Entre a prosperidade e a dívida – Por que alguns colonos venceram e outros não

Quatro anos depois da chegada dos Fischer, um visitante encontrou uma Ibicaba surpreendente. Carlos Perret Gentil esteve na fazenda e publicou, em 1851, A Colônia Senador Vergueiro. Sua descrição era entusiasmada.

Encontrou famílias que considerou prósperas, casas com objetos que julgava superiores aos encontrados entre aldeões europeus relativamente abastados e colonos que, segundo ele, viviam com fartura. Chegou a defender que as dívidas poderiam ser quitadas em poucos anos.  Parecia a confirmação da promessa feita na Europa. Mas havia outro lado.

É preciso desconfiar de uma fonte excessivamente feliz

Perret Gentil é indispensável para conhecer os primeiros anos de Ibicaba. Mas não pode ser lido ingenuamente. Ele admirava o sistema de Vergueiro. Seu livro apresentou a experiência de maneira tão favorável que posteriormente foi utilizado para tornar a imigração ao Brasil atraente aos europeus. Outros observadores, entre eles Thomas Davatz e Johann Jakob von Tschudi, criticariam essa representação. 

Portanto, quando Gentil descreve prosperidade, devemos considerar duas coisas simultaneamente: provavelmente havia colonos realmente prósperos; mas sua obra tinha interesse em enfatizá-los. A realidade não era uniforme.

O sucesso era possível

Esse ponto é importante. Transformar todos os parceiros de Ibicaba em vítimas passivas seria tão incorreto quanto transformar todos em colonos prósperos. Algumas famílias conseguiram resultados econômicos positivos. A lógica permite entender por quê. Uma família numerosa, saudável e com vários adultos produtivos podia cuidar de mais cafeeiros. Uma boa colheita aumentava a receita.

Poucas despesas aceleravam a amortização. Produzir alimentos diminuía compras. Um ofício especializado podia gerar renda adicional. Uma boa relação com a administração podia abrir oportunidades. Em alguns casos, a dívida podia ser quitada. E, uma vez livre dela, surgia a possibilidade de deixar a fazenda e procurar oportunidades em Limeira, Rio Claro, Piracicaba ou outras localidades.

O fracasso também era possível

Bastava alterar algumas variáveis. Doença. Morte. Muitas crianças pequenas. Safra ruim. Endividamento elevado. Compras frequentes. Juros. Conflitos com a administração. Baixa produtividade. Tudo isso podia transformar poucos anos de dívida em um compromisso prolongado.

O sistema tinha ainda uma característica particularmente dura: pesquisas mostram que determinadas obrigações financeiras podiam continuar recaindo sobre a família quando o devedor morria. A promessa de recomeçar a vida podia, portanto, transformar-se em uma armadilha financeira.

O recrutamento também tinha falhas

Nem todos os europeus contratados eram agricultores experientes. O próprio Nicolau Vergueiro reconheceria posteriormente dificuldades de adaptação de parte dos imigrantes, e estudos apontam problemas no recrutamento, em que agentes tinham incentivos para reunir pessoas em quantidade, nem sempre selecionando trabalhadores adequados à agricultura tropical. 

Isso é especialmente interessante no caso de Martin. Ele era um Steinhauer. Não era, originalmente, um cafeicultor. Assim como ele, havia entre os imigrantes artesãos e pessoas com outros ofícios. Isso podia inicialmente ser uma desvantagem agrícola. Mas numa fazenda em expansão também podia transformar-se em oportunidade.

Construir para pagar a dívida

Os registros de Martin sugerem justamente isso. Sua habilidade profissional permitiu-lhe realizar trabalhos que não dependiam diretamente do café. Casas precisavam ser erguidas. Uma colônia com centenas de habitantes precisava crescer. Cada serviço adicional podia significar crédito. E cada crédito podia aproximá-lo da quitação.

Essa hipótese precisa ser demonstrada ano a ano pelos documentos contábeis, mas abre uma possibilidade fascinante: talvez Martin tenha conseguido enfrentar o sistema de parceria não apenas como agricultor, mas utilizando a profissão que aprendera em Flonheim.

Sua história individual mostra por que generalizações sobre os colonos são perigosas. Cada família possuía uma economia própria.

Os filhos aprendem mais rápido

Existe outro fator. A primeira geração precisava aprender tudo. Língua. Moeda. Agricultura. Regras. Geografia. Costumes. 

Os filhos tinham uma vantagem. Anton Fischer, especialmente, parece ter aprendido a circular nesse novo mundo. Com o tempo, aparece ligado à administração e à contabilidade. Isso representa uma mudança social importante.

