Entre a prosperidade e a dívida – Por que alguns colonos venceram e outros não

Quatro anos depois da chegada dos Fischer, um visitante encontrou uma Ibicaba surpreendente. Carlos Perret Gentil esteve na fazenda e publicou, em 1851, A Colônia Senador Vergueiro. Sua descrição era entusiasmada.

Encontrou famílias que considerou prósperas, casas com objetos que julgava superiores aos encontrados entre aldeões europeus relativamente abastados e colonos que, segundo ele, viviam com fartura. Chegou a defender que as dívidas poderiam ser quitadas em poucos anos.  Parecia a confirmação da promessa feita na Europa. Mas havia outro lado.

É preciso desconfiar de uma fonte excessivamente feliz

Perret Gentil é indispensável para conhecer os primeiros anos de Ibicaba. Mas não pode ser lido ingenuamente. Ele admirava o sistema de Vergueiro. Seu livro apresentou a experiência de maneira tão favorável que posteriormente foi utilizado para tornar a imigração ao Brasil atraente aos europeus. Outros observadores, entre eles Thomas Davatz e Johann Jakob von Tschudi, criticariam essa representação. 

Portanto, quando Gentil descreve prosperidade, devemos considerar duas coisas simultaneamente: provavelmente havia colonos realmente prósperos; mas sua obra tinha interesse em enfatizá-los. A realidade não era uniforme.

O sucesso era possível

Esse ponto é importante. Transformar todos os parceiros de Ibicaba em vítimas passivas seria tão incorreto quanto transformar todos em colonos prósperos. Algumas famílias conseguiram resultados econômicos positivos. A lógica permite entender por quê. Uma família numerosa, saudável e com vários adultos produtivos podia cuidar de mais cafeeiros. Uma boa colheita aumentava a receita.

Poucas despesas aceleravam a amortização. Produzir alimentos diminuía compras. Um ofício especializado podia gerar renda adicional. Uma boa relação com a administração podia abrir oportunidades. Em alguns casos, a dívida podia ser quitada. E, uma vez livre dela, surgia a possibilidade de deixar a fazenda e procurar oportunidades em Limeira, Rio Claro, Piracicaba ou outras localidades.

O fracasso também era possível

Bastava alterar algumas variáveis. Doença. Morte. Muitas crianças pequenas. Safra ruim. Endividamento elevado. Compras frequentes. Juros. Conflitos com a administração. Baixa produtividade. Tudo isso podia transformar poucos anos de dívida em um compromisso prolongado.

O sistema tinha ainda uma característica particularmente dura: pesquisas mostram que determinadas obrigações financeiras podiam continuar recaindo sobre a família quando o devedor morria. A promessa de recomeçar a vida podia, portanto, transformar-se em uma armadilha financeira.

O recrutamento também tinha falhas

Nem todos os europeus contratados eram agricultores experientes. O próprio Nicolau Vergueiro reconheceria posteriormente dificuldades de adaptação de parte dos imigrantes, e estudos apontam problemas no recrutamento, em que agentes tinham incentivos para reunir pessoas em quantidade, nem sempre selecionando trabalhadores adequados à agricultura tropical. 

Isso é especialmente interessante no caso de Martin. Ele era um Steinhauer. Não era, originalmente, um cafeicultor. Assim como ele, havia entre os imigrantes artesãos e pessoas com outros ofícios. Isso podia inicialmente ser uma desvantagem agrícola. Mas numa fazenda em expansão também podia transformar-se em oportunidade.

Construir para pagar a dívida

Os registros de Martin sugerem justamente isso. Sua habilidade profissional permitiu-lhe realizar trabalhos que não dependiam diretamente do café. Casas precisavam ser erguidas. Uma colônia com centenas de habitantes precisava crescer. Cada serviço adicional podia significar crédito. E cada crédito podia aproximá-lo da quitação.

Essa hipótese precisa ser demonstrada ano a ano pelos documentos contábeis, mas abre uma possibilidade fascinante: talvez Martin tenha conseguido enfrentar o sistema de parceria não apenas como agricultor, mas utilizando a profissão que aprendera em Flonheim.

Sua história individual mostra por que generalizações sobre os colonos são perigosas. Cada família possuía uma economia própria.

Os filhos aprendem mais rápido

Existe outro fator. A primeira geração precisava aprender tudo. Língua. Moeda. Agricultura. Regras. Geografia. Costumes. 

Os filhos tinham uma vantagem. Anton Fischer, especialmente, parece ter aprendido a circular nesse novo mundo. Com o tempo, aparece ligado à administração e à contabilidade. Isso representa uma mudança social importante.

A família que havia chegado como mão de obra contratada começava a ocupar posições diferentes dentro da estrutura local. Esse tipo de trajetória também ajuda a explicar por que alguns descendentes de colonos acabariam deixando as fazendas e estabelecendo-se como comerciantes, artesãos, proprietários ou empresários nas cidades do interior.

Há estudos especificamente dedicados à transformação de antigos colonos de Ibicaba em empresários em Piracicaba, mostrando que a experiência da parceria não necessariamente determinou permanentemente sua posição social. 

A saída de Ibicaba

Não sabemos exatamente quando Martin Fischer deixou a Fazenda Ibicaba. Nenhum documento localizado até o momento registra uma data precisa para sua saída, uma quitação final acompanhada de desligamento ou o lugar para onde se mudou imediatamente depois. Ainda assim, diferentes documentos permitem reconstruir parte dessa história e estabelecer uma hipótese bastante provável: Martin parece ter sido um dos colonos da primeira leva que conseguiu superar relativamente cedo as dívidas do sistema de parceria e deixar a fazenda em situação econômica favorável.

A trajetória começa em 1847. Quando chegou a Ibicaba com Katharina e os filhos, Martin não trazia apenas braços para trabalhar no café. Trazia consigo uma profissão: era Steinhauer, trabalhador especializado em pedra e construção. Essa habilidade parece ter adquirido importância rapidamente numa colônia que precisava erguer moradias para centenas de recém-chegados.

Os documentos contábeis preservados dos primeiros anos mostram Martin não apenas como parceiro agrícola, mas também recebendo valores por trabalhos relacionados à construção de casas. Esse detalhe é fundamental para compreender o que pode ter acontecido posteriormente. Enquanto a renda de muitos parceiros dependia quase exclusivamente do resultado das colheitas, Martin possuía uma segunda fonte de recursos.

Durante o dia, a família podia trabalhar nos cafezais e nas culturas de subsistência. Paralelamente, Martin conseguia aproveitar o ofício que trouxera da Alemanha para obter créditos adicionais. Em um sistema no qual o principal objetivo econômico do colono era reduzir a dívida contraída com a Vergueiro & Companhia, qualquer renda extra fazia diferença.

Uma família com muitos braços

Outro elemento provavelmente favorecia os Fischer. Martin e Katharina chegaram ao Brasil com vários filhos, alguns deles já adolescentes ou jovens adultos. No sistema de parceria, isso representava uma vantagem econômica importante. A família constituía uma unidade produtiva, e a quantidade de trabalho que conseguia realizar dependia diretamente do número de braços disponíveis.

