Entre a prosperidade e a dívida – Por que alguns colonos venceram e outros não

Quatro anos depois da chegada dos Fischer, um visitante encontrou uma Ibicaba surpreendente. Carlos Perret Gentil esteve na fazenda e publicou, em 1851, A Colônia Senador Vergueiro. Sua descrição era entusiasmada.

Encontrou famílias que considerou prósperas, casas com objetos que julgava superiores aos encontrados entre aldeões europeus relativamente abastados e colonos que, segundo ele, viviam com fartura. Chegou a defender que as dívidas poderiam ser quitadas em poucos anos.  Parecia a confirmação da promessa feita na Europa. Mas havia outro lado.

É preciso desconfiar de uma fonte excessivamente feliz

Perret Gentil é indispensável para conhecer os primeiros anos de Ibicaba. Mas não pode ser lido ingenuamente. Ele admirava o sistema de Vergueiro. Seu livro apresentou a experiência de maneira tão favorável que posteriormente foi utilizado para tornar a imigração ao Brasil atraente aos europeus. Outros observadores, entre eles Thomas Davatz e Johann Jakob von Tschudi, criticariam essa representação. 

Portanto, quando Gentil descreve prosperidade, devemos considerar duas coisas simultaneamente: provavelmente havia colonos realmente prósperos; mas sua obra tinha interesse em enfatizá-los. A realidade não era uniforme.

O sucesso era possível

Esse ponto é importante. Transformar todos os parceiros de Ibicaba em vítimas passivas seria tão incorreto quanto transformar todos em colonos prósperos. Algumas famílias conseguiram resultados econômicos positivos. A lógica permite entender por quê. Uma família numerosa, saudável e com vários adultos produtivos podia cuidar de mais cafeeiros. Uma boa colheita aumentava a receita.

Poucas despesas aceleravam a amortização. Produzir alimentos diminuía compras. Um ofício especializado podia gerar renda adicional. Uma boa relação com a administração podia abrir oportunidades. Em alguns casos, a dívida podia ser quitada. E, uma vez livre dela, surgia a possibilidade de deixar a fazenda e procurar oportunidades em Limeira, Rio Claro, Piracicaba ou outras localidades.

O fracasso também era possível

Bastava alterar algumas variáveis. Doença. Morte. Muitas crianças pequenas. Safra ruim. Endividamento elevado. Compras frequentes. Juros. Conflitos com a administração. Baixa produtividade. Tudo isso podia transformar poucos anos de dívida em um compromisso prolongado.

O sistema tinha ainda uma característica particularmente dura: pesquisas mostram que determinadas obrigações financeiras podiam continuar recaindo sobre a família quando o devedor morria. A promessa de recomeçar a vida podia, portanto, transformar-se em uma armadilha financeira.

O recrutamento também tinha falhas

Nem todos os europeus contratados eram agricultores experientes. O próprio Nicolau Vergueiro reconheceria posteriormente dificuldades de adaptação de parte dos imigrantes, e estudos apontam problemas no recrutamento, em que agentes tinham incentivos para reunir pessoas em quantidade, nem sempre selecionando trabalhadores adequados à agricultura tropical. 

Isso é especialmente interessante no caso de Martin. Ele era um Steinhauer. Não era, originalmente, um cafeicultor. Assim como ele, havia entre os imigrantes artesãos e pessoas com outros ofícios. Isso podia inicialmente ser uma desvantagem agrícola. Mas numa fazenda em expansão também podia transformar-se em oportunidade.

Construir para pagar a dívida

Os registros de Martin sugerem justamente isso. Sua habilidade profissional permitiu-lhe realizar trabalhos que não dependiam diretamente do café. Casas precisavam ser erguidas. Uma colônia com centenas de habitantes precisava crescer. Cada serviço adicional podia significar crédito. E cada crédito podia aproximá-lo da quitação.

Essa hipótese precisa ser demonstrada ano a ano pelos documentos contábeis, mas abre uma possibilidade fascinante: talvez Martin tenha conseguido enfrentar o sistema de parceria não apenas como agricultor, mas utilizando a profissão que aprendera em Flonheim.

Sua história individual mostra por que generalizações sobre os colonos são perigosas. Cada família possuía uma economia própria.

Os filhos aprendem mais rápido

Existe outro fator. A primeira geração precisava aprender tudo. Língua. Moeda. Agricultura. Regras. Geografia. Costumes. 

Os filhos tinham uma vantagem. Anton Fischer, especialmente, parece ter aprendido a circular nesse novo mundo. Com o tempo, aparece ligado à administração e à contabilidade. Isso representa uma mudança social importante.

A família que havia chegado como mão de obra contratada começava a ocupar posições diferentes dentro da estrutura local. Esse tipo de trajetória também ajuda a explicar por que alguns descendentes de colonos acabariam deixando as fazendas e estabelecendo-se como comerciantes, artesãos, proprietários ou empresários nas cidades do interior.

Há estudos especificamente dedicados à transformação de antigos colonos de Ibicaba em empresários em Piracicaba, mostrando que a experiência da parceria não necessariamente determinou permanentemente sua posição social. 

A saída de Ibicaba

Não sabemos exatamente quando Martin Fischer deixou a Fazenda Ibicaba. Nenhum documento localizado até o momento registra uma data precisa para sua saída, uma quitação final acompanhada de desligamento ou o lugar para onde se mudou imediatamente depois. Ainda assim, diferentes documentos permitem reconstruir parte dessa história e estabelecer uma hipótese bastante provável: Martin parece ter sido um dos colonos da primeira leva que conseguiu superar relativamente cedo as dívidas do sistema de parceria e deixar a fazenda em situação econômica favorável.

A trajetória começa em 1847. Quando chegou a Ibicaba com Katharina e os filhos, Martin não trazia apenas braços para trabalhar no café. Trazia consigo uma profissão: era Steinhauer, trabalhador especializado em pedra e construção. Essa habilidade parece ter adquirido importância rapidamente numa colônia que precisava erguer moradias para centenas de recém-chegados.

Os documentos contábeis preservados dos primeiros anos mostram Martin não apenas como parceiro agrícola, mas também recebendo valores por trabalhos relacionados à construção de casas. Esse detalhe é fundamental para compreender o que pode ter acontecido posteriormente. Enquanto a renda de muitos parceiros dependia quase exclusivamente do resultado das colheitas, Martin possuía uma segunda fonte de recursos.

Durante o dia, a família podia trabalhar nos cafezais e nas culturas de subsistência. Paralelamente, Martin conseguia aproveitar o ofício que trouxera da Alemanha para obter créditos adicionais. Em um sistema no qual o principal objetivo econômico do colono era reduzir a dívida contraída com a Vergueiro & Companhia, qualquer renda extra fazia diferença.

Uma família com muitos braços

Outro elemento provavelmente favorecia os Fischer. Martin e Katharina chegaram ao Brasil com vários filhos, alguns deles já adolescentes ou jovens adultos. No sistema de parceria, isso representava uma vantagem econômica importante. A família constituía uma unidade produtiva, e a quantidade de trabalho que conseguia realizar dependia diretamente do número de braços disponíveis.

Anton, o filho mais velho, já tinha cerca de 24 anos quando chegou ao Brasil. Outros filhos também estavam entrando ou já haviam entrado em idade produtiva. Assim, os Fischer reuniam duas características potencialmente favoráveis: uma família numerosa e uma profissão especializada capaz de gerar renda adicional.

Isso não prova, isoladamente, que tenham enriquecido. Mas ajuda a explicar por que poderiam ter reduzido a dívida mais rapidamente do que famílias menores, com crianças pequenas ou dependentes exclusivamente do café.

1848: Martin parece satisfeito

Há ainda uma pista particularmente interessante. Fontes sobre os pioneiros de Ibicaba mencionam Martin Fischer entre os colonos que teriam escrito para a Alemanha em 1848, descrevendo favoravelmente a experiência na fazenda. A carta original ainda não foi localizada, portanto seu conteúdo precisa ser tratado com cautela. A referência, entretanto, é relevante porque sugere que, aproximadamente um ano depois da chegada, a situação da família não parecia ser necessariamente negativa. 

É também importante considerar que correspondências favoráveis podiam ser utilizadas pela própria empresa colonizadora como propaganda para atrair novos trabalhadores. Por isso, enquanto não encontrarmos a carta original, não é possível saber quanto havia de manifestação espontânea de Martin e quanto poderia ter sido mediado pelo interesse de Vergueiro. Ainda assim, a referência existe e precisa fazer parte da história.

