De Santos a Ibicaba: a travessia pelo interior do Brasil

Se a travessia do Atlântico havia sido longa e desconfortável, o desembarque em Santos não significava o fim da viagem. Para Martin Fischer, Katharina e seus filhos, começava agora uma segunda travessia. Talvez mais curta em distância, mas certamente mais surpreendente: deixar o litoral, vencer a Serra do Mar e atravessar o interior da Província de São Paulo até a Fazenda Ibicaba, em Limeira.

Neste capítulo temos uma vantagem extraordinária: existe uma fonte publicada apenas quatro anos depois dos acontecimentos. Em A Colônia Senador Vergueiro, de 1851, Carlos Perret Gentil registrou informações específicas sobre a caravana de 1847. Segundo ele, o grupo saiu de Santos em 1º de junho e chegou a Ibicaba em 16 de junho. Descontando dois dias de descanso, foram 14 dias efetivamente em marcha. Gentil acrescenta que um cavaleiro sozinho normalmente faria o percurso em quatro dias e uma tropa carregada, em cerca de dez. 

Essa fonte será nossa principal referência. Quando a documentação não permite saber exatamente o que aconteceu com a caravana de 1847 — onde ela dormiu em determinada noite, por exemplo — faremos a distinção entre fato documentadocontexto histórico e reconstrução provável.

De Santos a Ibicaba o caminho dos imigrantes
De Santos a Ibicaba o caminho dos imigrantes

A viagem ainda não havia terminado

Imagine o momento. Depois de aproximadamente seis semanas no mar, centenas de emigrantes finalmente pisavam no Brasil. Tinham atravessado o Atlântico. Estavam cansados. Provavelmente alguns estavam debilitados pela viagem. Havia crianças pequenas. Famílias numerosas. Bagagens. Objetos pessoais. Ferramentas. Tudo aquilo que haviam decidido trazer da Europa para começar uma nova vida.

Mas Ibicaba não ficava perto de Santos. A fazenda estava a aproximadamente 200 quilômetros em linha terrestre, dependendo do caminho considerado, e entre o porto e o planalto havia uma enorme barreira natural: a Serra do Mar.

Na década de 1840 não existia ferrovia ligando Santos a São Paulo. A São Paulo Railway só seria inaugurada duas décadas depois. Portanto, os imigrantes teriam de fazer aquilo que comerciantes, tropeiros e viajantes faziam havia décadas: subir a serra por terra. E depois continuar pelo interior.

1º de junho de 1847

Perret Gentil fornece uma informação preciosa: “A caravana sahiu de Santos no 1.º de junho de 1847…” Isso nos permite estabelecer um marco cronológico muito mais seguro do que simplesmente dizer que os Fischer “chegaram a Santos em 1º de junho”.

O que podemos afirmar é: em 1º de junho de 1847, a caravana destinada a Ibicaba partiu de Santos. É importante imaginar a dimensão da operação. Não se tratava de meia dúzia de viajantes.

A leva que chegara da Europa era composta por mais de quatrocentas pessoas, e 401 seriam encaminhadas para Ibicaba. Estudos sobre a imigração de parceria confirmam 423 colonos chegados a Santos e 401 destinados à nova Colônia Senador Vergueiro. Mover centenas de homens, mulheres e crianças, além das bagagens, exigia planejamento.

A viagem pela Serra do Mar
A viagem pela Serra do Mar

Quem pagava essa viagem?

A viagem entre Santos e Ibicaba fazia parte da operação organizada pela Vergueiro & Companhia. O contrato de parceria previa que a firma financiaria não apenas a passagem transatlântica, mas também o transporte entre o porto e a fazenda. Esses gastos, porém, não significavam necessariamente gratuidade para o colono.

Eles entravam no sistema de adiantamentos e dívidas que posteriormente deveriam ser amortizadas pelo trabalho e pela participação da família na produção do café. Pesquisas sobre Ibicaba mostram que os valores financiados pela companhia eram posteriormente cobrados dos colonos com juros. Em outras palavras: cada quilômetro que aproximava Martin Fischer de Ibicaba também podia aumentar a dívida com a qual começaria sua nova vida.

Como viajavam?

Este é um ponto em que precisamos ser particularmente cuidadosos. Não encontramos até agora uma relação diária da caravana de Martin Fischer dizendo exatamente quem viajou montado, quem caminhou e em qual veículo cada mala foi transportada. Mas fontes sobre as levas conduzidas pela Vergueiro & Companhia naquele período permitem reconstruir o sistema utilizado. A principal força de transporte era animal. Mulas. Além delas, utilizavam-se carros e carroças para cargas, crianças, enfermos e pessoas incapazes de acompanhar longos trechos a pé.

Estudos sobre os imigrantes de Ibicaba descrevem grupos desembarcando em Santos e seguindo com malas, crianças e doentes acomodados em carros de duas rodas, enquanto parte dos adultos fazia trechos caminhando. Há também registros de mulheres e crianças transportadas em mulas em determinadas levas. 

Outra pesquisa sobre Ibicaba resume o deslocamento dos recém-chegados como transporte “de mula serra acima”. Portanto, não devemos imaginar 401 europeus confortavelmente instalados em carruagens. A cena provavelmente era muito diferente. Homens caminhando. Outros montados quando necessário. Mulheres e crianças alternando caminhada e transporte. Mulas carregadas. Carros transportando volumes. Guias e condutores. Uma longa coluna avançando lentamente pelos caminhos.

De Santos a Cubatão

A primeira etapa significava deixar a estreita planície litorânea. Santos era quente, úmida e cercada pela Mata Atlântica. Para pessoas provenientes de Rheinhessen, praticamente tudo devia parecer diferente. A vegetação era mais exuberante. Palmeiras e plantas tropicais. Árvores enormes. Pássaros desconhecidos. Insetos. Calor. Umidade. Montanhas cobertas por floresta apareciam no horizonte.

A pequena Flonheim de vinhedos e campos cultivados parecia pertencer a outro planeta. O caminho conduzia em direção a Cubatão, tradicional ponto de ligação entre o litoral e a serra. E diante deles surgia a primeira grande dificuldade da viagem brasileira.