A família que havia chegado como mão de obra contratada começava a ocupar posições diferentes dentro da estrutura local. Esse tipo de trajetória também ajuda a explicar por que alguns descendentes de colonos acabariam deixando as fazendas e estabelecendo-se como comerciantes, artesãos, proprietários ou empresários nas cidades do interior.

Há estudos especificamente dedicados à transformação de antigos colonos de Ibicaba em empresários em Piracicaba, mostrando que a experiência da parceria não necessariamente determinou permanentemente sua posição social. 

A saída de Ibicaba

Não sabemos exatamente quando Martin Fischer deixou a Fazenda Ibicaba. Nenhum documento localizado até o momento registra uma data precisa para sua saída, uma quitação final acompanhada de desligamento ou o lugar para onde se mudou imediatamente depois. Ainda assim, diferentes documentos permitem reconstruir parte dessa história e estabelecer uma hipótese bastante provável: Martin parece ter sido um dos colonos da primeira leva que conseguiu superar relativamente cedo as dívidas do sistema de parceria e deixar a fazenda em situação econômica favorável.

A trajetória começa em 1847. Quando chegou a Ibicaba com Katharina e os filhos, Martin não trazia apenas braços para trabalhar no café. Trazia consigo uma profissão: era Steinhauer, trabalhador especializado em pedra e construção. Essa habilidade parece ter adquirido importância rapidamente numa colônia que precisava erguer moradias para centenas de recém-chegados.

Os documentos contábeis preservados dos primeiros anos mostram Martin não apenas como parceiro agrícola, mas também recebendo valores por trabalhos relacionados à construção de casas. Esse detalhe é fundamental para compreender o que pode ter acontecido posteriormente. Enquanto a renda de muitos parceiros dependia quase exclusivamente do resultado das colheitas, Martin possuía uma segunda fonte de recursos.

Durante o dia, a família podia trabalhar nos cafezais e nas culturas de subsistência. Paralelamente, Martin conseguia aproveitar o ofício que trouxera da Alemanha para obter créditos adicionais. Em um sistema no qual o principal objetivo econômico do colono era reduzir a dívida contraída com a Vergueiro & Companhia, qualquer renda extra fazia diferença.

Uma família com muitos braços

Outro elemento provavelmente favorecia os Fischer. Martin e Katharina chegaram ao Brasil com vários filhos, alguns deles já adolescentes ou jovens adultos. No sistema de parceria, isso representava uma vantagem econômica importante. A família constituía uma unidade produtiva, e a quantidade de trabalho que conseguia realizar dependia diretamente do número de braços disponíveis.

Anton, o filho mais velho, já tinha cerca de 24 anos quando chegou ao Brasil. Outros filhos também estavam entrando ou já haviam entrado em idade produtiva. Assim, os Fischer reuniam duas características potencialmente favoráveis: uma família numerosa e uma profissão especializada capaz de gerar renda adicional.

Isso não prova, isoladamente, que tenham enriquecido. Mas ajuda a explicar por que poderiam ter reduzido a dívida mais rapidamente do que famílias menores, com crianças pequenas ou dependentes exclusivamente do café.

1848: Martin parece satisfeito

Há ainda uma pista particularmente interessante. Fontes sobre os pioneiros de Ibicaba mencionam Martin Fischer entre os colonos que teriam escrito para a Alemanha em 1848, descrevendo favoravelmente a experiência na fazenda. A carta original ainda não foi localizada, portanto seu conteúdo precisa ser tratado com cautela. A referência, entretanto, é relevante porque sugere que, aproximadamente um ano depois da chegada, a situação da família não parecia ser necessariamente negativa. 

É também importante considerar que correspondências favoráveis podiam ser utilizadas pela própria empresa colonizadora como propaganda para atrair novos trabalhadores. Por isso, enquanto não encontrarmos a carta original, não é possível saber quanto havia de manifestação espontânea de Martin e quanto poderia ter sido mediado pelo interesse de Vergueiro. Ainda assim, a referência existe e precisa fazer parte da história.

Por volta de 1850, alguma coisa parece mudar

É no início da década de 1850 que os indícios começam a apontar para uma transformação na situação da família. Anton Fischer, que havia chegado como filho de um parceiro, passa a aparecer associado à estrutura administrativa de Ibicaba.

José Sebastião Witter, ao estudar a documentação da fazenda, situa os diretores de origem alemã João Adolfo Jonas e Anton Fischer no exercício do poder administrativo em Ibicaba no período posterior a 1850. Um estudo baseado, entre outras fontes, no Livro Mestre da colônia também afirma que Jonas e Anton Fischer exerceram a direção entre aproximadamente 1850 e 1867. É uma mudança social considerável.