Por volta de 1850, alguma coisa parece mudar

É no início da década de 1850 que os indícios começam a apontar para uma transformação na situação da família. Anton Fischer, que havia chegado como filho de um parceiro, passa a aparecer associado à estrutura administrativa de Ibicaba.

José Sebastião Witter, ao estudar a documentação da fazenda, situa os diretores de origem alemã João Adolfo Jonas e Anton Fischer no exercício do poder administrativo em Ibicaba no período posterior a 1850. Um estudo baseado, entre outras fontes, no Livro Mestre da colônia também afirma que Jonas e Anton Fischer exerceram a direção entre aproximadamente 1850 e 1867. É uma mudança social considerável.

Em 1847, Anton chegara como integrante de uma família endividada perante a companhia. Poucos anos depois, estava do outro lado da contabilidade. A ascensão de Anton pode ser mais um sinal de que a situação econômica e social dos Fischer havia melhorado rapidamente.

Mas existe uma distinção fundamental: a permanência de Anton na administração não significa necessariamente que Martin e o restante da família continuassem morando como parceiros em Ibicaba. Ao contrário, é perfeitamente possível que as trajetórias tenham se separado.

Martin pode ter saído enquanto Anton ficou

Essa talvez seja atualmente a hipótese que melhor concilia os documentos. Depois de alguns anos de trabalho, Martin e Katharina teriam conseguido reduzir ou quitar seus compromissos e deixado a condição de parceiros. Anton, entretanto, permaneceu em Ibicaba porque havia encontrado ali uma oportunidade profissional muito diferente da agricultura: a administração da colônia.

Pai e filho, portanto, podem ter seguido caminhos distintos. Martin deixava o sistema. Anton passava a administrá-lo. É uma possibilidade particularmente interessante porque explica por que encontramos Anton durante tantos anos nos registros administrativos de Ibicaba sem que isso obrigue a concluir que toda a família continuasse vinculada à fazenda.

Ascensão de Anton Fischer
Ascensão de Anton Fischer

Um documento de 1857 fornece a pista mais importante

A evidência mais forte aparece alguns anos depois. Uma relação encaminhada pelo senador Vergueiro e posteriormente reproduzida em estudos sobre a Revolta dos Parceiros menciona Martin Fischer entre os colonos que já haviam deixado Ibicaba com recursos e possuíam propriedade. 

Esse registro é extremamente importante. Ele estabelece um limite cronológico seguro: em 1857, Martin já havia deixado a condição de colono de Ibicaba. Mais do que isso, a maneira como aparece na relação sugere que não havia saído simplesmente fugindo da dívida ou abandonando o contrato. Martin era apresentado como exemplo de colono que deixara a fazenda com dinheiro e propriedade.

Precisamos naturalmente considerar a origem dessa informação. Vergueiro tinha interesse, especialmente depois da Revolta dos Parceiros, em demonstrar que seu sistema permitia aos imigrantes prosperar. Portanto, uma relação preparada por ele não deve ser tomada como uma avaliação imparcial. Mas isso não elimina seu valor documental.

O nome de Martin aparece associado a uma condição concreta: já não estava em Ibicaba e era apresentado como economicamente estabelecido.

Colonos que deixaram a colônia 1857
Colonos que deixaram a colônia 1857

Teria saído já em 1850?

Aqui começa a hipótese. É possível que a saída tenha ocorrido consideravelmente antes de 1857. A ascensão de Anton na administração a partir do início da década de 1850 é um indício. Outro elemento que precisa ser explorado são os próprios documentos contábeis de Martin.

Se possuímos contas de 1847, 1848 e 1849, mas seu nome desaparece posteriormente da sequência documental enquanto outros colonos continuam registrados, essa ausência pode ser significativa.

Sozinha, ela não prova a saída. Um livro pode ter se perdido. Um registro pode estar em outra seção. Uma conta pode ter sido transferida. Mas, combinada com as demais evidências, a ausência ganha importância. Por isso, a pergunta documental decisiva passa a ser: qual é a última conta conhecida de Martin Fischer como parceiro de Ibicaba?

Se o último lançamento estiver em 1849 ou 1850 e os Livros Mestres seguintes realmente não contiverem mais sua conta, teremos uma evidência bastante forte de que sua saída ocorreu aproximadamente nesse período.

Piracicaba surge no horizonte

Há ainda uma pista geográfica. A família começa a aparecer documentalmente na região de Piracicaba, então chamada Constituição. Em 5 de setembro de 1850, nasceu ali Martinho Fischer, filho de Anton Fischer e Elizabeth Barth. Um mês depois, em 5 de outubro, o menino foi batizado na Matriz de Santo Antônio. Os padrinhos foram justamente Martin Fischer e Catharina Fischer, seus avós paternos. Esse registro é particularmente interessante.

Ele comprova que Martin e Katharina estavam presentes — ou ao menos suficientemente integrados à vida religiosa e familiar de Constituição/Piracicaba — em outubro de 1850. Mas precisamos evitar um salto lógico.

Ser padrinho em Piracicaba não prova que Martin já morasse ali. Ibicaba e Constituição estavam ligadas por caminhos regionais, e ele poderia ter se deslocado para o batismo do neto. Ainda assim, quando colocamos essa informação ao lado do possível desaparecimento de suas contas em Ibicaba e da ascensão administrativa de Anton, começa a surgir um cenário coerente.

A reconstrução mais provável

Portanto, com as evidências atualmente disponíveis, podemos estabelecer três níveis diferentes de certeza.

O que sabemos: Martin chegou a Ibicaba em 1847; trabalhou no sistema de parceria; os registros contábeis mostram também remuneração por trabalhos de construção; estava ligado à família em Piracicaba em 1850; e, em uma relação de 1857, aparece entre aqueles que já haviam deixado Ibicaba com recursos e propriedade. 

O que os indícios sugerem: sua situação econômica melhorou relativamente rápido; a renda proveniente de seu ofício e a força de trabalho de sua numerosa família podem ter acelerado a quitação da dívida; e sua saída provavelmente ocorreu antes de 1857.

O que ainda é hipótese: Martin pode ter deixado Ibicaba já por volta de 1850 ou nos primeiros anos daquela década, possivelmente estabelecendo-se na região de Piracicaba, enquanto Anton permaneceu na fazenda e ascendeu dentro da administração.

É, atualmente, a reconstrução que melhor concilia as fontes.

De parceiro a homem livre de sua dívida

Se essa hipótese estiver correta, a permanência de Martin Fischer como parceiro em Ibicaba pode ter sido relativamente curta. Talvez apenas três, quatro ou poucos anos. É uma perspectiva bastante diferente daquela que normalmente associamos aos colonos endividados do sistema de parceria. Martin parece ter encontrado uma maneira de utilizar aquilo que já sabia fazer.

O homem que deixara Flonheim como Steinhauer não dependera apenas daquilo que precisou aprender no Brasil. Seu antigo ofício provavelmente lhe permitiu ganhar dinheiro numa colônia que precisava desesperadamente construir.

A numerosa família oferecia braços para o café. Martin oferecia também uma especialização. Anton, por sua vez, encontrava espaço na administração. Cada membro começava a encontrar seu próprio caminho.

Em algum momento ainda desconhecido do início daquela década, Martin pode ter feito algo que, poucos anos antes, parecia extremamente distante: acertado suas contas, reunido seus pertences e deixado Ibicaba não como emigrante recém-chegado, mas como um homem estabelecido no Brasil.

Não sabemos ainda o dia em que isso aconteceu. Não sabemos quanto dinheiro levava. Nem identificamos definitivamente a propriedade mencionada em 1857. Mas sabemos que, dez anos depois de sua chegada, Martin já não era apresentado como parceiro endividado de Vergueiro. Era citado como um dos colonos que haviam saído da fazenda com recursos e propriedade.

Para alguém que, em 1847, desembarcara em Santos carregando uma dívida e a esperança de começar novamente, essa transformação é talvez uma das evidências mais importantes de que, pelo menos para Martin Fischer, a primeira etapa do projeto migratório havia funcionado.

Ibicaba muda

Enquanto algumas famílias melhoravam de vida, novas levas chegavam. A população crescia. A estrutura administrativa tornava-se mais complexa. O sistema de parceria espalhava-se.

Entre 1847 e 1857, formas semelhantes de contrato passaram a ser empregadas em dezenas de grandes propriedades do Oeste Paulista. Ibicaba transformara-se em laboratório.