Anton, o filho mais velho, já tinha cerca de 24 anos quando chegou ao Brasil. Outros filhos também estavam entrando ou já haviam entrado em idade produtiva. Assim, os Fischer reuniam duas características potencialmente favoráveis: uma família numerosa e uma profissão especializada capaz de gerar renda adicional.

Isso não prova, isoladamente, que tenham enriquecido. Mas ajuda a explicar por que poderiam ter reduzido a dívida mais rapidamente do que famílias menores, com crianças pequenas ou dependentes exclusivamente do café.

1848: Martin parece satisfeito

Há ainda uma pista particularmente interessante. Fontes sobre os pioneiros de Ibicaba mencionam Martin Fischer entre os colonos que teriam escrito para a Alemanha em 1848, descrevendo favoravelmente a experiência na fazenda. A carta original ainda não foi localizada, portanto seu conteúdo precisa ser tratado com cautela. A referência, entretanto, é relevante porque sugere que, aproximadamente um ano depois da chegada, a situação da família não parecia ser necessariamente negativa. 

É também importante considerar que correspondências favoráveis podiam ser utilizadas pela própria empresa colonizadora como propaganda para atrair novos trabalhadores. Por isso, enquanto não encontrarmos a carta original, não é possível saber quanto havia de manifestação espontânea de Martin e quanto poderia ter sido mediado pelo interesse de Vergueiro. Ainda assim, a referência existe e precisa fazer parte da história.

Por volta de 1850, alguma coisa parece mudar

É no início da década de 1850 que os indícios começam a apontar para uma transformação na situação da família. Anton Fischer, que havia chegado como filho de um parceiro, passa a aparecer associado à estrutura administrativa de Ibicaba.

José Sebastião Witter, ao estudar a documentação da fazenda, situa os diretores de origem alemã João Adolfo Jonas e Anton Fischer no exercício do poder administrativo em Ibicaba no período posterior a 1850. Um estudo baseado, entre outras fontes, no Livro Mestre da colônia também afirma que Jonas e Anton Fischer exerceram a direção entre aproximadamente 1850 e 1867. É uma mudança social considerável.

Em 1847, Anton chegara como integrante de uma família endividada perante a companhia. Poucos anos depois, estava do outro lado da contabilidade. A ascensão de Anton pode ser mais um sinal de que a situação econômica e social dos Fischer havia melhorado rapidamente.

Mas existe uma distinção fundamental: a permanência de Anton na administração não significa necessariamente que Martin e o restante da família continuassem morando como parceiros em Ibicaba. Ao contrário, é perfeitamente possível que as trajetórias tenham se separado.

Martin pode ter saído enquanto Anton ficou

Essa talvez seja atualmente a hipótese que melhor concilia os documentos. Depois de alguns anos de trabalho, Martin e Katharina teriam conseguido reduzir ou quitar seus compromissos e deixado a condição de parceiros. Anton, entretanto, permaneceu em Ibicaba porque havia encontrado ali uma oportunidade profissional muito diferente da agricultura: a administração da colônia.

Pai e filho, portanto, podem ter seguido caminhos distintos. Martin deixava o sistema. Anton passava a administrá-lo. É uma possibilidade particularmente interessante porque explica por que encontramos Anton durante tantos anos nos registros administrativos de Ibicaba sem que isso obrigue a concluir que toda a família continuasse vinculada à fazenda.

Ascensão de Anton Fischer
Ascensão de Anton Fischer

Um documento de 1857 fornece a pista mais importante

A evidência mais forte aparece alguns anos depois. Uma relação encaminhada pelo senador Vergueiro e posteriormente reproduzida em estudos sobre a Revolta dos Parceiros menciona Martin Fischer entre os colonos que já haviam deixado Ibicaba com recursos e possuíam propriedade. 

Esse registro é extremamente importante. Ele estabelece um limite cronológico seguro: em 1857, Martin já havia deixado a condição de colono de Ibicaba. Mais do que isso, a maneira como aparece na relação sugere que não havia saído simplesmente fugindo da dívida ou abandonando o contrato. Martin era apresentado como exemplo de colono que deixara a fazenda com dinheiro e propriedade.

Precisamos naturalmente considerar a origem dessa informação. Vergueiro tinha interesse, especialmente depois da Revolta dos Parceiros, em demonstrar que seu sistema permitia aos imigrantes prosperar. Portanto, uma relação preparada por ele não deve ser tomada como uma avaliação imparcial. Mas isso não elimina seu valor documental.

O nome de Martin aparece associado a uma condição concreta: já não estava em Ibicaba e era apresentado como economicamente estabelecido.

Colonos que deixaram a colônia 1857
Colonos que deixaram a colônia 1857

Teria saído já em 1850?

Aqui começa a hipótese. É possível que a saída tenha ocorrido consideravelmente antes de 1857. A ascensão de Anton na administração a partir do início da década de 1850 é um indício. Outro elemento que precisa ser explorado são os próprios documentos contábeis de Martin.

Se possuímos contas de 1847, 1848 e 1849, mas seu nome desaparece posteriormente da sequência documental enquanto outros colonos continuam registrados, essa ausência pode ser significativa.

Sozinha, ela não prova a saída. Um livro pode ter se perdido. Um registro pode estar em outra seção. Uma conta pode ter sido transferida. Mas, combinada com as demais evidências, a ausência ganha importância. Por isso, a pergunta documental decisiva passa a ser: qual é a última conta conhecida de Martin Fischer como parceiro de Ibicaba?

Se o último lançamento estiver em 1849 ou 1850 e os Livros Mestres seguintes realmente não contiverem mais sua conta, teremos uma evidência bastante forte de que sua saída ocorreu aproximadamente nesse período.

Piracicaba surge no horizonte

Há ainda uma pista geográfica. A família começa a aparecer documentalmente na região de Piracicaba, então chamada Constituição. Em 5 de setembro de 1850, nasceu ali Martinho Fischer, filho de Anton Fischer e Elizabeth Barth. Um mês depois, em 5 de outubro, o menino foi batizado na Matriz de Santo Antônio. Os padrinhos foram justamente Martin Fischer e Catharina Fischer, seus avós paternos. Esse registro é particularmente interessante.

Ele comprova que Martin e Katharina estavam presentes — ou ao menos suficientemente integrados à vida religiosa e familiar de Constituição/Piracicaba — em outubro de 1850. Mas precisamos evitar um salto lógico.

Ser padrinho em Piracicaba não prova que Martin já morasse ali. Ibicaba e Constituição estavam ligadas por caminhos regionais, e ele poderia ter se deslocado para o batismo do neto. Ainda assim, quando colocamos essa informação ao lado do possível desaparecimento de suas contas em Ibicaba e da ascensão administrativa de Anton, começa a surgir um cenário coerente.