A Serra do Mar

A muralha verde da Serra do Mar devia impressionar qualquer europeu recém-chegado. Em poucos quilômetros, o terreno subia violentamente. A floresta era densa. O clima úmido. Córregos e quedas d’água cortavam as encostas. Nuvens e neblina podiam envolver partes da serra. As chuvas transformavam caminhos de terra em lama.

Desde o período colonial, vencer essa barreira havia sido um dos grandes problemas de comunicação entre Santos e o planalto. Na época dos Fischer, porém, existia uma estrada relativamente nova.

A Estrada da Maioridade

Durante muito tempo, a principal ligação havia sido a famosa Calçada do Lorena, inaugurada no final do século XVIII. Mas na década de 1840 uma nova ligação estava sendo implantada: a Estrada da Maioridade.Ela representava uma tentativa de melhorar a circulação de pessoas e mercadorias entre Santos e São Paulo.

Registros históricos mostram que, no final de 1844, carros de eixo móvel já transitavam pela Serra da Maioridade e, em 1845, o transporte de cargas pesadas por esses veículos havia se intensificado. O próprio imperador D. Pedro II utilizou a subida da serra em 1846. Portanto, os Fischer chegaram justamente durante um período de transformação das comunicações paulistas. Ainda era uma viagem difícil. Mas já não era exatamente a mesma estrada utilizada algumas décadas antes.

Subindo a serra

Aqui podemos tentar imaginar a experiência física. O ritmo precisava ser lento. Animais carregados não podiam avançar rapidamente. Uma caravana com centenas de pessoas avançava ainda mais devagar. Crianças cansavam. Alguém podia adoecer. Uma carroça podia apresentar problemas. Uma mula podia se ferir. A chuva podia interromper o deslocamento. E havia centenas de bagagens.

Durante a subida, os imigrantes provavelmente olhavam para trás e viam a planície costeira ficando cada vez mais distante. Em determinados pontos elevados, o litoral podia ser observado abaixo. Era também uma espécie de despedida simbólica. O oceano que os ligava à Europa desaparecia. A partir dali, estavam entrando verdadeiramente no interior do Brasil.

O que comiam durante a viagem?

Esta é uma das perguntas mais interessantes porque a alimentação provavelmente produziu um dos primeiros choques culturais. Não temos um cardápio diário específico da caravana Fischer de 1847. Mas relatos de imigrantes alemães conduzidos de Santos para Ibicaba naquele mesmo contexto histórico descrevem uma alimentação extremamente simples durante o trajeto.

Duas coisas aparecem claramente: carne-seca ou carne de sol e farinha de mandioca. Um estudo baseado no diário de Jacob Diehl relata que, durante a viagem entre Santos e São Paulo, os imigrantes encontravam pelo caminho principalmente carne de sol e farinha de mandioca, alimentos aos quais não estavam habituados. Para alguém vindo de Flonheim, a farinha de mandioca seria uma novidade absoluta. 

A dieta dos Fischer na Alemanha era baseada em outro universo alimentar: pães. Batatas. Cereais. Repolho. Leguminosas. Carne suína. Enchidos. Sopas. Produtos derivados de leite quando disponíveis.

Agora aparecia a mandioca. Uma planta americana que provavelmente jamais haviam visto. A farinha seca, muitas vezes misturada a outros alimentos, seria uma das primeiras experiências concretas com a culinária brasileira.

Água e abastecimento

Água precisava ser obtida ao longo do caminho. Rios, córregos, fontes, pousos e propriedades forneciam pontos de abastecimento. A caravana não poderia transportar água suficiente para centenas de pessoas durante duas semanas. Da mesma maneira, alimentos precisavam ser adquiridos ou fornecidos ao longo da rota. As tropas que percorriam os caminhos do interior dependiam de uma rede de pousos e abastecimento criada justamente pela circulação entre o litoral, São Paulo e as regiões agrícolas.

Onde dormiam?

Não havia hotéis esperando centenas de imigrantes. Os padrões europeus de hospedagem simplesmente não existiam em grande parte da rota. Thomas Davatz, que faria o percurso alguns anos depois, chamou atenção para a precariedade das estradas brasileiras e para a ausência, fora dos maiores centros, de hospedarias comparáveis às europeias. 

Outros relatos sobre colonos alemães destinados a Ibicaba mencionam albergues ou pontos de parada existentes ao longo do caminho. Dependendo da etapa, os viajantes poderiam utilizar pousos, ranchos, propriedades, estruturas improvisadas ou instalações providenciadas pela própria companhia.

Devemos evitar afirmar que sabemos onde Martin dormiu em cada noite. Mas dificilmente aquelas acomodações seriam confortáveis. Depois de semanas dormindo em um navio, a família ainda passaria vários dias dormindo em condições provisórias.

São Paulo

Depois da Serra do Mar, a paisagem começava a mudar. A caravana avançava pelo planalto em direção à cidade de São Paulo. É praticamente inevitável que a rota passasse pela capital provincial, porque ela constituía o principal eixo entre Santos e o caminho para Campinas e Limeira. Relatos de grupos alemães enviados posteriormente a Ibicaba documentam seis dias entre Santos e São Paulo, seguindo pelo chamado Caminho do Mar. 

Não podemos, contudo, atribuir automaticamente os mesmos seis dias à caravana de 1847. Sabemos apenas que o percurso completo desta levou 16 dias corridos, com dois dias de descanso. 

A passagem dos imigrantes pela cidade de São Paulo
A passagem dos imigrantes pela cidade de São Paulo

Como era São Paulo em 1847?

Para Martin Fischer, São Paulo provavelmente não pareceria uma grande metrópole. Porque não era. A cidade possuía apenas algumas dezenas de milhares de habitantes. Igrejas dominavam sua silhueta. Casas térreas e sobrados alinhavam-se pelas ruas. As vias eram estreitas.

Havia estudantes da Faculdade de Direito, funcionários públicos, comerciantes, artesãos, religiosos, militares, tropeiros e uma numerosa população escravizada. As construções de taipa chamariam atenção de umSteinhauer acostumado ao arenito e à construção europeia.