E justamente por isso seus problemas também ganhariam repercussão internacional. Na década de 1850, acusações de contas injustas, restrições, endividamento e abusos tornaram-se mais frequentes. Em 1856, a tensão explodiria na famosa Revolta dos Parceiros, associada sobretudo à liderança de Thomas Davatz.

A experiência que havia sido apresentada como modelo passaria a ser denunciada na Europa como exemplo dos perigos da emigração para as fazendas brasileiras.

A Revolta dos Parceiros

Tomás Davatz
Tomás Davatz

Também chamada de Revolta de Ibicaba, foi um movimento de contestação dos imigrantes europeus que trabalhavam pelo sistema de parceria na Fazenda Ibicaba. O episódio começou no fim de 1856, atingiu seu momento mais tenso em 24 de dezembro daquele ano e teve desdobramentos até o início de 1857. 

O principal líder foi o suíço Thomas Davatz, mestre-escola e colono de Ibicaba. Ele havia sido encarregado por emigrantes suíços de relatar às autoridades de seu país as condições encontradas no Brasil. Com o tempo, tornou-se porta-voz das reclamações dos parceiros, sobretudo contra a falta de transparência nas contas, os preços cobrados pelos mantimentos, critérios de pesagem e venda do café, juros e despesas lançadas nas contas e a dificuldade de muitas famílias para quitar as dívidas contraídas com a fazenda. 

Em dezembro de 1856, Davatz e outros colonos prepararam uma lista de reivindicações. Cerca de 85 colonos assinaram o documento, e Davatz pretendia que o Consulado Suíço promovesse uma investigação independente sobre o cumprimento dos contratos de parceria. Os participantes eram principalmente imigrantes de língua alemã — sobretudo suíços e também trabalhadores originários da Turíngia e de outras regiões germânicas. 

O momento decisivo ocorreu na véspera de Natal, 24 de dezembro de 1856. Nicolau Vergueiro chamou Davatz para uma reunião na casa-grande. Estavam presentes, entre outros, o próprio Vergueiro, seu filho Luís, integrantes da administração da fazenda como Adolph Jonas, o professor Alscher e o médico da colônia Dr. Gattiker. A discussão girou em torno das acusações feitas pelos colonos e da possibilidade de uma investigação externa. 

Enquanto Davatz estava dentro da casa, colonos que aguardavam do lado de fora acreditaram que ele poderia estar sendo ameaçado ou preso. Um mensageiro correu até a colônia e pediu ajuda. Em pouco tempo, homens e mulheres dirigiram-se à sede levando espingardas, pistolas, foices, ancinhos, cacetes e outras ferramentas de trabalho. Dois tiros chegaram a ser disparados, mas não houve uma batalha aberta nem um massacre. 

A situação foi controlada nos dias seguintes. A pequena força policial de Limeira não era suficiente, e houve mobilização da Guarda Nacional, além da intervenção de representantes e autoridades ligados aos suíços. O levante armado terminou sem uma grande confrontação militar, mas as reivindicações não desapareceram imediatamente; os colonos continuaram contestando aspectos do sistema e alguns permaneceram armados por algum tempo. 

A Revolta dos Parceiros não acabou com Ibicaba naquele momento, mas teve consequências profundas. As denúncias de Davatz chegaram à Europa e, depois de seu retorno à Suíça, ele publicou em 1858 um livro relatando as condições dos colonos. A repercussão contribuiu para desacreditar o sistema de parceria brasileiro em diversos países europeus e dificultou o recrutamento de novos trabalhadores para fazendas paulistas. 

A revolta mostrou que o problema não era necessariamente a imigração ou o trabalho livre em si, mas a enorme desigualdade de poder existente no sistema de parceria — especialmente em torno das dívidas, da contabilidade e da capacidade dos colonos de fazer valer o contrato diante dos proprietários. Ela se tornou um dos episódios mais emblemáticos da transição brasileira entre o trabalho escravizado e novas formas de trabalho livre. 

Mas os Fischer pertenciam a uma geração anterior

Quando Davatz chegou, os Fischer já tinham anos de experiência no país. Conheciam a língua melhor. Conheciam a região. Possuíam relações. Alguns já haviam construído novos caminhos.

Na ocasião da Revolta dos Parceiros, Martin Fischer, sua esposa e filhos já haviam quitado a dívida da família e deixado a fazenda Ibicaba. Tal fato teria ocorrido por volta de 1850/51.

Por outro lado, Anton Fischer, filho mais velho de Martin, havia deixado de ser um colono para fazer parte da administração da colônia Vergueiro.

A grande questão para eles deixava progressivamente de ser: “Conseguiremos sobreviver em Ibicaba?”

E passava a ser: “Existe uma vida possível fora de Ibicaba?”

Anton Fischer: de colono a administrador

Enquanto Martin Fischer parece ter deixado Ibicaba depois de conseguir superar as obrigações financeiras contraídas com a imigração, seu filho mais velho seguiu um caminho diferente. Anton Fischer permaneceu ligado à fazenda.

Quando desembarcou no Brasil em 1847, tinha aproximadamente 24 anos. Chegara como integrante de uma família de parceiros. Poucos anos depois, porém, seu nome começava a aparecer associado à administração da mesma colônia em que sua família havia iniciado a vida brasileira.

A documentação permite acompanhar parcialmente essa ascensão. Em meados da década de 1850, João Adolfo Jonas ocupava a direção da Colônia Senador Vergueiro. Um relatório elaborado por ele em 1855, enviado pelo senador Vergueiro ao presidente da Província de São Paulo, demonstra a importância de Jonas na administração e no acompanhamento das famílias de imigrantes. 

Anton Fischer parece ter crescido profissionalmente dentro dessa estrutura. Na época da Revolta dos Parceiros, em 1856, referências posteriores colocam Jonas e Fischer conjuntamente na direção da colônia, com Jonas ocupando a posição principal e Fischer associado à vice-direção. Estudos sobre Ibicaba afirmam que os dois diretores de origem alemã exerceram poder sobre a colônia durante boa parte do período compreendido de 1847 a 1857 Adolf Jonas e de 1857 a 1871 Anton Fischer. 

Não foi localizado, até o momento, um documento que estabeleça a data exata da nomeação de Anton ou que o identifique formalmente como “assistente de Jonas”. A sequência documental, entretanto, permite considerar bastante plausível que tenha iniciado sua trajetória administrativa em posição subordinada ou auxiliar e adquirido responsabilidades progressivamente.

Os livros de contabilidade fornecem uma evidência ainda mais importante. Durante a década de 1860, o nome e a assinatura de Anton Fischer aparecem repetidamente associados às contas dos colonos de Ibicaba entre 1862 e 1870. Os Livros Mestres registram sua atuação em exercícios sucessivos, demonstrando que o antigo imigrante participava diretamente da administração econômica da propriedade. 

Assinatura Anton Fischer
Assinatura Anton Fischer

Assim, em aproximadamente quinze anos, sua trajetória havia sofrido uma transformação extraordinária: em 1847, Anton chegara a Ibicaba como filho de um colono endividado; na década de 1860, era um dos homens responsáveis por administrar as contas de outros colonos.

Essa ascensão, entretanto, trouxe também conflitos. O viajante suíço Johann Jakob von Tschudi registrou duras acusações contra um diretor de sobrenome Fischer, retratado pelos colonos como autoritário e brutal. A historiografia sobre Ibicaba associa esse administrador a Anton Fischer. 

A acusação deve ser apresentada como aquilo que é: o testemunho crítico de Tschudi baseado nas reclamações que recolheu, e não como uma descrição neutra e definitivamente comprovada da personalidade de Anton.

Ainda assim, ela revela uma transformação social particularmente significativa. Anton havia conhecido Ibicaba primeiro como imigrante. Depois tornou-se parte de sua administração. De parceiro, passou a integrar a estrutura de poder da fazenda.

O preço de uma nova vida – Dinheiro, dívida e as regras do sistema de parceria na colônia Ibicaba

A promessa parecia simples. O fazendeiro financiaria a viagem. O imigrante trabalharia. A produção seria dividida. A dívida seria paga. E, depois de alguns anos, a família poderia construir uma vida independente. Esse era o princípio do sistema de parceria. Na prática, porém, tudo dependia de uma palavra: conta.