A reconstrução mais provável

Portanto, com as evidências atualmente disponíveis, podemos estabelecer três níveis diferentes de certeza.

O que sabemos: Martin chegou a Ibicaba em 1847; trabalhou no sistema de parceria; os registros contábeis mostram também remuneração por trabalhos de construção; estava ligado à família em Piracicaba em 1850; e, em uma relação de 1857, aparece entre aqueles que já haviam deixado Ibicaba com recursos e propriedade. 

O que os indícios sugerem: sua situação econômica melhorou relativamente rápido; a renda proveniente de seu ofício e a força de trabalho de sua numerosa família podem ter acelerado a quitação da dívida; e sua saída provavelmente ocorreu antes de 1857.

O que ainda é hipótese: Martin pode ter deixado Ibicaba já por volta de 1850 ou nos primeiros anos daquela década, possivelmente estabelecendo-se na região de Piracicaba, enquanto Anton permaneceu na fazenda e ascendeu dentro da administração.

É, atualmente, a reconstrução que melhor concilia as fontes.

De parceiro a homem livre de sua dívida

Se essa hipótese estiver correta, a permanência de Martin Fischer como parceiro em Ibicaba pode ter sido relativamente curta. Talvez apenas três, quatro ou poucos anos. É uma perspectiva bastante diferente daquela que normalmente associamos aos colonos endividados do sistema de parceria. Martin parece ter encontrado uma maneira de utilizar aquilo que já sabia fazer.

O homem que deixara Flonheim como Steinhauer não dependera apenas daquilo que precisou aprender no Brasil. Seu antigo ofício provavelmente lhe permitiu ganhar dinheiro numa colônia que precisava desesperadamente construir.

A numerosa família oferecia braços para o café. Martin oferecia também uma especialização. Anton, por sua vez, encontrava espaço na administração. Cada membro começava a encontrar seu próprio caminho.

Em algum momento ainda desconhecido do início daquela década, Martin pode ter feito algo que, poucos anos antes, parecia extremamente distante: acertado suas contas, reunido seus pertences e deixado Ibicaba não como emigrante recém-chegado, mas como um homem estabelecido no Brasil.

Não sabemos ainda o dia em que isso aconteceu. Não sabemos quanto dinheiro levava. Nem identificamos definitivamente a propriedade mencionada em 1857. Mas sabemos que, dez anos depois de sua chegada, Martin já não era apresentado como parceiro endividado de Vergueiro. Era citado como um dos colonos que haviam saído da fazenda com recursos e propriedade.

Para alguém que, em 1847, desembarcara em Santos carregando uma dívida e a esperança de começar novamente, essa transformação é talvez uma das evidências mais importantes de que, pelo menos para Martin Fischer, a primeira etapa do projeto migratório havia funcionado.

Ibicaba muda

Enquanto algumas famílias melhoravam de vida, novas levas chegavam. A população crescia. A estrutura administrativa tornava-se mais complexa. O sistema de parceria espalhava-se.

Entre 1847 e 1857, formas semelhantes de contrato passaram a ser empregadas em dezenas de grandes propriedades do Oeste Paulista. Ibicaba transformara-se em laboratório.

E justamente por isso seus problemas também ganhariam repercussão internacional. Na década de 1850, acusações de contas injustas, restrições, endividamento e abusos tornaram-se mais frequentes. Em 1856, a tensão explodiria na famosa Revolta dos Parceiros, associada sobretudo à liderança de Thomas Davatz.

A experiência que havia sido apresentada como modelo passaria a ser denunciada na Europa como exemplo dos perigos da emigração para as fazendas brasileiras.

A Revolta dos Parceiros

Tomás Davatz
Tomás Davatz

Também chamada de Revolta de Ibicaba, foi um movimento de contestação dos imigrantes europeus que trabalhavam pelo sistema de parceria na Fazenda Ibicaba. O episódio começou no fim de 1856, atingiu seu momento mais tenso em 24 de dezembro daquele ano e teve desdobramentos até o início de 1857. 

O principal líder foi o suíço Thomas Davatz, mestre-escola e colono de Ibicaba. Ele havia sido encarregado por emigrantes suíços de relatar às autoridades de seu país as condições encontradas no Brasil. Com o tempo, tornou-se porta-voz das reclamações dos parceiros, sobretudo contra a falta de transparência nas contas, os preços cobrados pelos mantimentos, critérios de pesagem e venda do café, juros e despesas lançadas nas contas e a dificuldade de muitas famílias para quitar as dívidas contraídas com a fazenda. 

Em dezembro de 1856, Davatz e outros colonos prepararam uma lista de reivindicações. Cerca de 85 colonos assinaram o documento, e Davatz pretendia que o Consulado Suíço promovesse uma investigação independente sobre o cumprimento dos contratos de parceria. Os participantes eram principalmente imigrantes de língua alemã — sobretudo suíços e também trabalhadores originários da Turíngia e de outras regiões germânicas. 

O momento decisivo ocorreu na véspera de Natal, 24 de dezembro de 1856. Nicolau Vergueiro chamou Davatz para uma reunião na casa-grande. Estavam presentes, entre outros, o próprio Vergueiro, seu filho Luís, integrantes da administração da fazenda como Adolph Jonas, o professor Alscher e o médico da colônia Dr. Gattiker. A discussão girou em torno das acusações feitas pelos colonos e da possibilidade de uma investigação externa. 

Enquanto Davatz estava dentro da casa, colonos que aguardavam do lado de fora acreditaram que ele poderia estar sendo ameaçado ou preso. Um mensageiro correu até a colônia e pediu ajuda. Em pouco tempo, homens e mulheres dirigiram-se à sede levando espingardas, pistolas, foices, ancinhos, cacetes e outras ferramentas de trabalho. Dois tiros chegaram a ser disparados, mas não houve uma batalha aberta nem um massacre. 

A situação foi controlada nos dias seguintes. A pequena força policial de Limeira não era suficiente, e houve mobilização da Guarda Nacional, além da intervenção de representantes e autoridades ligados aos suíços. O levante armado terminou sem uma grande confrontação militar, mas as reivindicações não desapareceram imediatamente; os colonos continuaram contestando aspectos do sistema e alguns permaneceram armados por algum tempo. 

A Revolta dos Parceiros não acabou com Ibicaba naquele momento, mas teve consequências profundas. As denúncias de Davatz chegaram à Europa e, depois de seu retorno à Suíça, ele publicou em 1858 um livro relatando as condições dos colonos. A repercussão contribuiu para desacreditar o sistema de parceria brasileiro em diversos países europeus e dificultou o recrutamento de novos trabalhadores para fazendas paulistas. 

A revolta mostrou que o problema não era necessariamente a imigração ou o trabalho livre em si, mas a enorme desigualdade de poder existente no sistema de parceria — especialmente em torno das dívidas, da contabilidade e da capacidade dos colonos de fazer valer o contrato diante dos proprietários. Ela se tornou um dos episódios mais emblemáticos da transição brasileira entre o trabalho escravizado e novas formas de trabalho livre. 