Esse é um detalhe especialmente interessante para Martin. Um homem que havia passado a vida trabalhando pedra encontrava uma cidade cuja arquitetura tradicional utilizava extensivamente terra socada — a taipa de pilão. Até os materiais de construção anunciavam que ele havia chegado a outro mundo.

O choque da escravidão

Há outra experiência que não devemos minimizar. Pelo caminho, os Fischer encontrariam repetidamente pessoas escravizadas. Em Santos. Nas estradas. Em São Paulo. Nos pousos. Nas propriedades rurais. E finalmente em Ibicaba.

A Alemanha que Martin deixara possuía desigualdades sociais profundas, pobreza e estruturas hierárquicas, mas não uma sociedade organizada sobre a escravidão africana como o Brasil imperial.

Em 1847, a escravidão era visível no cotidiano. Homens e mulheres negros carregavam mercadorias. Conduziam animais. Trabalhavam nas casas. Nas lavouras. Nas estradas. Nos serviços urbanos.

Não sabemos o que Martin pensou. Qualquer tentativa de atribuir a ele uma reação moral específica seria invenção. Mas podemos afirmar que estava diante de uma estrutura social profundamente diferente daquela que conhecera.

E encontraria essa realidade também na propriedade onde viveria. Ibicaba mantinha 215 pessoas escravizadas quando os primeiros colonos germânicos foram estabelecidos ali em 1847. 

De São Paulo para o interior

A partir da capital, a viagem continuava em direção ao norte e noroeste. O caminho histórico para a região de Campinas seguia aproximadamente pelo eixo de Jundiaí. Depois, Campinas. E finalmente a região de Limeira.

Aqui precisamos novamente distinguir rota provável de paradas comprovadas. São Paulo, Jundiaí, Campinas e Limeira constituem o corredor histórico coerente entre Santos e Ibicaba, mas ainda não localizamos um diário da caravana de 1847 enumerando cada uma dessas localidades como pernoite.

Portanto, o possível percurso teria sido: Santos → Cubatão → Serra do Mar → São Paulo → região de Jundiaí → Campinas → Limeira → Fazenda Ibicaba.

A paisagem muda novamente

Depois de São Paulo, os imigrantes entravam cada vez mais no interior. A Mata Atlântica continuava presente, mas apareciam áreas abertas pela ocupação humana. Sítios. Fazendas. Pastagens. Roças. Canaviais. Engenhos. E cada vez mais: cafezais.

Campinas era uma das áreas agrícolas mais dinâmicas da província. O açúcar havia enriquecido a região. Agora o café avançava. Quanto mais a caravana seguia para Limeira, mais entrava no território da expansão cafeeira. Era exatamente esse processo econômico que havia trazido os Fischer ao Brasil.

Uma estrada sem ferrovia

Hoje é difícil imaginar a dimensão das distâncias naquela época. Não havia asfalto. Não havia automóveis. Não havia ferrovia. As estradas eram em grande parte caminhos de terra. Davatz, alguns anos depois, descreveria as estradas brasileiras como muito ruins, frequentemente sem calçamento ou saibro. 

Na estação seca, poeira. Na chuva, lama. Rodas podiam atolar. Animais escorregavam. Pontes eram precárias. Rios e córregos precisavam ser atravessados. Uma distância que atualmente seria percorrida em poucas horas exigia dias.

Isso explica por que Perret Gentil considerou relevante comparar os tempos: 4 dias: cavaleiro sozinho. 10 dias: tropa carregada. 14 dias efetivos: a caravana de imigrantes. A diferença revela o tamanho e a vulnerabilidade do grupo.

Quem acompanhava os imigrantes?

A caravana não poderia simplesmente ser abandonada à própria sorte. Havia pessoas responsáveis pela condução dos animais e das cargas e representantes ou empregados ligados à operação de transporte. Tropeiros e condutores conheciam os caminhos. Sabiam onde encontrar água. Onde alimentar os animais. Onde parar. Como atravessar determinados trechos. Como organizar as cargas.

A barreira linguística, entretanto, devia ser enorme. A maioria dos emigrantes falava alemão ou dialetos germânicos. Os brasileiros falavam português. A necessidade de intérpretes era tão evidente que, já na instalação em Ibicaba, Perret Gentil registra a presença de inspetores que conheciam português e alemãopara orientar os colonos. Isso sugere o grau de dependência que aquelas famílias tinham de intermediários.

As crianças

Entre os viajantes havia muitas crianças. Esse detalhe transforma completamente nossa percepção da viagem. Não era uma expedição composta apenas por homens adultos. Eram famílias. Uma criança precisava acompanhar o ritmo dos adultos durante aproximadamente duas semanas. As menores precisavam ser carregadas ou transportadas. Precisavam comer. Dormir. Enfrentar calor. Insetos. Chuva. Estradas ruins. Doenças. Depois de já terem atravessado o Atlântico.

No caso de Martin e Katharina, a viagem era ainda mais complexa porque eles estavam levando filhos de diferentes idades para um país que nenhum deles conhecia.

O que sentiam?

Aqui entramos na parte mais delicada da narrativa histórica. Não temos uma carta de Martin Fischer escrita durante o caminho dizendo: “Hoje estou com medo.”

Por isso não podemos colocar pensamentos específicos em sua boca. Mas podemos reconstruir as circunstâncias humanas. Provavelmente existia uma mistura de: cansaço, curiosidade, esperança, estranhamento, ansiedade e incerteza.

Eles haviam chegado ao Brasil. Isso por si só poderia representar alívio. A perigosa travessia oceânica terminara. Mas tudo era desconhecido. Não falavam a língua. Não conheciam a alimentação. Não conheciam as pessoas. Não sabiam exatamente como seria Ibicaba. Tinham uma dívida. Não podiam simplesmente voltar para casa. E a cada dia a Europa ficava simbolicamente mais distante.

Talvez também houvesse desconfiança

A viagem pelo interior provavelmente começava a revelar diferenças entre a imagem do Brasil construída na Europa e sua realidade. A propaganda falava de oportunidades. Agora eles viam estradas precárias. Calor. Florestas. Escravidão. Longas distâncias. Comida desconhecida. Acomodações simples.