O contrato

A relação entre Vergueiro & Companhia e os imigrantes começava antes mesmo de eles pisarem no Brasil. Os contratos eram firmados na Europa. A companhia financiava a passagem marítima até Santos e o transporte do porto até a fazenda. Ao chegar a Ibicaba, cada família deveria receber casa e uma quantidade de cafeeiros compatível com sua capacidade de trabalho. Não se tratava de uma doação. Tratava-se de um adiantamento. A família começava a nova vida devendo.

A conta começa antes do trabalho

Esse é um ponto fundamental para compreender todo o sistema. Martin Fischer não precisou esperar comprar alguma coisa em Ibicaba para tornar-se devedor. O próprio processo migratório produzia a dívida. Passagens. Transporte. Instalação. Adiantamentos. Mantimentos. Outras despesas.

Os valores financiados pela companhia deveriam ser restituídos com juros, normalmente fixados em 6% ao ano, embora pesquisas tenham identificado casos de cobranças superiores, chegando a 12%. 

Assim, quando Martin olhou pela primeira vez para seus cafeeiros, eles representavam duas coisas simultaneamente: uma oportunidade de renda; e o meio pelo qual deveria pagar aquilo que devia.

Como funcionava a parceria

A família cuidava de determinado número de cafeeiros. Cultivava. Colhia. Participava do beneficiamento conforme as regras estabelecidas. O café era comercializado. O resultado era dividido.

Em linhas gerais: 50% para o proprietário. 50% para o parceiro. À primeira vista, parecia uma divisão clara. Mas o valor recebido pelo colono não correspondia simplesmente a metade do café produzido.

Havia despesas. Havia juros. Havia adiantamentos. Havia compras. E havia o problema de quem controlava a contabilidade.

Não era salário

Martin não era empregado assalariado no sentido moderno. Não recebia um valor fixo por mês pela manutenção dos cafezais. Sua remuneração estava ligada ao resultado da produção.

Isso transferia parte do risco para o próprio trabalhador. Uma colheita boa podia acelerar o pagamento da dívida. Uma colheita ruim fazia o contrário. Doença podia diminuir a capacidade de trabalho. A presença de filhos maiores podia aumentá-la. Os preços do café também influenciavam.

Portanto, duas famílias chegadas no mesmo navio e instaladas na mesma fazenda podiam apresentar resultados econômicos completamente diferentes depois de alguns anos.

A roça de mantimentos

O contrato permitia ainda o cultivo de alimentos. Essas roças tinham enorme importância porque reduziam a necessidade de comprar tudo na venda. Milho, feijão e outros gêneros podiam alimentar a família.

Eventuais excedentes podiam ser comercializados, embora as regras relativas à divisão dos resultados variassem e, segundo Sérgio Buarque de Holanda, alguns proprietários chegaram a abrir mão da parte que lhes caberia na venda dos excedentes alimentares. A capacidade de administrar a pequena economia doméstica era, portanto, quase tão importante quanto trabalhar bem no cafezal.

A dívida como instrumento de permanência

O sistema tinha uma lógica empresarial evidente. Vergueiro investia dinheiro para trazer trabalhadores da Europa. Era necessário garantir que esses trabalhadores permanecessem tempo suficiente na fazenda para compensar o investimento. A dívida desempenhava exatamente essa função.

Estudo recente de história econômica define a experiência de Ibicaba como uma forma de parceria associada a obrigações de crédito. A duração efetiva da dependência estava ligada à capacidade da família de quitar aquilo que devia. 

O contrato, portanto, ligava economicamente o colono à propriedade. Era livre. Mas não completamente livre para simplesmente abandonar seus compromissos financeiros. Essa ambiguidade estaria no centro dos conflitos futuros.

Direitos e obrigações

Pelos padrões atuais, seria errado chamar essa relação de emprego convencional. Não havia legislação trabalhista como conhecemos. Não existiam salário mínimo, férias remuneradas, jornada legal de oito horas, décimo terceiro salário, FGTS ou previdência social.

A relação era essencialmente contratual. Ao colono cabia trabalhar os cafeeiros recebidos, cumprir determinadas obrigações, conservar sua moradia e quitar os débitos. Ao fazendeiro cabia fornecer as condições previstas, financiar o deslocamento, disponibilizar casa e cafeeiros e repartir o resultado conforme o acordo.

Disputas deveriam, em princípio, ser resolvidas por árbitros. O problema surgia quando as duas partes discordavam sobre o cumprimento dessas regras. E, sobretudo, quando uma delas possuía muito mais poder econômico, político e social do que a outra.

O poder de quem escreve os números

Imagine uma família alemã. Ela não domina o português. Não conhece profundamente o sistema monetário brasileiro. Não controla a venda internacional do café. Não determina o preço pelo qual sua produção será comercializada. E recebe uma conta preparada pela administração.

Essa assimetria ajuda a explicar por que a contabilidade acabaria tornando-se uma das maiores fontes de tensão. Pesquisas recentes sobre os registros de Ibicaba mostram como mecanismos de crédito, compras e registros contábeis podiam aprofundar a dependência dos colonos. 

Para compreender a experiência de uma família, portanto, não basta saber quanto ela produziu. É necessário reconstruir créditos e débitos.

E é justamente aí que Martin volta a aparecer

Por uma rara circunstância documental, sobreviveram registros contábeis referentes a Martin Fischer nos primeiros anos em Ibicaba. Essas folhas aparentemente frias — números, valores, créditos, débitos — são, na verdade, uma janela extraordinária para sua vida. Elas mostram que sua economia não se limitava necessariamente ao café. Há valores relacionados a trabalhos de construção.

Isso modifica nossa interpretação. Martin podia gerar receita utilizando o ofício que trouxera da Alemanha. O Steinhauer não desapareceu quando surgiu o colono. As duas identidades coexistiram. Agricultor quando necessário. Trabalhador especializado quando havia oportunidade. Pai de uma família numerosa. Devedor da companhia. E, gradualmente, alguém tentando produzir um saldo positivo.

Por isso as contas de Martin merecem ser lidas quase como um diário. Elas talvez não digam o que ele sentiu. Mas dizem algo igualmente raro: como ele tentou sobreviver.

Contabilidade Martin Fischer 1848
Contabilidade Martin Fischer 1848

Uma nova vida em Ibicaba

Os primeiros dias e a adaptação à nova terra

Em 16 de junho de 1847, depois de uma jornada que começara muitos meses antes em pequenas localidades dos territórios germânicos, atravessara parte da Europa, alcançara Hamburgo, vencera o Atlântico e continuara pelas difíceis estradas da Província de São Paulo, a viagem finalmente terminava.

Diante dos imigrantes estava a Fazenda Ibicaba. Para Martin Fischer, Katharina e seus filhos, aquele momento representava muito mais do que a chegada a uma propriedade rural. Era a chegada ao lugar em torno do qual haviam sido construídas todas as expectativas da emigração.

Ali trabalhariam. Ali viveriam. Ali teriam de pagar as dívidas contraídas para chegar ao Brasil. E ali começaria efetivamente a história brasileira da família.

Os Fischer faziam parte da grande leva germânica contratada pela Vergueiro & Companhia. Estudos recentes identificam 64 famílias, majoritariamente prussianas, bávaras e renanas, incorporadas à Colônia Senador Vergueiro em 1847. Na fazenda encontraram ainda sete famílias portuguesas remanescentes de uma experiência anterior e uma realidade que provavelmente lhes causou forte impressão: Ibicaba possuía também 215 pessoas escravizadas.

Duas formas de trabalho passariam, portanto, a coexistir dentro da mesma propriedade: a escravidão e a parceria com trabalhadores europeus livres. Era uma experiência social e econômica ainda em construção.

Uma fazenda dentro da fazenda

É importante abandonar a imagem de que os imigrantes simplesmente chegaram à sede de Ibicaba e receberam casas ao redor da residência de Nicolau Vergueiro. A organização espacial era diferente. A colônia germânica constituía praticamente uma pequena povoação dentro da propriedade, separada do núcleo principal da fazenda.

Carlos Perret Gentil visitou Ibicaba poucos anos depois e deixou uma descrição extraordinariamente detalhada. Em 1851, informou que a aldeia dos colonos ficava aproximadamente um quarto de légua distante da sede, sobre uma pequena elevação na encosta do Morro Azul, cercada por cafezais. Naquele momento havia 39 casas construídas segundo um mesmo padrão e distribuídas em ruas retas. No centro havia um grande espaço reservado a um edifício público e um chafariz. 