Em 1847, Anton chegara como integrante de uma família endividada perante a companhia. Poucos anos depois, estava do outro lado da contabilidade. A ascensão de Anton pode ser mais um sinal de que a situação econômica e social dos Fischer havia melhorado rapidamente.

Mas existe uma distinção fundamental: a permanência de Anton na administração não significa necessariamente que Martin e o restante da família continuassem morando como parceiros em Ibicaba. Ao contrário, é perfeitamente possível que as trajetórias tenham se separado.

Martin pode ter saído enquanto Anton ficou

Essa talvez seja atualmente a hipótese que melhor concilia os documentos. Depois de alguns anos de trabalho, Martin e Katharina teriam conseguido reduzir ou quitar seus compromissos e deixado a condição de parceiros. Anton, entretanto, permaneceu em Ibicaba porque havia encontrado ali uma oportunidade profissional muito diferente da agricultura: a administração da colônia.

Pai e filho, portanto, podem ter seguido caminhos distintos. Martin deixava o sistema. Anton passava a administrá-lo. É uma possibilidade particularmente interessante porque explica por que encontramos Anton durante tantos anos nos registros administrativos de Ibicaba sem que isso obrigue a concluir que toda a família continuasse vinculada à fazenda.

Ascensão de Anton Fischer
Ascensão de Anton Fischer

Um documento de 1857 fornece a pista mais importante

A evidência mais forte aparece alguns anos depois. Uma relação encaminhada pelo senador Vergueiro e posteriormente reproduzida em estudos sobre a Revolta dos Parceiros menciona Martin Fischer entre os colonos que já haviam deixado Ibicaba com recursos e possuíam propriedade. 

Esse registro é extremamente importante. Ele estabelece um limite cronológico seguro: em 1857, Martin já havia deixado a condição de colono de Ibicaba. Mais do que isso, a maneira como aparece na relação sugere que não havia saído simplesmente fugindo da dívida ou abandonando o contrato. Martin era apresentado como exemplo de colono que deixara a fazenda com dinheiro e propriedade.

Precisamos naturalmente considerar a origem dessa informação. Vergueiro tinha interesse, especialmente depois da Revolta dos Parceiros, em demonstrar que seu sistema permitia aos imigrantes prosperar. Portanto, uma relação preparada por ele não deve ser tomada como uma avaliação imparcial. Mas isso não elimina seu valor documental.

O nome de Martin aparece associado a uma condição concreta: já não estava em Ibicaba e era apresentado como economicamente estabelecido.

Colonos que deixaram a colônia 1857
Colonos que deixaram a colônia 1857

Teria saído já em 1850?

Aqui começa a hipótese. É possível que a saída tenha ocorrido consideravelmente antes de 1857. A ascensão de Anton na administração a partir do início da década de 1850 é um indício. Outro elemento que precisa ser explorado são os próprios documentos contábeis de Martin.

Se possuímos contas de 1847, 1848 e 1849, mas seu nome desaparece posteriormente da sequência documental enquanto outros colonos continuam registrados, essa ausência pode ser significativa.

Sozinha, ela não prova a saída. Um livro pode ter se perdido. Um registro pode estar em outra seção. Uma conta pode ter sido transferida. Mas, combinada com as demais evidências, a ausência ganha importância. Por isso, a pergunta documental decisiva passa a ser: qual é a última conta conhecida de Martin Fischer como parceiro de Ibicaba?

Se o último lançamento estiver em 1849 ou 1850 e os Livros Mestres seguintes realmente não contiverem mais sua conta, teremos uma evidência bastante forte de que sua saída ocorreu aproximadamente nesse período.

Piracicaba surge no horizonte

Há ainda uma pista geográfica. A família começa a aparecer documentalmente na região de Piracicaba, então chamada Constituição. Em 5 de setembro de 1850, nasceu ali Martinho Fischer, filho de Anton Fischer e Elizabeth Barth. Um mês depois, em 5 de outubro, o menino foi batizado na Matriz de Santo Antônio. Os padrinhos foram justamente Martin Fischer e Catharina Fischer, seus avós paternos. Esse registro é particularmente interessante.

Ele comprova que Martin e Katharina estavam presentes — ou ao menos suficientemente integrados à vida religiosa e familiar de Constituição/Piracicaba — em outubro de 1850. Mas precisamos evitar um salto lógico.

Ser padrinho em Piracicaba não prova que Martin já morasse ali. Ibicaba e Constituição estavam ligadas por caminhos regionais, e ele poderia ter se deslocado para o batismo do neto. Ainda assim, quando colocamos essa informação ao lado do possível desaparecimento de suas contas em Ibicaba e da ascensão administrativa de Anton, começa a surgir um cenário coerente.