Isso não significa que já estivessem arrependidos. Também havia elementos capazes de impressioná-los positivamente. A abundância de terras. A vegetação. A fertilidade aparente. A dimensão das propriedades. O clima sem o inverno rigoroso de Rheinhessen. E principalmente a expectativa de chegar ao lugar onde finalmente poderiam trabalhar e reconstruir a vida.

Limeira

Depois de quase duas semanas, a caravana aproximava-se de Limeira. A vila era jovem. Havia sido elevada à categoria de vila apenas em 1842. Portanto, os Fischer não chegaram a uma grande cidade consolidada. Entraram em uma região agrícola em acelerada transformação. O café estava mudando tudo. Terras valorizavam. Fazendas cresciam. Trabalhadores eram necessários. E justamente para atender essa necessidade centenas de europeus estavam chegando. Ibicaba ficava além.

16 de junho de 1847

Então aconteceu algo que Perret Gentil descreveu de maneira particularmente expressiva. Depois de tantos quilômetros, os colonos finalmente avistaram Ibicaba. Segundo o relato contemporâneo, atravessaram ainda uma área de mata e, ao final do caminho, encontraram-se diante da fazenda.

Era o destino sobre o qual haviam ouvido falar na Europa. A propriedade que aparecia nos contratos. O lugar pelo qual haviam deixado suas casas. Gentil escreveu que, ao avistarem Ibicaba, “os colonos tomaram novo alento”. É uma das raras passagens que nos aproxima diretamente do estado emocional daquela caravana.

A chegada em Ibicaba
A chegada em Ibicaba

Finalmente, Ibicaba

A primeira impressão descrita por Gentil foi positiva. Os recém-chegados encontraram recepção, alimentos em abundância, edificações e finalmente a possibilidade de repousar. Segundo ele, essas condições devolveram calma ao grupo depois da longa jornada. 

Precisamos ler a fonte com espírito crítico. Perret Gentil era um defensor do sistema de colonização de Vergueiro, e sua obra de 1851 apresentou Ibicaba de maneira bastante favorável. Pesquisas posteriores mostram que seus escritos acabaram inclusive sendo usados para tornar a experiência atraente a novos emigrantes europeus. 

Ainda assim, sua informação sobre datas e organização da caravana é extremamente valiosa. E naquele primeiro momento é perfeitamente plausível que o sentimento predominante fosse de alívio. A viagem havia acabado. Ou pelo menos eles acreditavam que sim.

As primeiras casas

A instalação ainda precisava ser organizada. Perret Gentil informa que Vergueiro esteve pessoalmente envolvido nesse processo. Inicialmente, duas famílias foram colocadas em cada casa, provisoriamente, enquanto outras acomodações eram preparadas. 

Isso revela que a colônia ainda não estava completamente pronta quando os alemães chegaram. Eles não receberam imediatamente uma casa individual perfeita esperando por cada família. A estrutura estava sendo construída.

Pesquisas posteriores mostram que o núcleo colonial ficava a aproximadamente um quilômetro da sede da fazenda e era formado por habitações simples cercadas por áreas de subsistência e cafezais. Era ali que começaria a vida dos Fischer no Brasil.

Um Steinhauer em uma fazenda em construção

Para Martin há ainda uma questão particularmente interessante. Ibicaba precisava crescer para receber centenas de pessoas. Casas precisavam ser construídas. Estruturas reparadas. Caminhos abertos. Instalações ampliadas. Martin era Steinhauer. Um trabalhador especializado em pedra.

Isso torna especialmente relevante a documentação contábil que já encontramos posteriormente associando Martin a pagamentos por construção de casas. Não podemos afirmar que ele começou esse trabalho imediatamente em 16 de junho.

Mas sua profissão europeia claramente possuía utilidade em uma colônia que precisava construir rapidamente novas moradias. A imigração não apagou necessariamente a profissão que Martin tinha em Flonheim. Ao contrário. Ela pode ter se tornado uma de suas primeiras vantagens no Brasil.

Uma nova vida

Naquela noite — ou em alguma das primeiras noites depois da chegada — Martin Fischer provavelmente dormiu pela primeira vez no lugar que passaria a chamar de casa no Brasil.

Desde Flonheim, sua família havia percorrido uma jornada extraordinária: Flonheim → Mainz → Arnheim → Amsterdã → Hamburgo → Oceano Atlântico → Santos → Serra do Mar → São Paulo → interior paulista → Ibicaba.

Meses de deslocamento. Diferentes territórios. Duas línguas. Dois continentes. Um oceano. E uma distância que tornava o retorno praticamente impossível para uma família sem recursos.

Em 16 de junho de 1847, segundo Perret Gentil, a viagem terminou. Mas a história verdadeiramente difícil estava apenas começando. Porque agora os Fischer precisavam descobrir uma coisa que nenhum contrato, agente de imigração ou anúncio na Alemanha poderia explicar completamente: como era realmente viver em Ibicaba.

E principalmente: seria possível trabalhar, pagar a dívida e construir no Brasil a vida que lhes havia sido prometida? Essa é a história do próximo capítulo.

A travessia da Alemanha para o Brasil

Quando partir se tornou uma possibilidade

Em meados da década de 1840, milhares de famílias da Europa Central faziam uma pergunta que seus antepassados provavelmente jamais haviam considerado seriamente: E se o futuro estivesse do outro lado do oceano?

A resposta não era simples. Emigrar significava abandonar a aldeia, os parentes, a língua, os costumes e tudo aquilo que durante gerações havia constituído o universo de uma família. Significava vender ou abandonar bens. Solicitar documentos. Viajar centenas de quilômetros até um porto. Entrar em um navio à vela. Atravessar o Atlântico. E aceitar que talvez nunca mais fosse possível voltar.

Mesmo assim, cada vez mais pessoas partiam. Como vimos anteriormente, a primeira metade do século XIX havia criado uma combinação explosiva nos Estados alemães. A população aumentava. A disponibilidade de terras era limitada. Pequenas propriedades eram divididas entre herdeiros. Trabalhadores enfrentavam períodos de desemprego. Artesãos sofriam com transformações econômicas.