Mas aquela era Ibicaba quatro anos depois da chegada dos Fischer. Em junho de 1847, a situação era muito mais rudimentar. As fontes indicam que as primeiras famílias receberam pequenas casas sem divisões internas. Cabia aos próprios moradores subdividir, mobiliar e conservar essas habitações. A colônia foi progressivamente tomando a forma de uma pequena vila. Isso ajuda a imaginar o primeiro impacto.

Casa de colonos em Ibicaba
Casa de colonos em Ibicaba

Depois de Flonheim, das cidades europeias, de Hamburgo, do navio, de Santos e das estradas paulistas, a família entrava numa casa extremamente simples no interior do Brasil. Provavelmente havia pouco mobiliário. Objetos trazidos da Alemanha ganhavam enorme importância.

Uma panela, uma ferramenta, uma peça de roupa, um baú ou uma Bíblia não eram apenas utensílios: constituíam parte do mundo anterior que ainda acompanhava aquelas pessoas. O restante precisaria ser construído.

Os primeiros dias

A primeira necessidade era descansar. Depois vinha algo muito mais complicado: entender como funcionava Ibicaba. Onde buscar água? Onde obter comida? Qual era a casa da família? Quem comandava a colônia? Onde ficavam os cafezais? Quais cafeeiros caberiam a cada família? Onde poderiam plantar alimentos? A quem deveriam recorrer quando precisassem de alguma coisa? Como comprar mantimentos? Como seriam registradas as despesas?

E, talvez o problema mais imediato: como perguntar tudo isso sem falar português?

A barreira linguística era enorme. Pesquisas sobre Ibicaba mostram que muitos dos recém-chegados falavam alemão ou diferentes dialetos germânicos e tinham dificuldade para participar das negociações realizadas em português. Isso os tornava dependentes de administradores, intérpretes e intermediários. 

Aprender algumas palavras devia tornar-se rapidamente uma necessidade. Água. Comida. Café. Casa. Dinheiro. Trabalho. Números. Os primeiros rudimentos de português provavelmente foram aprendidos menos em aulas do que na urgência do cotidiano.

Conhecendo a nova casa

O contrato estabelecia que a família receberia moradia e uma quantidade de cafeeiros proporcional à sua capacidade de trabalho. A unidade fundamental do sistema não era simplesmente o indivíduo. Era a família.

Isso fazia enorme diferença. Um casal com vários filhos suficientemente crescidos para trabalhar possuía maior capacidade produtiva do que um casal jovem com crianças pequenas.

A família Fischer era numerosa. Martin e Katharina haviam chegado acompanhados dos filhos. Portanto, aos olhos da administração de Ibicaba, não representavam apenas uma família a ser alojada. Representavam também uma unidade potencial de trabalho.

Martin Fischer tinha cerca de 43 anos quando chegou em Ibicaba. Sua esposa Katharina Stumpf tinha aproximadamente 53 anos. Os filhos eram sete, pela ordem: Anton 24, Johann Jacob 22, Johann Martin 18, Friedrich 15, Heinrich 13, Katharina 10 e Philipp de 4 anos.

Em algum momento dos primeiros dias, um funcionário da colônia precisou mostrar aos Fischer aquilo que passaria a constituir parte essencial de sua vida: os seus cafeeiros. Martin provavelmente conhecia pouco ou nada sobre café. Sua experiência europeia estava ligada a outro ambiente agrícola e, profissionalmente, ao trabalho com pedra. 

Agora precisaria aprender a reconhecer o cafeeiro, compreender seu ciclo, limpar a área ao redor das plantas, participar da colheita e entender o processo pelo qual aquelas pequenas frutas vermelhas acabariam transformadas numa mercadoria exportada para lugares tão distantes quanto a Europa que ele acabara de deixar.

Um mundo de café

O Morro Azul e as terras ao redor da colônia eram progressivamente ocupados por cafezais. Havia uma divisão espacial importante dentro da propriedade. O trabalho dos colonos europeus, organizado por famílias, não funcionava exatamente como o trabalho das turmas de escravizados. Pesquisas sobre a organização de Ibicaba mostram áreas distintas de cultivo e moradia associadas aos diferentes regimes de trabalho. 

Isso não significava ausência de contato. Pelo contrário. Os imigrantes viviam dentro de uma fazenda escravista. Encontravam pessoas escravizadas nos caminhos, instalações, trabalhos agrícolas e serviços. Para aqueles alemães recém-chegados, tratava-se de uma realidade social profundamente diferente daquela que haviam conhecido na Europa.

E havia uma contradição evidente: eles haviam emigrado em busca de melhores condições de vida e liberdade econômica, mas começavam sua experiência brasileira numa propriedade onde centenas de pessoas não eram livres.

Cafezal em Ibicaba
Cafezal em Ibicaba

A terra para comer

Os cafeeiros não resolveriam todas as necessidades. Café produzia renda. Não alimentava uma família. Por isso o sistema permitia que os colonos cultivassem roças de mantimentos. Milho, feijão, mandioca e outros produtos começariam progressivamente a entrar no cotidiano alimentar.

A adaptação não foi apenas econômica. Foi também culinária. Produtos desconhecidos passaram à mesa. Receitas europeias foram adaptadas. Ingredientes brasileiros substituíram ingredientes impossíveis ou caros de encontrar. Pouco a pouco, uma cozinha germânica transplantada para os trópicos começava a mudar.

Martin encontra outra forma de trabalhar

Aqui a história particular de Martin Fischer começa a adquirir uma importância extraordinária. Ele não era apenas agricultor. Martin chegara da Europa identificado profissionalmente como Steinhauer — trabalhador especializado no corte e preparação de pedra. Ibicaba, por sua vez, estava em expansão. Centenas de pessoas precisavam ser alojadas. Casas precisavam ser construídas. Estruturas necessitavam de reparos.

A colônia crescia. E a documentação contábil que chegou até nós traz um indício particularmente importante: Martin recebeu valores relacionados à construção de casas.

Contabilidade Martin Fischer 1848
Contabilidade Martin Fischer 1848

Isso significa que a profissão aprendida na Alemanha não ficou simplesmente para trás. Em algum momento, sua habilidade passou a ser utilizada na nova realidade brasileira. Talvez esteja aí uma das primeiras chaves para compreender a trajetória econômica da família.

Enquanto outros colonos dependiam quase exclusivamente da lavoura, Martin possuía um ofício que poderia gerar renda adicional. A mesma mão que havia trabalhado pedra na região de Flonheim agora ajudava a construir uma colônia no interior paulista.

Uma aldeia começa a nascer

A transformação foi rápida. Quando Perret Gentil visitou Ibicaba em 1851, encontrou uma comunidade muito mais organizada do que aquela de 1847. As casas já formavam ruas. Havia um chafariz. Cafezais cercavam a povoação.

As habitações antigas ainda existiam a alguma distância e algumas famílias aguardavam a conclusão de novas construções. É possível que Martin tenha participado materialmente dessa transformação.

O imigrante chegado em 1847 podia olhar, quatro anos depois, para uma pequena vila que não existia daquela forma quando desembarcara. E talvez reconhecer em algumas paredes o resultado do próprio trabalho.

Aqueles primeiros dias foram, portanto, muito mais do que uma simples adaptação. Representaram a passagem definitiva de emigrantes para colonos. A viagem havia terminado. Agora era necessário aprender a viver.

Panorâmica de Ibicaba
Panorâmica de Ibicaba

Flonheim, a origem dos Fischer na Alemanha

Imagem ilustrativa da cidade de Flonheim na Alemanha no século 19

Martin Fischer, patriarca da Família Fischer, é originário de  Flonheim, Alzey-Worms, no estado da Renânia-Palatinado, na Alemanha. 

Flonheim é uma cidade mercantil, abaixo de uma área de proteção paisagística charmosa. A riqueza de Flonheim mostrada em edifícios deve-se essencialmente à indústria de pedreiras outrora florescente, que após a Segunda Guerra Mundial, deu lugar à produção de pedra artificial.

Praça do mercado e igreja protestante em Flonheim
Praça do mercado e igreja protestante em Flonheim

História

Tempo romano
Pedreiras romanas de Flonheim forneceram o arenito de quartzo para as esculturas agora mantidas no Museu Alzeyer (incluindo o Viergötterstein). Existem ricos achados de túmulos do período da Francônia, por exemplo, um túmulo principesco (século 7) com extenso e valioso armamento, incluindo uma longa espada com cabo revestido de ouro. Em 767, o lugar é mencionado como “Flonenheim”, mais tarde entre outras coisas como “Flanheim” (= residência do Flano). Desde o início do período merovíngio, Flonheim foi a sede da nobreza. 