A reconstrução mais provável

Portanto, com as evidências atualmente disponíveis, podemos estabelecer três níveis diferentes de certeza.

O que sabemos: Martin chegou a Ibicaba em 1847; trabalhou no sistema de parceria; os registros contábeis mostram também remuneração por trabalhos de construção; estava ligado à família em Piracicaba em 1850; e, em uma relação de 1857, aparece entre aqueles que já haviam deixado Ibicaba com recursos e propriedade. 

O que os indícios sugerem: sua situação econômica melhorou relativamente rápido; a renda proveniente de seu ofício e a força de trabalho de sua numerosa família podem ter acelerado a quitação da dívida; e sua saída provavelmente ocorreu antes de 1857.

O que ainda é hipótese: Martin pode ter deixado Ibicaba já por volta de 1850 ou nos primeiros anos daquela década, possivelmente estabelecendo-se na região de Piracicaba, enquanto Anton permaneceu na fazenda e ascendeu dentro da administração.

É, atualmente, a reconstrução que melhor concilia as fontes.

De parceiro a homem livre de sua dívida

Se essa hipótese estiver correta, a permanência de Martin Fischer como parceiro em Ibicaba pode ter sido relativamente curta. Talvez apenas três, quatro ou poucos anos. É uma perspectiva bastante diferente daquela que normalmente associamos aos colonos endividados do sistema de parceria. Martin parece ter encontrado uma maneira de utilizar aquilo que já sabia fazer.

O homem que deixara Flonheim como Steinhauer não dependera apenas daquilo que precisou aprender no Brasil. Seu antigo ofício provavelmente lhe permitiu ganhar dinheiro numa colônia que precisava desesperadamente construir.

A numerosa família oferecia braços para o café. Martin oferecia também uma especialização. Anton, por sua vez, encontrava espaço na administração. Cada membro começava a encontrar seu próprio caminho.

Em algum momento ainda desconhecido do início daquela década, Martin pode ter feito algo que, poucos anos antes, parecia extremamente distante: acertado suas contas, reunido seus pertences e deixado Ibicaba não como emigrante recém-chegado, mas como um homem estabelecido no Brasil.

Não sabemos ainda o dia em que isso aconteceu. Não sabemos quanto dinheiro levava. Nem identificamos definitivamente a propriedade mencionada em 1857. Mas sabemos que, dez anos depois de sua chegada, Martin já não era apresentado como parceiro endividado de Vergueiro. Era citado como um dos colonos que haviam saído da fazenda com recursos e propriedade.

Para alguém que, em 1847, desembarcara em Santos carregando uma dívida e a esperança de começar novamente, essa transformação é talvez uma das evidências mais importantes de que, pelo menos para Martin Fischer, a primeira etapa do projeto migratório havia funcionado.

Ibicaba muda

Enquanto algumas famílias melhoravam de vida, novas levas chegavam. A população crescia. A estrutura administrativa tornava-se mais complexa. O sistema de parceria espalhava-se.

Entre 1847 e 1857, formas semelhantes de contrato passaram a ser empregadas em dezenas de grandes propriedades do Oeste Paulista. Ibicaba transformara-se em laboratório.

E justamente por isso seus problemas também ganhariam repercussão internacional. Na década de 1850, acusações de contas injustas, restrições, endividamento e abusos tornaram-se mais frequentes. Em 1856, a tensão explodiria na famosa Revolta dos Parceiros, associada sobretudo à liderança de Thomas Davatz.

A experiência que havia sido apresentada como modelo passaria a ser denunciada na Europa como exemplo dos perigos da emigração para as fazendas brasileiras.

A Revolta dos Parceiros

Tomás Davatz
Tomás Davatz

Também chamada de Revolta de Ibicaba, foi um movimento de contestação dos imigrantes europeus que trabalhavam pelo sistema de parceria na Fazenda Ibicaba. O episódio começou no fim de 1856, atingiu seu momento mais tenso em 24 de dezembro daquele ano e teve desdobramentos até o início de 1857. 

O principal líder foi o suíço Thomas Davatz, mestre-escola e colono de Ibicaba. Ele havia sido encarregado por emigrantes suíços de relatar às autoridades de seu país as condições encontradas no Brasil. Com o tempo, tornou-se porta-voz das reclamações dos parceiros, sobretudo contra a falta de transparência nas contas, os preços cobrados pelos mantimentos, critérios de pesagem e venda do café, juros e despesas lançadas nas contas e a dificuldade de muitas famílias para quitar as dívidas contraídas com a fazenda. 