Mas os Fischer pertenciam a uma geração anterior

Quando Davatz chegou, os Fischer já tinham anos de experiência no país. Conheciam a língua melhor. Conheciam a região. Possuíam relações. Alguns já haviam construído novos caminhos.

Na ocasião da Revolta dos Parceiros, Martin Fischer, sua esposa e filhos já haviam quitado a dívida da família e deixado a fazenda Ibicaba. Tal fato teria ocorrido por volta de 1850/51.

Por outro lado, Anton Fischer, filho mais velho de Martin, havia deixado de ser um colono para fazer parte da administração da colônia Vergueiro.

A grande questão para eles deixava progressivamente de ser: “Conseguiremos sobreviver em Ibicaba?”

E passava a ser: “Existe uma vida possível fora de Ibicaba?”

Anton Fischer: de colono a administrador

Enquanto Martin Fischer parece ter deixado Ibicaba depois de conseguir superar as obrigações financeiras contraídas com a imigração, seu filho mais velho seguiu um caminho diferente. Anton Fischer permaneceu ligado à fazenda.

Quando desembarcou no Brasil em 1847, tinha aproximadamente 24 anos. Chegara como integrante de uma família de parceiros. Poucos anos depois, porém, seu nome começava a aparecer associado à administração da mesma colônia em que sua família havia iniciado a vida brasileira.

A documentação permite acompanhar parcialmente essa ascensão. Em meados da década de 1850, João Adolfo Jonas ocupava a direção da Colônia Senador Vergueiro. Um relatório elaborado por ele em 1855, enviado pelo senador Vergueiro ao presidente da Província de São Paulo, demonstra a importância de Jonas na administração e no acompanhamento das famílias de imigrantes. 

Anton Fischer parece ter crescido profissionalmente dentro dessa estrutura. Na época da Revolta dos Parceiros, em 1856, referências posteriores colocam Jonas e Fischer conjuntamente na direção da colônia, com Jonas ocupando a posição principal e Fischer associado à vice-direção. Estudos sobre Ibicaba afirmam que os dois diretores de origem alemã exerceram poder sobre a colônia durante boa parte do período compreendido de 1847 a 1857 Adolf Jonas e de 1857 a 1871 Anton Fischer. 

Não foi localizado, até o momento, um documento que estabeleça a data exata da nomeação de Anton ou que o identifique formalmente como “assistente de Jonas”. A sequência documental, entretanto, permite considerar bastante plausível que tenha iniciado sua trajetória administrativa em posição subordinada ou auxiliar e adquirido responsabilidades progressivamente.

Os livros de contabilidade fornecem uma evidência ainda mais importante. Durante a década de 1860, o nome e a assinatura de Anton Fischer aparecem repetidamente associados às contas dos colonos de Ibicaba entre 1862 e 1870. Os Livros Mestres registram sua atuação em exercícios sucessivos, demonstrando que o antigo imigrante participava diretamente da administração econômica da propriedade. 

Assinatura Anton Fischer
Assinatura Anton Fischer

Assim, em aproximadamente quinze anos, sua trajetória havia sofrido uma transformação extraordinária: em 1847, Anton chegara a Ibicaba como filho de um colono endividado; na década de 1860, era um dos homens responsáveis por administrar as contas de outros colonos.

Essa ascensão, entretanto, trouxe também conflitos. O viajante suíço Johann Jakob von Tschudi registrou duras acusações contra um diretor de sobrenome Fischer, retratado pelos colonos como autoritário e brutal. A historiografia sobre Ibicaba associa esse administrador a Anton Fischer. 

A acusação deve ser apresentada como aquilo que é: o testemunho crítico de Tschudi baseado nas reclamações que recolheu, e não como uma descrição neutra e definitivamente comprovada da personalidade de Anton.

Ainda assim, ela revela uma transformação social particularmente significativa. Anton havia conhecido Ibicaba primeiro como imigrante. Depois tornou-se parte de sua administração. De parceiro, passou a integrar a estrutura de poder da fazenda.

O preço de uma nova vida – Dinheiro, dívida e as regras do sistema de parceria na colônia Ibicaba

A promessa parecia simples. O fazendeiro financiaria a viagem. O imigrante trabalharia. A produção seria dividida. A dívida seria paga. E, depois de alguns anos, a família poderia construir uma vida independente. Esse era o princípio do sistema de parceria. Na prática, porém, tudo dependia de uma palavra: conta.

O contrato

A relação entre Vergueiro & Companhia e os imigrantes começava antes mesmo de eles pisarem no Brasil. Os contratos eram firmados na Europa. A companhia financiava a passagem marítima até Santos e o transporte do porto até a fazenda. Ao chegar a Ibicaba, cada família deveria receber casa e uma quantidade de cafeeiros compatível com sua capacidade de trabalho. Não se tratava de uma doação. Tratava-se de um adiantamento. A família começava a nova vida devendo.

A conta começa antes do trabalho

Esse é um ponto fundamental para compreender todo o sistema. Martin Fischer não precisou esperar comprar alguma coisa em Ibicaba para tornar-se devedor. O próprio processo migratório produzia a dívida. Passagens. Transporte. Instalação. Adiantamentos. Mantimentos. Outras despesas.

Os valores financiados pela companhia deveriam ser restituídos com juros, normalmente fixados em 6% ao ano, embora pesquisas tenham identificado casos de cobranças superiores, chegando a 12%. 

Assim, quando Martin olhou pela primeira vez para seus cafeeiros, eles representavam duas coisas simultaneamente: uma oportunidade de renda; e o meio pelo qual deveria pagar aquilo que devia.

Como funcionava a parceria

A família cuidava de determinado número de cafeeiros. Cultivava. Colhia. Participava do beneficiamento conforme as regras estabelecidas. O café era comercializado. O resultado era dividido.

Em linhas gerais: 50% para o proprietário. 50% para o parceiro. À primeira vista, parecia uma divisão clara. Mas o valor recebido pelo colono não correspondia simplesmente a metade do café produzido.

Havia despesas. Havia juros. Havia adiantamentos. Havia compras. E havia o problema de quem controlava a contabilidade.

Não era salário

Martin não era empregado assalariado no sentido moderno. Não recebia um valor fixo por mês pela manutenção dos cafezais. Sua remuneração estava ligada ao resultado da produção.

Isso transferia parte do risco para o próprio trabalhador. Uma colheita boa podia acelerar o pagamento da dívida. Uma colheita ruim fazia o contrário. Doença podia diminuir a capacidade de trabalho. A presença de filhos maiores podia aumentá-la. Os preços do café também influenciavam.

Portanto, duas famílias chegadas no mesmo navio e instaladas na mesma fazenda podiam apresentar resultados econômicos completamente diferentes depois de alguns anos.

A roça de mantimentos

O contrato permitia ainda o cultivo de alimentos. Essas roças tinham enorme importância porque reduziam a necessidade de comprar tudo na venda. Milho, feijão e outros gêneros podiam alimentar a família.