O arenito foi extraído na parte sul do distrito de Flonheim já nos tempos romanos. Isso pode ser visto pelo fato de que, por exemplo, muitos monumentos de pedra romanos de Alzey foram feitos com arenito Flonheim. Devido à boa localização de Flonheim na estrada romana Worms-Alzey-Bingen, as pedras extraídas puderam ser removidas rapidamente. Não foi esclarecido de forma conclusiva se, além da pedreira romana, havia também um assentamento romano na área atual da aldeia. Até agora, apenas um túmulo foi encontrado na antiga “Heidenplatz”, o que pelo menos indica a existência de mansões.

A família Emichonen (posteriormente “Condes de Flonheim”) governou (“Amt Flonheim”, incluindo Uffhofen, Bornheim, Lonsheim) desde 960. Por volta de 1133, o conde selvagem Emich II fundou o Mosteiro dos Cânones Agostinianos de Santa Maria (onde – lembre-se também dos nomes “Klostergasse” e “Klostereck”). Por volta de 1300, o local foi cercado por uma muralha defensiva, que também é indicada pela planta da cidade com o anel viário. O domínio subseqüente dos Condes de Reno durou até 1792. 

Desde 1744, o endividado e despótico Magnus Rheingraf zu Rheingrafenstein era o senhor de parte do lugar. Distrito de Uffhofen: o nome veio de uma fazenda abaixo da vila de Flonheim (no sentido de “uff” = abaixo ou “uf Hofen” = ir em direção à fazenda). 

Idade Média
O nome que termina em “-heim” e alguns túmulos encontrados na área da aldeia indicam que a aldeia foi fundada pela Francônia há cerca de 500 anos. Foi mencionado pela primeira vez em 765/67 no Lorsch Codex como “Flan (n) nenheim” (lar do Flano).

No início da Idade Média, a aldeia pertencia aos Wildgrafen como Bornheim e Uffhofen. Em 1098 e 1139, eles são passados ​​como “comes de Vlanheim”. Em 1283, Wildgrave Gottfried von Dhaun era o senhor local. Depois que essa linha foi extinta em 1350, a comunidade veio para a linha de Kyrburg. Em 1368, Wildgrave Friedrich von Kyrburg prometeu sua parte nas áreas administrativas de Bornheim, Flonheim e Uffhofen por um curto período de tempo ao Conde Palatine Ruprecht I. Mais tarde, Flomborn, Bornheim e Uffhofen caíram para os herdeiros de Kyrburg, os  príncipes von Salm e os Condes de Reno von Grumbach. A partir de 1506, a cidade mercantil era a agência dos correios de Thurn and Taxis Post Office. O escritório de Flonheim, que esteve nas mãos do Conde do Reno desde cerca de 1409, com as suas localizações administrativas Bornheim, Flonheim e Uffhofen, durou até a ocupação francesa no final do século XVIII. Em 1744 os direitos foram definidos contratualmente através do escritório. Três quartos foram para os condes selvagens e do Reno de Dhaun, um oitavo para o príncipe Salm-Salm e outro oitavo para o  príncipe Salm-Kyrburg.

Um mosteiro de coro agostiniano , fundado pelo conde selvagem Emicho II como governante local  em 1131, que foi confirmado papalmente em 1162, foi dissolvido em 1554 durante a Reforma .

Em 1724-28 a igreja simultânea foi substituída por um novo edifício, que por sua vez foi substituído em 1881-1885 pela igreja protestante, que ainda existe hoje. Uma igreja católica foi construída anteriormente em 1877/78.

Uma população judia em Flonheim no início do período moderno pode ser comprovada pela sinagoga construída em 1786, que foi demolida em 1979. O cemitério judeu da cidade, ocupado até cerca de 1830, provavelmente também data do século XVIII. Sua localização é excepcional para um cemitério judeu, pois estava dentro das muralhas da cidade. 

Tempos modernos
No século 19, a demografia da vila cresceu continuamente. Em 1815 havia 1242 habitantes, em 1830, 1550 e 1900, 1818. Em 2011 o local contava com 2.636 habitantes.

A mineração e o processamento de arenito foram industrializados no século 19 e cresceram para se tornar o fator econômico central em Flonheim. Em 1808 trabalhavam nas pedreiras 460 pessoas, depois de meados do século eram mais de 1000 e também havia 30 pedreiros na aldeia. A construção do ramal Armsheim-Flonheim em 1871 tornou mais fácil o transporte desses bens econômicos. Como a estação ferroviária ficava perto das pedreiras isto facilitava, agora está um pouco longe do centro da cidade. 

Após o fim da Primeira Guerra Mundial, este ramo da indústria começou a declinar e a viticultura tornou-se o fator econômico mais importante. Em 1892, a construção da adega da vinícola Werner foi concluída e em 1888 a fábrica de vinagre Köhler foi fundada.

Pontos importantes
Numerosas belas casas barrocas com portais de arenito e interessantes entalhes em pedra (único em Rheinhessen, devido à indústria anterior de arenito), principalmente em restaurantes anteriores (Flonheim era a estação de retorno do Leinereiter), especialmente em Langgasse (a casa mais antiga de 1568) e Alzeyer Straße.

Câmara municipal (séc. XVII), hall no rés-do-chão com portais e núcleos de venda, torre de escadas. Impressionante praça do mercado com uma igreja de duas torres que é extraordinariamente poderosa para tal lugar, visível de longe (“Catedral do Vale de Wiesbach”). Mãe de Deus na versão antiga, por volta de 1750 no altar lateral neo-gótico da Católica.

Brasão do Conde do Reno na empena renascentista do prédio da escola, Bahnhofstrasse. Casas de vinhedos em forma de granada (edifícios em cúpula) feitas de arenito Flonheim de cor clara (“casas brancas”, também chamadas de “trulli”, dois aindares disponíveis), cuja construção é atribuída a construtores Lombard (Bergamo?), com aproximadamente 800 anos; estruturas peculiares particularmente características desta região, supostamente ainda ocorrendo como edifícios residenciais no sul da Itália.

Prensa de pedra (arenito) de 1870 em frente à cabana “Schauinsland”. Trilha educacional da natureza e do vinho. Pedreiras de arenito. No bairro de Uffhofen: moinho fantasma romanticamente situado na estrada para Wendelsheim. Aulheimer Grund (nome devido ao povoado submerso) com uma flora particularmente interessante. Pedreiras e poços de areia. No Museu Municipal de Worms: Achados do já mencionado “Túmulo do Príncipe”.

Arredores
Para a área de proteção paisagística “Alzeyer Berg” com cabana “Schauinsland” e “Donnersbergblick”, na área da antiga pedreira, sob proteção da natureza desde 1962, rodeada de vinhedos (trilhas educacionais da natureza e do vinho) – para Oswaldhöhe (Bornheim) e na torre de observação perto de Lonsheim – para Aulheimer Grund (acima de Geistermühle, caminho de campo ramificando-se para a esquerda): ambiente extremamente seco e quente, solo rochoso, rochas ígneas basálticas, “clima de microestepe”, Rabenkanzel como um local para plantas raras de urze, estepe de grama; entre Bornheim e Heimersheim correndo vale seco.

Trullo, uma construção típica de Flonheim
Trullo, uma construção típica de Flonheim

Flonheim é uma pequena cidade localizada na Renânia-Palatinado, Alemanha, conhecida principalmente por sua vinicultura. A história de Flonheim é rica e remonta a tempos antigos, com evidências de ocupação humana que datam de períodos pré-históricos.

Flonheim foi mencionada pela primeira vez em documentos históricos por volta do ano 766. A região já era habitada por celtas e depois por tribos germânicas antes da chegada dos romanos. Durante o período romano, a área era parte da fronteira do Império Romano, conhecida como Limes Germanicus. A presença de túmulos romanos e outros artefatos arqueológicos sugere uma ocupação significativa durante esse período.

No período medieval, Flonheim estava sob a influência de vários senhorios, incluindo o Eleitorado de Mainz, que era um dos mais poderosos estados eclesiásticos do Sacro Império Romano. A igreja local, a Igreja de São Remígio, é um exemplo do legado arquitetônico deixado por essa época, com partes da construção datando do século 12.