Em dezembro de 1856, Davatz e outros colonos prepararam uma lista de reivindicações. Cerca de 85 colonos assinaram o documento, e Davatz pretendia que o Consulado Suíço promovesse uma investigação independente sobre o cumprimento dos contratos de parceria. Os participantes eram principalmente imigrantes de língua alemã — sobretudo suíços e também trabalhadores originários da Turíngia e de outras regiões germânicas. 

O momento decisivo ocorreu na véspera de Natal, 24 de dezembro de 1856. Nicolau Vergueiro chamou Davatz para uma reunião na casa-grande. Estavam presentes, entre outros, o próprio Vergueiro, seu filho Luís, integrantes da administração da fazenda como Adolph Jonas, o professor Alscher e o médico da colônia Dr. Gattiker. A discussão girou em torno das acusações feitas pelos colonos e da possibilidade de uma investigação externa. 

Enquanto Davatz estava dentro da casa, colonos que aguardavam do lado de fora acreditaram que ele poderia estar sendo ameaçado ou preso. Um mensageiro correu até a colônia e pediu ajuda. Em pouco tempo, homens e mulheres dirigiram-se à sede levando espingardas, pistolas, foices, ancinhos, cacetes e outras ferramentas de trabalho. Dois tiros chegaram a ser disparados, mas não houve uma batalha aberta nem um massacre. 

A situação foi controlada nos dias seguintes. A pequena força policial de Limeira não era suficiente, e houve mobilização da Guarda Nacional, além da intervenção de representantes e autoridades ligados aos suíços. O levante armado terminou sem uma grande confrontação militar, mas as reivindicações não desapareceram imediatamente; os colonos continuaram contestando aspectos do sistema e alguns permaneceram armados por algum tempo. 

A Revolta dos Parceiros não acabou com Ibicaba naquele momento, mas teve consequências profundas. As denúncias de Davatz chegaram à Europa e, depois de seu retorno à Suíça, ele publicou em 1858 um livro relatando as condições dos colonos. A repercussão contribuiu para desacreditar o sistema de parceria brasileiro em diversos países europeus e dificultou o recrutamento de novos trabalhadores para fazendas paulistas. 

A revolta mostrou que o problema não era necessariamente a imigração ou o trabalho livre em si, mas a enorme desigualdade de poder existente no sistema de parceria — especialmente em torno das dívidas, da contabilidade e da capacidade dos colonos de fazer valer o contrato diante dos proprietários. Ela se tornou um dos episódios mais emblemáticos da transição brasileira entre o trabalho escravizado e novas formas de trabalho livre. 

Mas os Fischer pertenciam a uma geração anterior

Quando Davatz chegou, os Fischer já tinham anos de experiência no país. Conheciam a língua melhor. Conheciam a região. Possuíam relações. Alguns já haviam construído novos caminhos.

Na ocasião da Revolta dos Parceiros, Martin Fischer, sua esposa e filhos já haviam quitado a dívida da família e deixado a fazenda Ibicaba. Tal fato teria ocorrido por volta de 1850/51.

Por outro lado, Anton Fischer, filho mais velho de Martin, havia deixado de ser um colono para fazer parte da administração da colônia Vergueiro.

A grande questão para eles deixava progressivamente de ser: “Conseguiremos sobreviver em Ibicaba?”

E passava a ser: “Existe uma vida possível fora de Ibicaba?”

Anton Fischer: de colono a administrador

Enquanto Martin Fischer parece ter deixado Ibicaba depois de conseguir superar as obrigações financeiras contraídas com a imigração, seu filho mais velho seguiu um caminho diferente. Anton Fischer permaneceu ligado à fazenda.

Quando desembarcou no Brasil em 1847, tinha aproximadamente 24 anos. Chegara como integrante de uma família de parceiros. Poucos anos depois, porém, seu nome começava a aparecer associado à administração da mesma colônia em que sua família havia iniciado a vida brasileira.

A documentação permite acompanhar parcialmente essa ascensão. Em meados da década de 1850, João Adolfo Jonas ocupava a direção da Colônia Senador Vergueiro. Um relatório elaborado por ele em 1855, enviado pelo senador Vergueiro ao presidente da Província de São Paulo, demonstra a importância de Jonas na administração e no acompanhamento das famílias de imigrantes. 

Anton Fischer parece ter crescido profissionalmente dentro dessa estrutura. Na época da Revolta dos Parceiros, em 1856, referências posteriores colocam Jonas e Fischer conjuntamente na direção da colônia, com Jonas ocupando a posição principal e Fischer associado à vice-direção. Estudos sobre Ibicaba afirmam que os dois diretores de origem alemã exerceram poder sobre a colônia durante boa parte do período compreendido de 1847 a 1857 Adolf Jonas e de 1857 a 1871 Anton Fischer. 