Eventuais excedentes podiam ser comercializados, embora as regras relativas à divisão dos resultados variassem e, segundo Sérgio Buarque de Holanda, alguns proprietários chegaram a abrir mão da parte que lhes caberia na venda dos excedentes alimentares. A capacidade de administrar a pequena economia doméstica era, portanto, quase tão importante quanto trabalhar bem no cafezal.

A dívida como instrumento de permanência

O sistema tinha uma lógica empresarial evidente. Vergueiro investia dinheiro para trazer trabalhadores da Europa. Era necessário garantir que esses trabalhadores permanecessem tempo suficiente na fazenda para compensar o investimento. A dívida desempenhava exatamente essa função.

Estudo recente de história econômica define a experiência de Ibicaba como uma forma de parceria associada a obrigações de crédito. A duração efetiva da dependência estava ligada à capacidade da família de quitar aquilo que devia. 

O contrato, portanto, ligava economicamente o colono à propriedade. Era livre. Mas não completamente livre para simplesmente abandonar seus compromissos financeiros. Essa ambiguidade estaria no centro dos conflitos futuros.

Direitos e obrigações

Pelos padrões atuais, seria errado chamar essa relação de emprego convencional. Não havia legislação trabalhista como conhecemos. Não existiam salário mínimo, férias remuneradas, jornada legal de oito horas, décimo terceiro salário, FGTS ou previdência social.

A relação era essencialmente contratual. Ao colono cabia trabalhar os cafeeiros recebidos, cumprir determinadas obrigações, conservar sua moradia e quitar os débitos. Ao fazendeiro cabia fornecer as condições previstas, financiar o deslocamento, disponibilizar casa e cafeeiros e repartir o resultado conforme o acordo.

Disputas deveriam, em princípio, ser resolvidas por árbitros. O problema surgia quando as duas partes discordavam sobre o cumprimento dessas regras. E, sobretudo, quando uma delas possuía muito mais poder econômico, político e social do que a outra.

O poder de quem escreve os números

Imagine uma família alemã. Ela não domina o português. Não conhece profundamente o sistema monetário brasileiro. Não controla a venda internacional do café. Não determina o preço pelo qual sua produção será comercializada. E recebe uma conta preparada pela administração.

Essa assimetria ajuda a explicar por que a contabilidade acabaria tornando-se uma das maiores fontes de tensão. Pesquisas recentes sobre os registros de Ibicaba mostram como mecanismos de crédito, compras e registros contábeis podiam aprofundar a dependência dos colonos. 

Para compreender a experiência de uma família, portanto, não basta saber quanto ela produziu. É necessário reconstruir créditos e débitos.

E é justamente aí que Martin volta a aparecer

Por uma rara circunstância documental, sobreviveram registros contábeis referentes a Martin Fischer nos primeiros anos em Ibicaba. Essas folhas aparentemente frias — números, valores, créditos, débitos — são, na verdade, uma janela extraordinária para sua vida. Elas mostram que sua economia não se limitava necessariamente ao café. Há valores relacionados a trabalhos de construção.

Isso modifica nossa interpretação. Martin podia gerar receita utilizando o ofício que trouxera da Alemanha. O Steinhauer não desapareceu quando surgiu o colono. As duas identidades coexistiram. Agricultor quando necessário. Trabalhador especializado quando havia oportunidade. Pai de uma família numerosa. Devedor da companhia. E, gradualmente, alguém tentando produzir um saldo positivo.

Por isso as contas de Martin merecem ser lidas quase como um diário. Elas talvez não digam o que ele sentiu. Mas dizem algo igualmente raro: como ele tentou sobreviver.

Contabilidade Martin Fischer 1848
Contabilidade Martin Fischer 1848

A vida na Colônia Vergueiro em Ibicaba

Trabalho, família, religião e cotidiano

Depois das primeiras semanas, o extraordinário começou a tornar-se cotidiano. O navio já era lembrança. Santos ficara distante. A longa estrada desaparecera atrás deles. O que agora determinava o tempo era a lavoura. E o café possui seu próprio calendário.

O amanhecer em Ibicaba

A vida começava cedo. Antes que o calor aumentasse, homens e mulheres já precisavam preparar-se para as atividades do dia. Não havia uma única tarefa. O cafezal exigia cuidados durante todo o ano. Era preciso limpar o terreno, retirar plantas invasoras, conservar os cafeeiros e preparar a área para a colheita.

Quando chegava a época dos frutos maduros, o ritmo se intensificava. A colheita precisava aproveitar o momento correto. Depois vinha o transporte. A secagem. A preparação.

Paralelamente, existiam as roças de mantimentos. O sistema de parceria estabelecia que cada família recebesse a quantidade de cafeeiros que fosse capaz de cultivar, colher e beneficiar, além de terras para plantar alimentos. Isso fazia da família uma pequena empresa agrícola dentro de uma enorme fazenda.

A Fazenda Ibicaba
A Fazenda Ibicaba

Todos trabalhavam

A divisão do trabalho não seguia o modelo contemporâneo de um homem empregado enquanto mulher e filhos permaneciam economicamente fora da atividade. A força de trabalho familiar era justamente uma das bases do sistema.

Homens realizavam os trabalhos mais pesados. Mulheres cuidavam da casa, preparavam alimentos, lavavam roupas, cuidavam das crianças menores e também podiam participar das atividades agrícolas, principalmente nos períodos de maior necessidade de braços. Filhos, à medida que cresciam, entravam progressivamente no trabalho. Isso explica por que o tamanho e a composição etária da família tinham consequências econômicas. Uma família numerosa podia receber mais cafeeiros. Mas também tinha mais bocas para alimentar. O equilíbrio entre braços e dependentes era decisivo.

Trabalhores em Ibicaba
Trabalhores em Ibicaba

O almoço de um colono

A alimentação certamente mudou desde os primeiros meses. Alguns hábitos europeus permaneceram, sempre que os ingredientes permitiam. Mas a mesa começou a incorporar alimentos brasileiros. Milho. Feijão. Mandioca. Carne salgada. Verduras e legumes cultivados nas próprias roças.

O pão europeu não desapareceu necessariamente, mas produzir trigo no interior paulista era outra realidade. A farinha de milho e a mandioca ganharam espaço. Podemos imaginar nesse processo algo que aconteceria repetidamente na história dos descendentes de imigrantes: a tradição não desaparecia; adaptava-se.

Uma receita mudava. Um ingrediente era substituído. Uma palavra portuguesa entrava no vocabulário alemão da casa. Uma criança nascida no Brasil crescia ouvindo dois universos culturais ao mesmo tempo.

A venda

Nem tudo podia ser produzido. Os colonos precisavam adquirir diversos produtos, e a venda da fazenda desempenhava papel importante nesse abastecimento. Esse mecanismo, aparentemente simples, acabaria tornando-se uma das questões mais controversas do sistema de parceria.