As crises agrícolas de meados da década de 1840 agravavam a situação. E notícias sobre oportunidades na América circulavam com intensidade crescente. A América transformava-se em possibilidade. Para a maioria dos emigrantes alemães, o grande destino eram os Estados Unidos. Mas outros países também disputavam essa população. Entre eles estava o Brasil.

O Brasil queria imigrantes

O interesse brasileiro pela imigração europeia não começou em 1847. Desde as primeiras décadas do século XIX, autoridades brasileiras discutiam maneiras de atrair colonos europeus. As motivações eram diversas. Povoar regiões pouco ocupadas pelo Estado. Criar colônias agrícolas. Ampliar a produção de alimentos. Atrair artesãos e trabalhadores especializados. Ocupar áreas estratégicas. E, progressivamente, encontrar alternativas para a mão de obra em uma economia ainda profundamente dependente da escravidão.

Havia também uma dimensão racial nessas políticas. Ao longo do século XIX, parte das elites brasileiras passou a defender a imigração europeia dentro de projetos de transformação demográfica da população, influenciados pelas concepções raciais daquele período. O Brasil, portanto, não esperava passivamente pelos imigrantes. Era necessário convencê-los a vir.

A propaganda de uma terra distante

Para um trabalhador vivendo em uma pequena comunidade alemã, o Brasil era praticamente outro mundo. Poucos possuíam informações detalhadas sobre o país. Era justamente nesse desconhecimento que agentes de recrutamento e materiais de propaganda podiam exercer enorme influência.

O Brasil podia ser apresentado como uma terra fértil. Um país de clima favorável. Um território enorme. Um lugar onde havia trabalho. Onde uma família numerosa poderia prosperar. Onde o esforço seria recompensado.

A realidade era muito mais complicada. A distância era enorme. O clima tropical exigia adaptação. Doenças representavam riscos desconhecidos. As relações de trabalho nas grandes fazendas eram profundamente desiguais. E o Brasil continuava sendo uma sociedade escravista.

Mas a propaganda migratória não precisava necessariamente destacar essas contradições. Ela precisava oferecer esperança.

Propaganda para recrutar imigrantes
Propaganda para recrutar imigrantes

Dois problemas em lados opostos do Atlântico

É nesse ponto que duas necessidades se encontraram. Na Europa: famílias procurando oportunidades. No Brasil: fazendeiros procurando trabalhadores.

O crescimento da cafeicultura paulista tornava a questão cada vez mais urgente. Um dos homens que percebeu essa possibilidade foi Nicolau Pereira de Campos Vergueiro. Depois de uma experiência com colonos portugueses no início da década de 1840, Vergueiro voltou sua atenção para a Europa Central.

Em 1846, organizou com seus familiares e associados a Vergueiro & Companhia. A empresa se tornaria uma das organizações privadas mais importantes da primeira fase da imigração destinada às fazendas paulistas. Estudos mostram que a Casa Vergueiro chegou a manter escritórios em Santos e Hamburgo e agentes de emigração na Europa. 

Vergueiro & Companhia

O modelo era empresarial. A Vergueiro & Companhia recrutava trabalhadores na Europa, organizava e financiava sua viagem e os encaminhava às propriedades agrícolas brasileiras. 

Inicialmente, o principal destino era a própria Fazenda Ibicaba. Posteriormente, a empresa ampliaria sua atuação, fornecendo imigrantes para outras fazendas do interior paulista. 

Era uma operação que ligava diretamente a Europa ao café produzido em São Paulo. Agentes procuravam candidatos. Famílias eram cadastradas. Contratos eram apresentados. Documentos precisavam ser providenciados. Grupos eram organizados. A viagem até o porto era coordenada. Navios eram contratados. E, no Brasil, os trabalhadores eram encaminhados às propriedades. Mas havia uma questão fundamental: quem pagava por tudo isso?

Uma viagem financiada — não gratuita

Para uma família trabalhadora alemã, custear passagens transatlânticas para vários adultos e crianças poderia ser impossível. O sistema resolveu o problema por meio do crédito. A empresa adiantava os custos. Isso permitia que uma família sem recursos suficientes embarcasse.

Mas aquele dinheiro não era um presente. Era uma dívida. A própria história institucional de Ibicaba resume o mecanismo: a Vergueiro & Companhia financiava a viagem e o colono deveria posteriormente quitar o valor com seu trabalho. 

Documentos oficiais revelam ainda participação do governo nesse empreendimento. Um relatório imperial registrou prestação de 30 mil-réis por colono maior de seis anos que se estabelecesse definitivamente na colônia, com obrigações de reembolso assumidas pela empresa. 

O imigrante, portanto, podia embarcar sem desembolsar antecipadamente toda a passagem. Mas chegava ao Brasil devendo. E isso seria decisivo.

O sistema de parceria

A proposta apresentada aos colonos parecia relativamente simples. O proprietário fornecia a estrutura produtiva. Terra. Cafezais. Moradia. E determinados adiantamentos.

A família fornecia o trabalho. Cada núcleo familiar recebia uma quantidade de cafeeiros proporcional à sua capacidade de trabalho. Era responsabilidade dos parceiros cuidar das plantas, realizar tarefas necessárias ao cultivo, participar da colheita e do beneficiamento.

Depois da comercialização do café, o resultado era dividido entre fazendeiro e colono. Da parte pertencente ao trabalhador eram retiradas suas dívidas.

A família também recebia áreas onde poderia produzir alimentos para a própria subsistência. Feijão. Milho. Arroz. Outros mantimentos.

Eventuais excedentes poderiam ser comercializados, embora as regras sobre a divisão dessa renda variassem e se tornassem posteriormente motivo de controvérsia.

O princípio parecia permitir uma progressão: trabalhar → produzir → pagar a dívida → acumular recursos → tornar-se independente. Na teoria. A dívida acompanhava a família O problema estava nos detalhes.

O custo do transporte e da alimentação era lançado na conta da família. Outros adiantamentos também podiam ser acrescentados. Depois de determinado período, incidiam juros sobre os valores ainda não pagos.