Não foi localizado, até o momento, um documento que estabeleça a data exata da nomeação de Anton ou que o identifique formalmente como “assistente de Jonas”. A sequência documental, entretanto, permite considerar bastante plausível que tenha iniciado sua trajetória administrativa em posição subordinada ou auxiliar e adquirido responsabilidades progressivamente.

Os livros de contabilidade fornecem uma evidência ainda mais importante. Durante a década de 1860, o nome e a assinatura de Anton Fischer aparecem repetidamente associados às contas dos colonos de Ibicaba entre 1862 e 1870. Os Livros Mestres registram sua atuação em exercícios sucessivos, demonstrando que o antigo imigrante participava diretamente da administração econômica da propriedade. 

Assinatura Anton Fischer
Assinatura Anton Fischer

Assim, em aproximadamente quinze anos, sua trajetória havia sofrido uma transformação extraordinária: em 1847, Anton chegara a Ibicaba como filho de um colono endividado; na década de 1860, era um dos homens responsáveis por administrar as contas de outros colonos.

Essa ascensão, entretanto, trouxe também conflitos. O viajante suíço Johann Jakob von Tschudi registrou duras acusações contra um diretor de sobrenome Fischer, retratado pelos colonos como autoritário e brutal. A historiografia sobre Ibicaba associa esse administrador a Anton Fischer. 

A acusação deve ser apresentada como aquilo que é: o testemunho crítico de Tschudi baseado nas reclamações que recolheu, e não como uma descrição neutra e definitivamente comprovada da personalidade de Anton.

Ainda assim, ela revela uma transformação social particularmente significativa. Anton havia conhecido Ibicaba primeiro como imigrante. Depois tornou-se parte de sua administração. De parceiro, passou a integrar a estrutura de poder da fazenda.

Martin Fischer quase emigrou para os EUA e não para o Brasil

Patriarca da família Fischer no Brasil, Martin Fischer tentou emigrar para os EUA, cerca de 10 anos antes de sua vinda para o Brasil. É o que consta em uma recente descoberta feita por Heitor Fischer, durante suas pesquisas.

Em contato com o Arquivo do Estado da Renânia Palatinado, obtivemos uma resposta interessante sobre Martin Fischer. Consta nos arquivos de emigração de Flonheim, no inventário H 51 do Distrito de Alzey, que o pedreiro, Martin Fischer, de Flonheim, de 33 anos de idade, em 30 de março de 1837, fez um pedido para que sua família emigrasse para a América do Norte.

As seguintes pessoas são especificadas como membros da família:

Katharina Elisabetha, nascida Stumpf, sua esposa, com 43 anos de idade
Anton, filho, 14 anos de idade
Johann Jacob, filho, 12 anos de idade
Johann Martin, filho, 08 anos de idade
Friedrich, filho, 05 anos de idade
Heinrich, filho, 03 anos de idade

O conselho distrital do Distrito de Alzey não levantou objeção ao pedido, no entanto, não está claro nos documentos se Martin Fischer e sua família realmente emigraram para a América do Norte em 1837. Não encontramos documentos que comprovem a saída da Alemanha, tão pouco que mostre a entrada nos EUA. Ao que tudo indica eles desistiram da viagem ou tiveram algum problema que impediu a emigração.

Documento do Arquivo do Estado de Hessen com a autorização de emigração de Martin Fischer e família em 1837
Documento do Arquivo do Estado de Hessen com a autorização de emigração de Martin Fischer e família, para os EUA, em 1837

Transcrição e tradução: Registro – por Martin Fischer, pedreiro em Flonheim, onde mora com sua família, quer emigrar para a América do Norte. Apareceu perante mim Martin Fischer, pedreiro, explicando que ele junto com sua família deseja ir para a América do Norte emigrar e se submeter aos regulamentos e leis. Para que nenhum obstáculo tenha aos seus projetos, sua família é constituída pelas seguintes pessoas: 1. Martin Fischer, entalhador, 33 anos. 2. a esposa, Katharina Elisabetha, nascida Stumpf, 43 ano de idade. 3. Anton, 14 anos de idade. 4. Johann Jacob, 12 anos.5. Johann Martin, 8 anos. 6. Friederich, 5 anos de idade. 7. Heinrich 3 anos. Depois de ler sua declaração ao declarante, ele assinou comigo.

Em 1837 ainda não havia nascido dois filhos mais novos de Martin Fischer e Katharina Stumpf. Por isso Katharina Fischer e Philipp Fischer não constam na lista citada acima. Ela nasceu em 1837 e pode inclusive ter sido o motivo dos pais não terem emigrado para os EUA, temendo o risco de viajarem com Catharina Stumpf gestante. Já Philipp nasceu em 1843, quando Catharina Stumpf estava com 49 anos, um fato também incomum pela idade avançada.