Durante a era moderna, Flonheim desenvolveu-se consideravelmente, especialmente no que diz respeito à produção de vinho. A viticultura tem sido a espinha dorsal da economia local por séculos, com a região sendo parte do famoso vinho alemão de Rheinhessen. A paisagem ao redor de Flonheim é pontilhada com vinhedos, e a cidade é conhecida por seus vinhos brancos, particularmente Riesling, Silvaner e Müller-Thurgau.

Fontes:
Regional Geschichte
Museu Flonheim

Martin Fischer quase emigrou para os EUA e não para o Brasil

Patriarca da família Fischer no Brasil, Martin Fischer tentou emigrar para os EUA, cerca de 10 anos antes de sua vinda para o Brasil. É o que consta em uma recente descoberta feita por Heitor Fischer, durante suas pesquisas.

Em contato com o Arquivo do Estado da Renânia Palatinado, obtivemos uma resposta interessante sobre Martin Fischer. Consta nos arquivos de emigração de Flonheim, no inventário H 51 do Distrito de Alzey, que o pedreiro, Martin Fischer, de Flonheim, de 33 anos de idade, em 30 de março de 1837, fez um pedido para que sua família emigrasse para a América do Norte.

As seguintes pessoas são especificadas como membros da família:

Katharina Elisabetha, nascida Stumpf, sua esposa, com 43 anos de idade
Anton, filho, 14 anos de idade
Johann Jacob, filho, 12 anos de idade
Johann Martin, filho, 08 anos de idade
Friedrich, filho, 05 anos de idade
Heinrich, filho, 03 anos de idade

O conselho distrital do Distrito de Alzey não levantou objeção ao pedido, no entanto, não está claro nos documentos se Martin Fischer e sua família realmente emigraram para a América do Norte em 1837. Não encontramos documentos que comprovem a saída da Alemanha, tão pouco que mostre a entrada nos EUA. Ao que tudo indica eles desistiram da viagem ou tiveram algum problema que impediu a emigração.

Documento do Arquivo do Estado de Hessen com a autorização de emigração de Martin Fischer e família em 1837
Documento do Arquivo do Estado de Hessen com a autorização de emigração de Martin Fischer e família, para os EUA, em 1837

Transcrição e tradução: Registro – por Martin Fischer, pedreiro em Flonheim, onde mora com sua família, quer emigrar para a América do Norte. Apareceu perante mim Martin Fischer, pedreiro, explicando que ele junto com sua família deseja ir para a América do Norte emigrar e se submeter aos regulamentos e leis. Para que nenhum obstáculo tenha aos seus projetos, sua família é constituída pelas seguintes pessoas: 1. Martin Fischer, entalhador, 33 anos. 2. a esposa, Katharina Elisabetha, nascida Stumpf, 43 ano de idade. 3. Anton, 14 anos de idade. 4. Johann Jacob, 12 anos.5. Johann Martin, 8 anos. 6. Friederich, 5 anos de idade. 7. Heinrich 3 anos. Depois de ler sua declaração ao declarante, ele assinou comigo.

Em 1837 ainda não havia nascido dois filhos mais novos de Martin Fischer e Katharina Stumpf. Por isso Katharina Fischer e Philipp Fischer não constam na lista citada acima. Ela nasceu em 1837 e pode inclusive ter sido o motivo dos pais não terem emigrado para os EUA, temendo o risco de viajarem com Catharina Stumpf gestante. Já Philipp nasceu em 1843, quando Catharina Stumpf estava com 49 anos, um fato também incomum pela idade avançada.

Não foram encontrado registros oficiais da vinda da família para o Brasil, mas fato é que Martin Fischer teria sido recrutado pela Vergueiro e Cia em 1846, como consta no livro de abertura da colônia Ibicaba e teria chegado com a família em 1847.

*Colaborou com informações Heitor Fischer

Martin Fischer um patriarca da família Fischer no Brasil

Indícios mostram que Martin Fischer é um dos patriarcas pioneiros da família Fischer no Brasil e ainda mais se considerarmos apenas o estado de São Paulo. Ele chegou no Brasil em 1 de junho de 1847, como contratado pela Vergueiro e Cia, para trabalhar como colono, em regime de parceria, na Fazenda Ibicaba, em Limeira.

O nome de Martin Fischer consta no registro no livro de abertura da Colônia Vergueiro em agosto de 1846, como chefe de família. Nesta página online há um indivíduo de nome Martin Fischer que emigrou em 1846, mas não se sabe para onde. Na primeira lista de Ibicaba há apenas os nomes dos chefes de família e nada mais, o que dificulta as pesquisas. Já em listas posteriores da Colônia há o local de origem, profissão, estado civil e o nome da esposa e ainda os dos filhos.

Lista original dos imigrantes no livro de abertura da Colônia Vergueiro
Lista original dos imigrantes no livro de abertura da Colônia Vergueiro em 1846

Os registros de emigrantes, na Alemanha daquela época, eram de forma incompleta; geralmente as licenças para saírem do país, assim como os passaportes, eram dos grupos familiares e, até onde sabemos, nem sempre mencionavam o nome das esposas ou dos filhos. Assim como na Alemanha, os registros de imigrantes no Brasil, daquela época, eram precários ou inexistentes.

Segundo o autor José Eduardo Heflinger Jr. em seu livro Ibicaba o berço da imigração europeia de cunho particular (pag. 37, 38, 39 e 40), ele cita que em 1846 o Senador Nicolau de Campos Vergueiro, a pedido do governo imperial do Brasil, tendo em vista o eminente fim da escravidão, empreendeu a busca por imigrantes interessados em virem para o Brasil, iniciando a substituição do trabalho escravo pelo trabalhador livre. O fato da Confederação Germânica na época viver um período de grave crise, com falta de emprego, fome e frequentes conflitos internos e externos, motivava o alemão a ter interesse pela proposta de vida nova na América do Sul, mas segundo o autor, o interesse era maior da classe média urbana e não do pobre camponês, que vivia na roça e tinha medo de enfrentar o desconhecido. Por isso, muitos dos imigrantes que vieram para Ibicaba não eram lavradores, mas sim trabalhadores urbanos como marceneiros, serralheiros, sapateiros, ferreiros, pedreiros (profissão de Martin Fischer), entre outros.

A proposta de trabalho para o imigrante era o regime de parceria, no qual o contratante, no caso a Vergueiro e Cia, custeava a viagem do imigrante e seus familiares, que já saiam da Alemanha contratados, mas teriam que pagar essa dívida depois. Cerca de 450 pessoas, de várias partes da Alemanha, mas principalmente da Renânia e do Holstein, foram recrutadas na Alemanha e reunidos na cidade de Mainz. De lá foram para o Porto de Hamburgo, por onde deixaram a Europa em março de 1847. Ao chegarem no Brasil, em junho de 1847, desembarcaram no Porto de Santos 422 pessoas, sendo que 401 colonos foram encaminhados para a fazenda Ibicaba, onde tinham 34 casa aguardando para abriga-los. Na fazenda foram destinados a eles um pedaço de terra onde deveriam plantar ítens básicos para alimentação como feijão e arroz, no entorno da casa poderiam criar animais como porcos e galinhas. Outros alimentos eram vendidos para o colono numa espécie de armazém que havia dentro da própria fazenda. Cada família recebeu um número de pés de café que deveria cuidar. Parte do valor fruto das colheitas do café ficava para o fazendeiro e parte para o colono. Este dinheiro o colono usava para seu sustento e também para quitar sua dívida com o contratante. 

Depois de alguns meses na colônia, alguns imigrantes já celebravam a vida no Brasil e escreviam cartas para a Alemanha, contando como era a vida no novo país e muitas vezes convidando outros familiares para também emigrarem. Martin Fischer foi um dos colonos que, junto com outros imigrantes, escreveu uma carta para a Alemanha, em 1848, relatando como era a vida em Ibicaba e manifestando contentamento com o regime de parceria.

“um pai de família diligente, trabalhador, econômico e com filhos, quanto mais melhor, principalmente se já podem trabalhar […], pode construir aqui, em poucos anos, uma situação livre e independente”, teria dito Martin Fischer em sua carta.

Martin Fischer
Martin Fischer

Martin Fischer e Katharina Elizabeth Stumpf tiveram sete filhos que emigraram com eles para o Brasil:

Anton Fischer (1823-1884)

Johann Jakob Fischer (1825-?)

Johann Martin Fischer (1829-1912)

Friedrich Fischer (1831-?)

Heinrich Fischer (1834-?)