Comprar significava contrair despesas. Despesas eram anotadas. E as contas importavam enormemente para famílias que já haviam chegado endividadas. Estudos posteriores identificaram que a dependência da venda e as dificuldades de acesso ao comércio externo contribuíram para reclamações contra a administração. 

Nos primeiros anos, porém, cada compra já possuía uma dimensão que ultrapassava o consumo. Era contabilidade.

Contabilidade Martin Fischer Ibicaba 1847
Contabilidade Martin Fischer Ibicaba 1847

Uma comunidade que falava alemão

Dentro da colônia, o choque linguístico era amenizado pela convivência entre os próprios imigrantes. Havia renanos, prussianos, bávaros e pessoas provenientes de outras regiões de língua germânica. Não falavam necessariamente o mesmo dialeto, mas possuíam uma base linguística que os aproximava.

A colônia tornou-se um refúgio cultural. Depois de passar o dia ouvindo português de administradores e trabalhadores brasileiros, era possível voltar para casa e conversar na língua da infância.

As famílias visitavam-se. Trocavam informações. Ajudavam-se. Crianças conviviam. Jovens cresciam juntos. E isso teria consequências genealógicas profundas algumas décadas depois.

Os companheiros de viagem transformavam-se em vizinhos. Os vizinhos transformavam-se em compadres. Os filhos dos vizinhos acabariam se casando.

Domingos e dias santos

O domingo quebrava parcialmente o ritmo da lavoura. Era momento de descanso, encontros e práticas religiosas. Mas religião era uma questão complexa para os imigrantes germânicos. O Brasil imperial possuía o catolicismo como religião oficial. Outras religiões eram toleradas sob determinadas limitações legais.

Entre os imigrantes havia católicos e protestantes. Os protestantes precisavam preservar suas práticas em condições muito diferentes das existentes na Alemanha.

Casamentos não católicos, em particular, encontravam problemas jurídicos. Um documento de Nicolau Vergueiro posteriormente registrou uniões entre alemães e brasileiros que não eram reconhecidas pelo ordenamento vigente justamente por não terem seguido os ritos da Igreja Católica. 

A religião, portanto, não era apenas fé. Era também documentação. Um batismo dizia quem eram os pais. Os padrinhos revelavam relações de confiança. Um casamento estabelecia legalmente uma família. E, para nós, quase dois séculos depois, esses registros permitem reconstruir a comunidade.

A autoridade estava próxima

Ibicaba era propriedade privada. Isso determinava grande parte das relações sociais. A administração controlava o trabalho, as contas, os cafezais e muitos aspectos do cotidiano. Havia administradores, inspetores, feitores, empregados da contabilidade e pessoas responsáveis por intermediar a comunicação com os colonos.

A distância entre proprietário e trabalhador era enorme, mesmo quando ambos viviam dentro da mesma fazenda. Com o tempo, as regras de controle tornaram-se motivo de fortes reclamações. Fontes posteriores mostram necessidade de autorização para determinados deslocamentos e um grau significativo de vigilância sobre a vida dos parceiros. 

É necessário cautela, porém: essas descrições são particularmente bem documentadas para a década de 1850 e não podem ser automaticamente projetadas, sem ressalvas, sobre cada dia de 1847. Ainda assim, revelam a estrutura de poder que se consolidava.

Uma transformação dentro da própria família

Os Fischer não permaneceriam apenas trabalhadores agrícolas. Anton Fischer, filho de Martin, aparece posteriormente ligado à administração e à contabilidade de Ibicaba. Essa informação é especialmente significativa.

A família chegara endividada como parte de uma leva de trabalhadores contratados. Poucos anos depois, um de seus membros passava a ocupar posição dentro da estrutura administrativa da própria fazenda.

Anton provavelmente possuía características valorizadas pela administração: domínio do alemão, conhecimento crescente do português, familiaridade com a comunidade imigrante e capacidade de lidar com registros e contas.

Para uma colônia formada por centenas de germânicos, alguém capaz de transitar entre os dois mundos era extremamente útil. O filho do imigrante começava a tornar-se intermediário. Era um primeiro sinal de mobilidade social.

Ascensão de Anton Fischer
Ascensão de Anton Fischer

As noites

Depois do trabalho, Ibicaba escurecia. Não havia eletricidade. A iluminação doméstica era limitada. As noites eram marcadas por lamparinas, velas e pelo silêncio do campo interrompido por animais e conversas entre vizinhos.

Era provavelmente nesse momento que a Alemanha reaparecia com mais força. Histórias. Canções. Orações. Lembranças. Talvez cartas fossem escritas para parentes que haviam ficado para trás.

Crianças pequenas ouviam falar de lugares que nunca conheceriam. Flonheim começava lentamente a transformar-se de lugar vivido em lugar contado. Para os filhos nascidos no Brasil, a Alemanha seria progressivamente uma memória herdada. Ibicaba, ao contrário, era o presente.

Uma nova vida em Ibicaba

Os primeiros dias e a adaptação à nova terra

Em 16 de junho de 1847, depois de uma jornada que começara muitos meses antes em pequenas localidades dos territórios germânicos, atravessara parte da Europa, alcançara Hamburgo, vencera o Atlântico e continuara pelas difíceis estradas da Província de São Paulo, a viagem finalmente terminava.

Diante dos imigrantes estava a Fazenda Ibicaba. Para Martin Fischer, Katharina e seus filhos, aquele momento representava muito mais do que a chegada a uma propriedade rural. Era a chegada ao lugar em torno do qual haviam sido construídas todas as expectativas da emigração.

Ali trabalhariam. Ali viveriam. Ali teriam de pagar as dívidas contraídas para chegar ao Brasil. E ali começaria efetivamente a história brasileira da família.

Os Fischer faziam parte da grande leva germânica contratada pela Vergueiro & Companhia. Estudos recentes identificam 64 famílias, majoritariamente prussianas, bávaras e renanas, incorporadas à Colônia Senador Vergueiro em 1847. Na fazenda encontraram ainda sete famílias portuguesas remanescentes de uma experiência anterior e uma realidade que provavelmente lhes causou forte impressão: Ibicaba possuía também 215 pessoas escravizadas.

Duas formas de trabalho passariam, portanto, a coexistir dentro da mesma propriedade: a escravidão e a parceria com trabalhadores europeus livres. Era uma experiência social e econômica ainda em construção.

Uma fazenda dentro da fazenda

É importante abandonar a imagem de que os imigrantes simplesmente chegaram à sede de Ibicaba e receberam casas ao redor da residência de Nicolau Vergueiro. A organização espacial era diferente. A colônia germânica constituía praticamente uma pequena povoação dentro da propriedade, separada do núcleo principal da fazenda.

Carlos Perret Gentil visitou Ibicaba poucos anos depois e deixou uma descrição extraordinariamente detalhada. Em 1851, informou que a aldeia dos colonos ficava aproximadamente um quarto de légua distante da sede, sobre uma pequena elevação na encosta do Morro Azul, cercada por cafezais. Naquele momento havia 39 casas construídas segundo um mesmo padrão e distribuídas em ruas retas. No centro havia um grande espaço reservado a um edifício público e um chafariz. 