Não foram encontrado registros oficiais da vinda da família para o Brasil, mas fato é que Martin Fischer teria sido recrutado pela Vergueiro e Cia em 1846, como consta no livro de abertura da colônia Ibicaba e teria chegado com a família em 1847.

*Colaborou com informações Heitor Fischer

Anton Fischer de colono a diretor da fazenda Ibicaba

Anton Fischer, filho de Martin Fischer e Katharina Stumpf, emigrou da Alemanha para o Brasil, com os pais e irmãos, em 1847. Eles fizeram parte da primeira leva de colonos contratado pela Vergueiro e Cia, no regime de parceria, para trabalharem na fazenda Ibicaba, em Limeira, São Paulo.

Anton, que no Brasil se transformou em Antônio Fischer, nasceu em 27 de abril de 1823, em Flonheim, Alzey-Worms, no atual estado da Renânia-Palatinado, na Alemanha. Ele foi casado com Elizabeth Barth, no Brasil o nome de sua esposa se tornou Izabel, mas não conseguimos precisar, ainda, se ele se casou no Brasil ou se veio casado da Alemanha. O casal teve comprovadamente 6 filhos, todos no Brasil, são eles:

Martinho Fischer (1850-1913)

Antônio Fischer Filho (1852-1909)

Henrique Fischer Sobrinho (1855-?)

João Fischer (1856-?)

Sebastião Fischer (1859-?)

Bárbara Fischer (1862-?)

Depois de trabalhar com seu pai, mãe e irmãos na colônia, Anton Fischer foi diretor da Fazenda Ibicaba. O nome dele é citado em livros que tratam sobre o trabalho dos colonos na fazenda, como o clássico Ibicaba, uma experiência pioneira, de autoria do historiador José Sebastião Witter, que aponta que os diretores de origem alemã Adolph Jonas e Anton Fischer detiveram o poder no período da Revolta dos Colonos entre 1856 e 1857. Nesse período Jonas seria o diretor e Fischer o vice-diretor.

Documentos mostram que Anton Fischer pode ter ascendido na função e passou a ser diretor anos mais tarde e esteve na função de administrar as conta do empreendimento por pelo menos 10 anos, entre 1862 até 1872.

O nome de Anton ou Antônio Fischer aparece no Livro Mestre da colônia Vergueiro, como assinatura nos documentos de contabilidade dos colonos, como no exemplo abaixo:

Contabilidade do colono Jacob Blumer na fazenda Ibicaba
Relatório de contabilidade do colono Jacob Blumer na fazenda Ibicaba

Alguns registros que abordam o período da revolta dos colonos contam que o diretor da fazenda Ibicaba, de sobrenome Fischer, era uma figura pouco apreciada pelos colonos e motivo de reclamações. Como diz esse trecho do livro Viagem às províncias do Rio de Janeiro e São Paulo, de autoria de J.J. Tschudi (pág. 187): “Um dos piores elementos desta categoria miserável foi, sem dúvida, o diretor da fazenda Vergueiro, um certo Fischer, homem sem cultura nem educação, inominávelmente brutal, que veio a ter que se entender com a polícia e a justiça”.

Após o período na fazenda Ibicaba, por volta de 1873, Antônio Fischer, possivelmente viúvo (não conseguimos precisar ainda a data da morte de Elizabeth Barth), se estabeleceu em Rio Claro, ali ele morou na Rua Alegre, nº 05, atual Avenida Cinco e passou a trabalhar como negociante. Ele estreitou laços com a comunidade evangélica local, prova disso é que o nome dele consta como padrinho de casamento e de batismo em alguns registros luteranos da época.

Anton Fischer (administrador de Ibicaba) padrinho de Anton Koch
Anton Fischer (administrador de Ibicaba) padrinho de Anton Koch
Anton Fischer testemunha de casamento de Joahnn Laubenstein e Carolina Grahnert.
Anton Fischer testemunha de casamento de Joahnn Laubenstein e Carolina Grahnert
Anton Fischer padrinho de Anton Escher
Anton Fischer padrinho de Anton Escher

Em 08 de outubro de 1874, em Rio Claro, São Paulo, Anton Fischer, aos 51 anos, se casou, em segunda núpcias, com Paulina Grahnert, nascida em 11 de janeiro de 1846. Ela filha de Karl (Carlos) Grahnert e Margarida Grahnert, imigrantes provenientes da Turíngia, que também foram colonos em Ibicaba e chegaram no Brasil por volta de 1855/56.