Pesquisas sobre os contratos indicam que pelo menos metade dos ganhos anuais com o café deveria ser destinada ao reembolso dos adiantamentos. O imigrante não poderia simplesmente abandonar a fazenda antes de liquidar suas obrigações sem enfrentar penalidades. 

Em circunstâncias favoráveis, imaginava-se que uma família trabalhadora pudesse quitar sua dívida em aproximadamente quatro ou cinco anos. Mas colheitas ruins, preços, despesas, doenças e divergências na contabilidade podiam prolongar o processo. Essa fragilidade apareceria dramaticamente alguns anos depois.

Em 1847, porém, aqueles que aceitavam o contrato ainda estavam no início da experiência. O Brasil representava uma promessa.

Primeira página de um Contrato de Parceria
Primeira página de um Contrato de Parceria

O recrutamento chega à região do Reno

Entre as áreas alcançadas pelo recrutamento estavam territórios da Renânia, de Hessen, do Palatinado e também regiões do norte germânico. Os candidatos não eram necessariamente agricultores. Esse detalhe é importante. Entre os recrutados havia também artesãos e trabalhadores especializados. Marceneiros. Ferreiros. Sapateiros. Pedreiros. E trabalhadores da pedra.

Isso nos ajuda a compreender por que um Steinhauer como Martin Fischer poderia ser aceito em uma colônia destinada à cafeicultura.

A fazenda precisava de braços para o café, mas uma comunidade com centenas de moradores também precisava de pessoas capazes de construir, reparar ferramentas, trabalhar madeira, metal e pedra.

Mainz: o ponto de encontro

Os candidatos selecionados não seguiram individualmente para Hamburgo. Parte significativa foi primeiro reunida em Mainz, às margens do Reno. É importante não transformar em fato aquilo que os documentos não descrevem detalhadamente. Não possuímos, até agora, um diário dizendo em qual edifício os Fischer ficaram, onde dormiram ou como passaram cada dia em Mainz.

Mas sabemos que a cidade funcionou como ponto de concentração. A fonte contemporânea de Perret Gentil, citada por estudos posteriores, registra 364 indivíduos reunidos em Mainz. Outras tradições documentais e familiares falam em um contingente total próximo de 450 pessoas durante o processo de recrutamento. 

Podemos imaginar o significado daquele encontro sem inventar seus detalhes. Famílias provenientes de diferentes localidades chegavam carregando seus pertences. Adultos. Crianças. Bebês. Malas. Baús. Roupas. Ferramentas. Documentos. Pessoas que até então eram desconhecidas passariam a dividir uma viagem que duraria meses.

Uma última grande cidade do Reno

Para alguém vindo de Flonheim, Mainz já representava uma mudança considerável. Martin deixava uma pequena comunidade rural e entrava em uma cidade muito maior, movimentada pelo comércio e pela navegação no Reno.

Ali sua família encontraria dezenas ou centenas de pessoas que haviam tomado exatamente a mesma decisão. A conversa provavelmente girava em torno das mesmas perguntas. Como seria o Brasil? Quanto tempo levaria a viagem? A terra era realmente fértil? Quanto poderiam ganhar? Quanto tempo levariam para pagar a dívida? Voltariam algum dia? Não conhecemos as conversas. Mas conhecemos a incerteza que cercava aquela decisão. Quando o grupo deixou Mainz, a ruptura com a vida anterior começava a tornar-se concreta.

De Mainz a Hamburgo

Aqui aparece um detalhe particularmente interessante nas fontes. O grupo não parece ter seguido simplesmente em linha direta de Mainz para Hamburgo. Segundo o relato de Perret Gentil recuperado pela historiografia, os 364 reunidos em Mainz seguiram por Arnheim, depois Amsterdã e finalmente chegaram a Hamburgo

Isso transforma a viagem terrestre e fluvial em uma etapa importante da própria imigração. O Reno oferecia uma grande via natural de transporte. Seguindo para o norte, os emigrantes atravessavam diferentes territórios até alcançar os Países Baixos. Arnheim. Depois Amsterdã. E posteriormente Hamburgo.

Em algum momento desse percurso ou já no porto, outros emigrantes se juntaram ao grupo. Uma fonte menciona especificamente 29 pessoas provenientes do Holstein. O contingente ganhava sua forma definitiva.

Porto de Hamburgo 1847
Porto de Hamburgo 1847

Hamburgo

Quando os emigrantes chegaram a Hamburgo, encontraram um mundo completamente diferente de Flonheim. Hamburgo era uma cidade portuária internacional. Navios. Armazéns. Canais. Barcos menores. Marinheiros. Comerciantes. Carregadores. Mercadorias provenientes de diferentes partes do mundo. O porto conectava a Europa Central ao Atlântico. Café, açúcar, tabaco, tecidos, madeira e inúmeros outros produtos circulavam por suas instalações. E, cada vez mais, pessoas.

Nas décadas seguintes, Hamburgo se tornaria uma das grandes portas de saída da emigração europeia. A conexão comercial com o Brasil também crescia, alimentada justamente pelo café e pelas expectativas em torno da imigração. Para os Fischer, era provavelmente o maior porto que haviam visto. E ali estava o navio que os afastaria definitivamente da Europa.

Trajeto dos imigrantes rumo ao Brasil
Trajeto dos imigrantes rumo ao Brasil

Francisca e Merk

Documentação sobre políticas de colonização registra que o transporte de Hamburgo para Santos em 1847 foi realizado pelos navios Francisca e Merk. Eram navios à vela. Não devemos imaginá-los como os grandes transatlânticos que marcariam as migrações do final do século XIX e início do XX.

A imigração de 1847 pertence a uma época anterior. A força que transportaria aquelas famílias até o Brasil era essencialmente o vento. O navio dependia das correntes marítimas, das condições atmosféricas e da habilidade da tripulação.

Uma calmaria podia atrasar a viagem. Uma tempestade podia transformar o oceano em ameaça. Não havia motor para compensar a ausência de vento. Não havia rádio. Não havia previsão meteorológica moderna. Depois de deixar o porto, o navio estava praticamente entregue à navegação, ao clima e ao mar.

