Produtos desconhecidos passaram à mesa. Receitas europeias foram adaptadas. Ingredientes brasileiros substituíram ingredientes impossíveis ou caros de encontrar. Pouco a pouco, uma cozinha germânica transplantada para os trópicos começava a mudar.

Martin encontra outra forma de trabalhar

Aqui a história particular de Martin Fischer começa a adquirir uma importância extraordinária. Ele não era apenas agricultor. Martin chegara da Europa identificado profissionalmente como Steinhauer — trabalhador especializado no corte e preparação de pedra. Ibicaba, por sua vez, estava em expansão. Centenas de pessoas precisavam ser alojadas. Casas precisavam ser construídas. Estruturas necessitavam de reparos.

A colônia crescia. E a documentação contábil que chegou até nós traz um indício particularmente importante: Martin recebeu valores relacionados à construção de casas.

Contabilidade Martin Fischer 1848
Contabilidade Martin Fischer 1848

Isso significa que a profissão aprendida na Alemanha não ficou simplesmente para trás. Em algum momento, sua habilidade passou a ser utilizada na nova realidade brasileira. Talvez esteja aí uma das primeiras chaves para compreender a trajetória econômica da família.

Enquanto outros colonos dependiam quase exclusivamente da lavoura, Martin possuía um ofício que poderia gerar renda adicional. A mesma mão que havia trabalhado pedra na região de Flonheim agora ajudava a construir uma colônia no interior paulista.

Uma aldeia começa a nascer

A transformação foi rápida. Quando Perret Gentil visitou Ibicaba em 1851, encontrou uma comunidade muito mais organizada do que aquela de 1847. As casas já formavam ruas. Havia um chafariz. Cafezais cercavam a povoação.

As habitações antigas ainda existiam a alguma distância e algumas famílias aguardavam a conclusão de novas construções. É possível que Martin tenha participado materialmente dessa transformação.

O imigrante chegado em 1847 podia olhar, quatro anos depois, para uma pequena vila que não existia daquela forma quando desembarcara. E talvez reconhecer em algumas paredes o resultado do próprio trabalho.

Aqueles primeiros dias foram, portanto, muito mais do que uma simples adaptação. Representaram a passagem definitiva de emigrantes para colonos. A viagem havia terminado. Agora era necessário aprender a viver.

Panorâmica de Ibicaba
Panorâmica de Ibicaba

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