Certidão de casamento de Anton e Paulina
Certidão de casamento de Anton e Paulina

Paulina Fischer faleceu pouco tempo depois do casamento, em 15 de novembro de 1875, em Rio Claro, São Paulo, onde foi sepultada no cemitério evangélico. O casal teria morado na Rua da Boa Vista, Nº 05, atual Rua Sete. O casal nao teve filhos.

Assento de óbito de Paulina Fischer, nascida Grahnert
Assento de óbito de Paulina Fischer, nascida Grahnert

O nome de Anton também aparece nos registros de membros/sócios do cemitério evangélico de Rio Claro, em 1879.

Lista de sócios do cemitério evangélico de Rio Claro
Lista de sócios do cemitério evangélico de Rio Claro

Antônio Fischer faleceu em 23 de agosto de 1884, aos 62 anos e foi sepultado no cemitério evangélico em Rio Claro, onde ele teria vivido seus últimos anos de vida. Sua residência teria sido na então Rua Alegre, Nº 5, atual Avenida Cinco.

Assento de óbito de Anton Fischer
Assento de óbito de Anton Fischer

Transcrição: Anton Fischer foi hoje aos 23 de agosto de 1884 – sepultado no Cemitério Evangélico local, natural da Alemanha, com 62 anos de idade.

Martin ou Martinho Fischer uma confusão inicial

Martinho Fischer e Martin Fischer

Quando iniciamos as pesquisas genealógicas sobre a família Fischer, descobrimos que nosso antepassado mais antigo até então, Henrique Fischer (1874-1939), era natural de Constituição, atual Piracicaba, São Paulo e filho de Martinho Fischer e Maria Dupre.

Este nome, Martinho Fischer, despertou nossa curiosidade quando descobrimos que um dos imigrantes da primeira lista de colonos da Fazenda Ibicaba se chamava Martin Fischer. Pensávamos que Martinho pudesse ser uma forma carinhosa de tratamento no diminutivo para o pai de Henrique.

Martin Fischer é um dos imigrantes recrutados em agosto de 1846 pela Vergueiro e Cia sob o contrato de trabalho no regime de parceria, para integrar o grupo de colonos pioneiros da Fazenda Ibicaba. Ele deixou o porto de Hamburgo, onde hoje é a Alemanha, rumo ao Brasil, em abril de 1847 e, depois de 42 dias de viagem pelo Oceano Atlântico, em 01 de junho, chegou em Santos, São Paulo, junto com os primeiros imigrantes contratados.

Lista original dos imigrantes no livro de abertura da Colônia Vergueiro
Lista original dos imigrantes no livro de abertura da Colônia Vergueiro em 1846
Lista dos imigrantes no livro de abertura da Colônia Vergueiro
Lista dos imigrantes no livro de abertura da Colônia Vergueiro em 1846

Depois de uma cansativa viagem, de Santos até Limeira, no lombo de cavalos e burros, em 16 de junho de 1847, junto com 75 famílias e 364 pessoas, Martin Fischer e sua família enfim chegavam na Fazenda Ibicaba, em Limeira, São Paulo.

Vale ressaltar que nesta lista dos primeiros colonos há apenas os nomes dos chefes de família e nada mais, diferente de listas posteriores da Colônia, que trazem dados como o local de origem, profissão, estado civil, o nome da esposa e ainda os dos filhos. 

Estávamos animados com nossas pesquisas, até descobrirmos que Martinho Fischer, pai de Henrique, nasceu em 1850. Com essa informação, comprovada pelo registro de óbito dele, em 1913, aos 63 anos, em Limeira, São Paulo, descartamos a possibilidade do nosso Martinho, ser o Martin Fischer que chegou em Ibicaba em 1847.

Mas não desistimos, nossas hipóteses levavam a pensar que Martinho pudesse ser filho de Martin. Continuamos as buscas até encontrarmos o assento de batismo de Martinho Fischer nos registros do Family Search.

No documento da Igreja Matriz de Nossa Senhora das Dores consta que Martinho Fischer nasceu em 05 de setembro de 1850 e foi batizado em 05 de outubro do mesmo ano. Ele era filho de Antonio Fischer e Izabel Barth.

Assento de batismos de Martinho Fischer
Assento de batismos de Martinho Fischer

Transcrição: No mesmo dia e igreja batizei e pus os santos olhos no menino Martinho, de idade de um mês, filho de Antonio Fischer e Izabel Barth. Foram padrinhos Martinho Fischer e sua mulher Catharina Fischer.

Este documento mostrou que Martinho não era filho do Martin Fischer de Ibicaba, mas com a informação sobre seu pai Antonio, descobrimos que ele era na verdade neto. Isso porque Antonio Fischer é na verdade Anton Fischer, um dos filhos de Martin.