O embarque

Antes da partida havia uma série de procedimentos. Passageiros precisavam ser registrados. Listas eram conferidas. Bagagens eram carregadas. Mantimentos e água eram embarcados.

Os espaços destinados aos passageiros precisavam ser organizados. Para famílias inteiras, aquele momento devia ser particularmente intenso. Cada objeto levado tinha importância. Não era possível transportar uma casa inteira. Era necessário escolher. Roupas. Ferramentas. Documentos. Objetos pessoais. Talvez livros religiosos. Utensílios. Recordações. O restante ficava para trás.

Quando a prancha ou embarcação de acesso ao navio fosse retirada, a decisão se tornaria praticamente irreversível. No final de março de 1847, os navios deixaram Hamburgo. A Europa começava a desaparecer no horizonte.

Como era um navio de emigrantes?

O espaço destinado aos passageiros comuns era simples. Famílias não viajavam em cabines confortáveis semelhantes às reservadas aos passageiros ricos. Grande parte da vida acontecia em compartimentos coletivos.

O espaço era reduzido. Beliches ou estruturas para dormir eram organizados próximos uns dos outros. Bagagens precisavam compartilhar o mesmo ambiente. A ventilação podia ser ruim, principalmente quando o mau tempo obrigava passageiros a permanecerem abaixo do convés.

Privacidade era praticamente inexistente. Homens, mulheres e crianças passariam semanas convivendo em proximidade. O cheiro de pessoas, alimentos, madeira úmida, roupas, água acumulada e enjoo fazia parte da experiência. O oceano não era apenas uma distância geográfica. Era uma prova física.

O navio do imigrante em 1847
O navio do imigrante em 1847

Dormir em alto-mar

Dormir significava adaptar-se ao movimento constante. O navio inclinava. Madeiras rangiam. Cordas e velas produziam ruídos. O mar batia contra o casco. Em tempo ruim, objetos precisavam ser presos. Passageiros podiam ser lançados contra estruturas durante movimentos mais violentos.

Crianças choravam. Pessoas adoeciam. O espaço para cada família era limitado. Colchões simples, palha, cobertores e pertences pessoais compunham o ambiente. Depois de alguns dias, aquele pequeno espaço transformava-se em casa. E continuaria sendo casa durante semanas.

O que se comia?

Alimentos precisavam sobreviver à viagem. Não existia refrigeração. Por isso, a dieta marítima era baseada principalmente em produtos que pudessem ser armazenados. Pão seco ou biscoitos de longa duração. Farinha. Cereais. Ervilhas e outros legumes secos. Batatas enquanto permanecessem conservadas. Carne salgada ou defumada. Toucinho. Eventualmente peixe salgado. Água potável era armazenada em recipientes. Cerveja, vinho ou outras bebidas podiam complementar o abastecimento dependendo do navio e do contrato.

Com o passar das semanas, a qualidade dos alimentos diminuía. A água podia adquirir gosto e cheiro desagradáveis. Produtos frescos desapareciam rapidamente. O risco nutricional aumentava conforme a viagem se prolongava.

Cozinhar no oceano

Preparar comida também era difícil. O fogo dentro de um navio de madeira representava enorme perigo. Por isso, a cozinha era controlada. Passageiros não podiam simplesmente acender fogueiras onde quisessem. As refeições eram preparadas em instalações específicas e em condições que dependiam do tempo.

Durante tempestades, cozinhar podia tornar-se impossível. Uma viagem longa, portanto, podia alternar dias relativamente tranquilos com períodos em que até uma refeição quente era difícil.

Doenças

O maior perigo nem sempre era a tempestade. Era a doença. Centenas de pessoas compartilhando espaços reduzidos criavam condições favoráveis à transmissão de infecções. Problemas gastrointestinais eram particularmente perigosos. Água contaminada. Alimentos deteriorados. Diarreia. Febres. Doenças respiratórias.

Crianças pequenas eram especialmente vulneráveis. A medicina possuía recursos limitados. Antibióticos não existiam. Muitas doenças que hoje seriam tratáveis podiam tornar-se fatais.

Outras viagens de emigrantes alemães do século XIX registraram mortalidade significativa a bordo, demonstrando que o risco não era teórico. Não devemos, porém, transferir automaticamente essas mortes para os navios dos Fischer sem documentação específica.

Nascimentos e mortes

Navios de emigrantes carregavam pequenas sociedades. E a vida não parava durante a travessia. Crianças podiam nascer. Pessoas podiam morrer. Quando alguém falecia longe da costa, não havia cemitério. O corpo podia ser envolvido e lançado ao mar após uma breve cerimônia religiosa. Para uma família, significava perder alguém sem sequer possuir um túmulo para visitar. Em contrapartida, um nascimento durante a travessia representava literalmente uma nova vida surgindo entre dois continentes.

O Atlântico

Depois de deixar o norte europeu, os navios precisavam alcançar o Atlântico. A rota seguia em direção às águas mais favoráveis à travessia para o sul. A temperatura começava a mudar. As roupas pesadas adequadas ao fim do inverno europeu tornavam-se progressivamente menos necessárias. O ar ficava mais quente. O sol, mais intenso. Para pessoas que haviam vivido toda a vida na Europa Central, essa transformação era uma primeira indicação física de que estavam entrando em outro mundo. 

A travessia entre Hamburgo e Santos teria levado cerca de seis semanas. Uma tradição documental sobre esse grupo fala em aproximadamente 42 dias de viagem. Para um navio à vela, porém, duração nunca era completamente previsível. O vento decidia parte do calendário.

Terra à vista

Depois de semanas vendo praticamente apenas água, o aparecimento de terra deveria produzir enorme expectativa. O Brasil deixava de ser palavra. Tornava-se paisagem. Vegetação. Montanhas. Calor. Cheiros. Cores. Outros navios. Outra língua. Outra sociedade. O destino era o porto de Santos.

Santos em 1847

Santos já possuía uma história de mais de três séculos quando os emigrantes chegaram. Mas estava muito distante da grande estrutura portuária que conhecemos atualmente. Não existia o cais contínuo e organizado que seria construído décadas depois.