Mas aquela era Ibicaba quatro anos depois da chegada dos Fischer. Em junho de 1847, a situação era muito mais rudimentar. As fontes indicam que as primeiras famílias receberam pequenas casas sem divisões internas. Cabia aos próprios moradores subdividir, mobiliar e conservar essas habitações. A colônia foi progressivamente tomando a forma de uma pequena vila. Isso ajuda a imaginar o primeiro impacto.

Casa de colonos em Ibicaba
Casa de colonos em Ibicaba

Depois de Flonheim, das cidades europeias, de Hamburgo, do navio, de Santos e das estradas paulistas, a família entrava numa casa extremamente simples no interior do Brasil. Provavelmente havia pouco mobiliário. Objetos trazidos da Alemanha ganhavam enorme importância.

Uma panela, uma ferramenta, uma peça de roupa, um baú ou uma Bíblia não eram apenas utensílios: constituíam parte do mundo anterior que ainda acompanhava aquelas pessoas. O restante precisaria ser construído.

Os primeiros dias

A primeira necessidade era descansar. Depois vinha algo muito mais complicado: entender como funcionava Ibicaba. Onde buscar água? Onde obter comida? Qual era a casa da família? Quem comandava a colônia? Onde ficavam os cafezais? Quais cafeeiros caberiam a cada família? Onde poderiam plantar alimentos? A quem deveriam recorrer quando precisassem de alguma coisa? Como comprar mantimentos? Como seriam registradas as despesas?

E, talvez o problema mais imediato: como perguntar tudo isso sem falar português?

A barreira linguística era enorme. Pesquisas sobre Ibicaba mostram que muitos dos recém-chegados falavam alemão ou diferentes dialetos germânicos e tinham dificuldade para participar das negociações realizadas em português. Isso os tornava dependentes de administradores, intérpretes e intermediários. 

Aprender algumas palavras devia tornar-se rapidamente uma necessidade. Água. Comida. Café. Casa. Dinheiro. Trabalho. Números. Os primeiros rudimentos de português provavelmente foram aprendidos menos em aulas do que na urgência do cotidiano.

Conhecendo a nova casa

O contrato estabelecia que a família receberia moradia e uma quantidade de cafeeiros proporcional à sua capacidade de trabalho. A unidade fundamental do sistema não era simplesmente o indivíduo. Era a família.

Isso fazia enorme diferença. Um casal com vários filhos suficientemente crescidos para trabalhar possuía maior capacidade produtiva do que um casal jovem com crianças pequenas.

A família Fischer era numerosa. Martin e Katharina haviam chegado acompanhados dos filhos. Portanto, aos olhos da administração de Ibicaba, não representavam apenas uma família a ser alojada. Representavam também uma unidade potencial de trabalho.

Martin Fischer tinha cerca de 43 anos quando chegou em Ibicaba. Sua esposa Katharina Stumpf tinha aproximadamente 53 anos. Os filhos eram sete, pela ordem: Anton 24, Johann Jacob 22, Johann Martin 18, Friedrich 15, Heinrich 13, Katharina 10 e Philipp de 4 anos.

Em algum momento dos primeiros dias, um funcionário da colônia precisou mostrar aos Fischer aquilo que passaria a constituir parte essencial de sua vida: os seus cafeeiros. Martin provavelmente conhecia pouco ou nada sobre café. Sua experiência europeia estava ligada a outro ambiente agrícola e, profissionalmente, ao trabalho com pedra. 

Agora precisaria aprender a reconhecer o cafeeiro, compreender seu ciclo, limpar a área ao redor das plantas, participar da colheita e entender o processo pelo qual aquelas pequenas frutas vermelhas acabariam transformadas numa mercadoria exportada para lugares tão distantes quanto a Europa que ele acabara de deixar.

Um mundo de café

O Morro Azul e as terras ao redor da colônia eram progressivamente ocupados por cafezais. Havia uma divisão espacial importante dentro da propriedade. O trabalho dos colonos europeus, organizado por famílias, não funcionava exatamente como o trabalho das turmas de escravizados. Pesquisas sobre a organização de Ibicaba mostram áreas distintas de cultivo e moradia associadas aos diferentes regimes de trabalho. 

Isso não significava ausência de contato. Pelo contrário. Os imigrantes viviam dentro de uma fazenda escravista. Encontravam pessoas escravizadas nos caminhos, instalações, trabalhos agrícolas e serviços. Para aqueles alemães recém-chegados, tratava-se de uma realidade social profundamente diferente daquela que haviam conhecido na Europa.

E havia uma contradição evidente: eles haviam emigrado em busca de melhores condições de vida e liberdade econômica, mas começavam sua experiência brasileira numa propriedade onde centenas de pessoas não eram livres.

Cafezal em Ibicaba
Cafezal em Ibicaba

A terra para comer

Os cafeeiros não resolveriam todas as necessidades. Café produzia renda. Não alimentava uma família. Por isso o sistema permitia que os colonos cultivassem roças de mantimentos. Milho, feijão, mandioca e outros produtos começariam progressivamente a entrar no cotidiano alimentar.

A adaptação não foi apenas econômica. Foi também culinária. Produtos desconhecidos passaram à mesa. Receitas europeias foram adaptadas. Ingredientes brasileiros substituíram ingredientes impossíveis ou caros de encontrar. Pouco a pouco, uma cozinha germânica transplantada para os trópicos começava a mudar.

Martin encontra outra forma de trabalhar

Aqui a história particular de Martin Fischer começa a adquirir uma importância extraordinária. Ele não era apenas agricultor. Martin chegara da Europa identificado profissionalmente como Steinhauer — trabalhador especializado no corte e preparação de pedra. Ibicaba, por sua vez, estava em expansão. Centenas de pessoas precisavam ser alojadas. Casas precisavam ser construídas. Estruturas necessitavam de reparos.

A colônia crescia. E a documentação contábil que chegou até nós traz um indício particularmente importante: Martin recebeu valores relacionados à construção de casas.

Contabilidade Martin Fischer 1848
Contabilidade Martin Fischer 1848

Isso significa que a profissão aprendida na Alemanha não ficou simplesmente para trás. Em algum momento, sua habilidade passou a ser utilizada na nova realidade brasileira. Talvez esteja aí uma das primeiras chaves para compreender a trajetória econômica da família.

Enquanto outros colonos dependiam quase exclusivamente da lavoura, Martin possuía um ofício que poderia gerar renda adicional. A mesma mão que havia trabalhado pedra na região de Flonheim agora ajudava a construir uma colônia no interior paulista.

Uma aldeia começa a nascer

A transformação foi rápida. Quando Perret Gentil visitou Ibicaba em 1851, encontrou uma comunidade muito mais organizada do que aquela de 1847. As casas já formavam ruas. Havia um chafariz. Cafezais cercavam a povoação.