Katharina Fischer (1837-1892)

Phelipp Fischer (1843-?)

Martin Fischer nasceu em 1804 e sua esposa Katharina Elizabetha Stumpf em 1794. A diferença de 10 anos entre eles e no caso a esposa mais velha que o marido, embora pareça algo estranho, era comum na época.

Quando o casal emigrou com os filhos da Alemanha para o Brasil eles moravam em Flonheim, Alzey-Worms, no atual estado da Renânia-Palatinado, na Alemanha. Ali eles se casaram e tiveram seus filhos, mas não conseguimos confirmar, ainda, se eles são naturais dessa localidade.

Sobre o matrimônio do casal conseguimos encontrar um documento de 22 de maio de 1832, uma espécie de revalidação do casamento. O registro, em alemão, é da igreja de Flonheim.

Casamento Martin Fischer e Catharina Stumpf
Casamento Martin Fischer e Katharina Stumpf

Transcrição e tradução: Após inscrição no registro matrimonial da paróquia civil de Flonheim, de acordo com a certidão do prefeito local, o casamento entre Martin Fischer de Flonheim e Katharina Elisabeth Stumpf de Flonheim, foi celebrado no dia vinte e dois de Maio de 1832 e foi publicamente abençoado pelo pastor protestante de Flonheim, após a proclamação ordinária anterior, hoje no dia vinte de dois de Maio de 1832.

Uma curiosidade sobre Martin Fischer e sua família é que antes de emigrarem da Alemanha para o Brasil, eles tentaram emigrar para os EUA, em 1837, mas por algum motivo ainda desconhecido, eles não se mudaram para a América do Norte e 10 anos depois, em 1847 desembarcaram no Brasil.

Cerca de 10 anos depois do início da Colônia Vergueiro, entre 1856 e 57, aconteceu a revolta dos colonos, liderada por Thomas Davatz, como consta no livro Memórias de um Colono no Brasil. Os revoltados acusavam o regime de parceria de ser injusto e impor aos colonos uma situação de escravidão por dívida. Os colonos descontentes relatavam que com o valor que recebiam da parte que lhes cabia na colheita, mais o alto custo dos produtos adquiridos por eles no armazém da fazenda, era impossível quitarem a dívida com o contratante e ficarem livres para viverem suas vidas onde quisessem. Este fato com grande repercussão na Europa, obrigou o senador Vergueiro a comprovar que a vida dos colonos na fazenda não era tão ruim e para isso precisou demonstrar através de dados, que muitos imigrantes haviam quitado suas dívidas e deixado a colônia, livres para viverem suas vidas nas cidades e alguns deles com dinheiro suficiente para adquirirem propriedades. 

Este foi o caso de Martin Fischer, que é citado na lista enviada pelo Senador Vergueiro, que consta no livro Revolta dos Parceiros de Ibicaba (pág. 62) como um dos colonos que em 1857 já havia deixado a colônia Ibicaba com dinheiro e tinha propriedade. Ou seja, embora alguns colonos pudessem ter enfrentado dificuldade que motivaram a revolta, outros, especialmente aqueles em idade ativa, com saúde e família numerosa, com muitos filhos já em idade para trabalhar, conseguiram quitar suas dívidas com o contratante e estavam livres para viverem suas vidas como quisessem.

Alguns documentos comprovam que Martin Fischer, além de atuar na lavoura de café, fazia trabalhos como pedreiro na construção de casas para outros colonos que chegaram posteriormente na Fazenda Ibicaba. Com essa atividade extra ele era remunerado, o que leva a crer que essa renda contribuiu para que ele conseguisse pagar em poucos anos toda a dívida com a Vergueiro e Cia.

Contabilidade do colono Martin Fischer na Fazenda Ibicaba
Contabilidade do colono Martin Fischer na Fazenda Ibicaba

Não conseguimos precisar a data exata que Martin Fischer deixou a fazenda Ibicaba, mas há indícios de que no início dos anos 1850 ele já não estava mais na colônia e seu filho mais velho Anton Fischer já havia assumido uma função administrativa na colônia, como cita o autor José Sebastião Witter, no livro Ibicaba uma experiência pioneira (pág. 58), quando diz que de 1850 até 1867 os diretores de origem alemã Adolph Jonas e Anton Fischer detiveram o poder.

Mas mesmo com os exemplos bem sucedidos de colonos que pagaram suas dívidas e seguiram suas vidas no Brasil, a campanha contra a imigração pelo regime de parceria causou grande repercussão na Europa, especialmente nos países germânicos, que proibiram em 1857, após a Revolta dos Colonos, a vinda, de maneira legal, de mais imigrantes. Outros grupos de emigrantes deixaram a Alemanha posteriormente a proibição, mas muitos de maneira ilegal, sem a aprovação do governo local. Essa dificuldade maior para os recrutadores, fez com que eles fossem obrigados a buscar outros povos interessados na vinda para o Brasil. Foi então que começou a vinda dos italianos, que no final do século XIX e início do século XX povoaram o Brasil e se tornaram um dos maiores grupos migratórios do país.

Martin ou Martinho Fischer uma confusão inicial

Martinho Fischer e Martin Fischer

Quando iniciamos as pesquisas genealógicas sobre a família Fischer, descobrimos que nosso antepassado mais antigo até então, Henrique Fischer (1874-1939), era natural de Constituição, atual Piracicaba, São Paulo e filho de Martinho Fischer e Maria Dupre.

Este nome, Martinho Fischer, despertou nossa curiosidade quando descobrimos que um dos imigrantes da primeira lista de colonos da Fazenda Ibicaba se chamava Martin Fischer. Pensávamos que Martinho pudesse ser uma forma carinhosa de tratamento no diminutivo para o pai de Henrique.

Martin Fischer é um dos imigrantes recrutados em agosto de 1846 pela Vergueiro e Cia sob o contrato de trabalho no regime de parceria, para integrar o grupo de colonos pioneiros da Fazenda Ibicaba. Ele deixou o porto de Hamburgo, onde hoje é a Alemanha, rumo ao Brasil, em abril de 1847 e, depois de 42 dias de viagem pelo Oceano Atlântico, em 01 de junho, chegou em Santos, São Paulo, junto com os primeiros imigrantes contratados.

Lista original dos imigrantes no livro de abertura da Colônia Vergueiro
Lista original dos imigrantes no livro de abertura da Colônia Vergueiro em 1846
Lista dos imigrantes no livro de abertura da Colônia Vergueiro
Lista dos imigrantes no livro de abertura da Colônia Vergueiro em 1846

Depois de uma cansativa viagem, de Santos até Limeira, no lombo de cavalos e burros, em 16 de junho de 1847, junto com 75 famílias e 364 pessoas, Martin Fischer e sua família enfim chegavam na Fazenda Ibicaba, em Limeira, São Paulo.

Vale ressaltar que nesta lista dos primeiros colonos há apenas os nomes dos chefes de família e nada mais, diferente de listas posteriores da Colônia, que trazem dados como o local de origem, profissão, estado civil, o nome da esposa e ainda os dos filhos. 

Estávamos animados com nossas pesquisas, até descobrirmos que Martinho Fischer, pai de Henrique, nasceu em 1850. Com essa informação, comprovada pelo registro de óbito dele, em 1913, aos 63 anos, em Limeira, São Paulo, descartamos a possibilidade do nosso Martinho, ser o Martin Fischer que chegou em Ibicaba em 1847.

Mas não desistimos, nossas hipóteses levavam a pensar que Martinho pudesse ser filho de Martin. Continuamos as buscas até encontrarmos o assento de batismo de Martinho Fischer nos registros do Family Search.

No documento da Igreja Matriz de Nossa Senhora das Dores consta que Martinho Fischer nasceu em 05 de setembro de 1850 e foi batizado em 05 de outubro do mesmo ano. Ele era filho de Antonio Fischer e Izabel Barth.

Assento de batismos de Martinho Fischer
Assento de batismos de Martinho Fischer

Transcrição: No mesmo dia e igreja batizei e pus os santos olhos no menino Martinho, de idade de um mês, filho de Antonio Fischer e Izabel Barth. Foram padrinhos Martinho Fischer e sua mulher Catharina Fischer.

Este documento mostrou que Martinho não era filho do Martin Fischer de Ibicaba, mas com a informação sobre seu pai Antonio, descobrimos que ele era na verdade neto. Isso porque Antonio Fischer é na verdade Anton Fischer, um dos filhos de Martin.