A movimentação portuária ocorria por meio de trapiches, pontes, pequenos ancoradouros e embarcações auxiliares. Navios maiores nem sempre podiam simplesmente encostar diante de um cais moderno. Pessoas e mercadorias podiam ser transferidas para embarcações menores antes de alcançar terra.

A própria organização institucional do porto estava em transformação: a Capitania do Porto de Santos foi criada por decreto apenas em 11 de setembro de 1847, poucos meses depois da chegada desse grupo. Os Fischer, portanto, chegaram a um porto ainda anterior à sua grande modernização.

Porto de Santos 1847
Porto de Santos 1847

A cidade vista do mar

A Santos de 1847 era pequena. Vista da água, destacavam-se igrejas, telhados, sobrados, armazéns e construções próximas ao porto. Atrás da área urbanizada erguia-se a Serra do Mar. O ambiente era úmido. Quente. Muito diferente de Rheinhessen. Ruas estreitas e construções coloniais formavam grande parte do núcleo urbano. A circulação de mercadorias era intensa porque Santos era a principal saída marítima da Província de São Paulo. 

O café já começava a mudar seu porto. Dados históricos de exportação indicam aproximadamente 60,8 mil sacas de café exportadas por Santos em 1847, depois de forte crescimento nos anos anteriores. Ainda era pouco diante do que Santos se tornaria. Mas a transformação havia começado.

Um porto escravista

Havia também uma realidade que os europeus dificilmente poderiam ignorar. Pessoas escravizadas trabalhavam no ambiente urbano e portuário. Carregavam mercadorias. Executavam serviços. Trabalhavam para comerciantes e proprietários.

A escravidão que até então os emigrantes conheciam talvez apenas por relatos estava diante deles. Essa primeira experiência visual devia deixar evidente que haviam chegado a uma sociedade muito diferente da que haviam deixado.

O desembarque

Depois da autorização das autoridades e dos procedimentos de chegada, passageiros e bagagens eram desembarcados. Imagine o que significava pisar em terra depois de aproximadamente seis semanas no mar. O corpo precisava reaprender a sensação de chão imóvel. Famílias precisavam reunir seus pertences. Conferir crianças. Localizar bagagens. Receber instruções numa língua que a maioria não compreendia. Mas Santos não era o destino final. Era apenas o início da etapa brasileira da viagem.

Quantos chegaram?

Aqui precisamos permitir que os documentos falem com suas divergências. A historiografia baseada em correspondência de Nicolau Vergueiro registra 423 colonos chegados a Santos em junho de 1847, dos quais 401 foram encaminhados para Ibicaba

Outras fontes registram 422 pessoas na chegada, com 21 permanecendo em Santos e 401 seguindo para a fazenda.  A diferença de apenas uma pessoa pode resultar de critérios distintos de contagem, morte, nascimento, desistência ou simplesmente erro de registro. Para nossa história, o ponto seguro é:

Martin Fischer e sua família estavam entre os integrantes dessa primeira grande leva germânica destinada à Colônia Senador Vergueiro.

1º de junho de 1847

A data de 1º de junho merece uma observação especial. Uma fonte contemporânea publicada em 1851 afirma que a caravana saiu de Santos em 1º de junho de 1847, e não que desembarcou necessariamente nesse dia. O mesmo relato diz que chegou a Ibicaba em 16 de junho, depois de uma longa marcha pelo interior. 

Portanto, não devemos afirmar, com certeza, que o navio de Martin “chegou a Santos em 1º de junho” como fato absolutamente estabelecido. A formulação documentalmente mais segura é: No início de junho de 1847, Martin Fischer e sua família encontravam-se em Santos; em 1º de junho, segundo o relato contemporâneo de Perret Gentil, a caravana destinada a Ibicaba iniciou a viagem para o interior.

O oceano havia ficado para trás

Depois de semanas dentro de um navio, poderia parecer que a parte mais difícil da viagem havia terminado. Não havia. Entre Santos e Ibicaba erguia-se uma barreira natural impressionante: a Serra do Mar.

Não existia ferrovia. Não havia automóveis. Não havia uma estrada moderna. Havia famílias. Crianças. Bagagens. Carros de boi. Animais. Caminhos de terra. Montanhas. E aproximadamente duzentos quilômetros separando o porto da propriedade onde começariam uma nova vida.

A fonte contemporânea oferece um detalhe extraordinário: a caravana teria levado 14 dias efetivos de viagem, além de dois dias de descanso, para chegar a Ibicaba. O mesmo percurso podia ser realizado por um cavaleiro sozinho em cerca de quatro dias e por tropas carregadas em aproximadamente dez. 

Para os Fischer, a Alemanha já estava a milhares de quilômetros. Mas Ibicaba ainda estava adiante. No dia seguinte ao desembarque começava uma travessia completamente diferente. Não mais sobre o oceano. Agora, através do Brasil.

Nota documental

Este capítulo revelou algo importante para nossa pesquisa: precisamos manter uma pequena tabela de “divergências entre as fontes” no arquivo de trabalho do livro. Para 1847, temos pelo menos três questões que não devem ser artificialmente harmonizadas:

InformaçãoFontes encontradas
Reunidos em Mainz364 em Perret Gentil; relatos posteriores falam em cerca de 450 no recrutamento
Chegada a Santos422 ou 423 pessoas
Destinados a Ibicaba401 — número mais consistente
NaviosFrancisca e Merk
Travessia marítimacerca de 42 dias segundo relatos posteriores
Saída da caravana de Santos1º de junho de 1847, segundo Perret Gentil
Chegada a Ibicaba16 de junho de 1847, segundo o mesmo relato

A identificação dos Francisca e Merk ganha sustentação adicional em pesquisa acadêmica recente baseada na documentação da colonização hamburguesa, que menciona expressamente os dois navios utilizados no transporte de colonos de Hamburgo a Santos em 1847. 

Há ainda uma descoberta particularmente interessante: o relato contemporâneo de Carlos Perret Gentil, publicado em 1851, descreve a viagem Santos–Ibicaba e afirma que os colonos, ao finalmente avistarem a fazenda, recuperaram o ânimo diante da recepção, da disponibilidade de alimentos, das edificações e da possibilidade de repousar.