As habitações antigas ainda existiam a alguma distância e algumas famílias aguardavam a conclusão de novas construções. É possível que Martin tenha participado materialmente dessa transformação.

O imigrante chegado em 1847 podia olhar, quatro anos depois, para uma pequena vila que não existia daquela forma quando desembarcara. E talvez reconhecer em algumas paredes o resultado do próprio trabalho.

Aqueles primeiros dias foram, portanto, muito mais do que uma simples adaptação. Representaram a passagem definitiva de emigrantes para colonos. A viagem havia terminado. Agora era necessário aprender a viver.

Panorâmica de Ibicaba
Panorâmica de Ibicaba

Martinho Fischer e Maria Dupre

Martinho Fischer e Maria Dupre, este casal deu origem a uma das linhagens da família Fischer no Brasil.

Retrato Martinho Fischer
Retrato Martinho Fischer

Filho de Anton Fischer e Elizabeth (Izabel) Barth, Martinho Fischer nasceu em 05 de setembro de 1850, na cidade de Constituição, atual Piracicaba no estado de São Paulo. Na mesma cidade ele foi batizado, na igreja católica, Matriz de Santo Antônio, no dia 05 de outubro de 1850. Foram padrinhos Martin Fischer e Catharina Stumpf, seus avós paternos.

Assento de batismos de Martinho Fischer
Assento de batismos de Martinho Fischer

Transcrição: No mesmo dia e igreja batizei e pus os santos olhos no menino Martinho, de idade de um mês, filho de Antonio Fischer e Izabel Barth. Foram padrinhos Martinho Fischer e sua mulher Catharina Fischer.

Por algum motivo que desconhecemos, Martinho Fischer foi rebatizado na mesma igreja Matriz de Piracicaba, 34 anos após seu nascimento. Acreditamos que o novo assento tenha sido necessário para que Martinho pudesse ser padrinho de alguma criança ou de casamento. Naquela época e mesmo hoje, os registros de batismos católicos são obrigatórios para que alguém possa participar de um dos sacramentos da Igreja, como batizar ou ser testemunha de casamento de outra pessoa católica. Então, devido ao mau estado de conservação do primeiro assento de Martinho, ou mesmo por não terem encontrado o registro original, foi necessário refazer o sacramento com a declaração de testemunhas.

Confirmação do batismo de Martinho Fischer em 1884
Confirmação do batismo de Martinho Fischer em 1884

Transcrição: Aos dezesseis de outubro de mil oitocentos e oitenta e quatro, nesta Matriz, em virtude de autorização que me foi concedida por sua Excelência Reverendíssima, em minha presença compareceram Martinho Hilsdorf e Valentim Hebling, pessoas legítimas e por mim conhecidas, por eles me foi informado e sob suas consciências com efeito de verdade, que foi batizado nesta matriz, no ano de mil oitocentos e cinquenta, pelo já falecido vigário José Gomes, o então inocente Martinho, filho legítimo de Anton Fischer e Izabel Fischer Barth. Foram padrinho Martinho Fischer e Maria Magdalena Hilsdorf. Nada mais foi perguntado e para constar lavrei este assento com as testemunhas.

Filha caçula do casal Johann Michael Dupre e Katharina Rosar, Maria Dupre nasceu em 16 de fevereiro de 1851, em Muhl, Neuhütten, Trier-Saarburg, Renânia-Palatinado, na Alemanha. Em 03 de junho de 1862, aos 9 anos de idade, ela emigrou para o Brasil com seus pais e irmãos.

A família Dupre foi contratada pela Vergueiro e Cia, como colonos no regime de parceria. Em 26 de julho de I862 desembarcaram em Santos, São Paulo e de lá foram encaminhados para a Colônia Vergueiro, na Fazenda Ibicaba, em Limeira, São Paulo.

Família Dupre na lista de colonos de Ibicaba em 1862
Família Dupre na lista de colonos de Ibicaba em 1862

Transcrição: Relação dos Colonos vindos de Anvers (Antuérpia) no Patacho Dinamarquês Challenger – Capitão W. Lubbe, entrados neste Porto (Santos), em 26 de julho de 1862, contratados pela Vergueiro e Cia para a Colonia Ibicaba.

Johann Dupre, 50 anos, casado, natural de Muhl, na Prussia, lavrador
Catharina, 50 anos, esposa
Peter, filho, 27 anos, solteiro
Johann, filho, 24 anos, solteiro
Catharina, filha, 20 anos, solteira
Max, filho, 16 anos, solteiro
Johann Georg, 12 anos, solteiro
Maria, 09 anos, solteira

A família Dupre era originária de Muhl, Neuhütten, uma pequena aldeia que tem sua data de criação por volta de 1725/30. Não há clareza total sobre a origem e interpretação do nome do lugar. Localizada numa região de florestas, os moradores viviam principalmente cortando lenha e queimando carvão. Provavelmente, a primeira família residente no local foi a de Dominik Dupre, o ancestral de todos na área com sobrenome Dupre. Como o sobrenome leva a crer, Dupre tem origem na língua francesa e os ancestrais da família de Maria eram originários da Bélgica, Holanda e Luxemburgo, que posteriormente se espalharam pela região da Renânia, que foi ocupada pela França, antes de voltar ao domínio da Alemanha.

Não conseguimos precisar se Martinho e Maria se conheceram na fazenda Ibicaba ou posteriormente, quando as famílias de ambos já haviam deixado a colônia e se estabelecidos em cidades da região como Limeira, Rio Claro e Piracicaba.

Há indícios de que Maria era católica e Martinho protestante, mas a religião diferente não impediu o casamento. O enlace deste casal selou a união da família Fischer com a família Dupre e deu origem a uma das linhagens de Fischer no interior de São Paulo.

Seis anos mais tarde, em 27 de outubro de 1868, na igreja católica, Matriz de Nossa Senhora das Dores, em Limeira, São Paulo, Martinho Fischer e Maria Dupre se casaram, ele com 18 anos e ela com 17 anos.

Casamento de Martinho Fischer e Maria Dupre
Casamento de Martinho Fischer e Maria Dupre

Transcrição: Aos vinte e sete dias de outubro de mil oitocentos e sessenta de oito, nesta matriz, na cidade de Limeira, pelas nove horas da manhã, com provisão do vigário e alvará do juiz municipal, ambos datados de vinte e seis de outubro, perante mim, receberam em matrimônio, por marido e mulher, na minha presença e das testemunhas abaixo assinadas, Martinho, filho de Antonio Fischer e Isabel Fischer, natural e batizado na cidade de Constituição e Maria, fila de João Dupre e de Catharina Dupre, natural e batizada na Alemanha, ambos fregueses desta cidade de Limeira, logo lhes dei as bençãos nupciais… e faço este assento.

O casal teve 7 filhos, são eles:

Izabel Fischer (1869-?)

Catharina Fischer (1870-?)

João Fischer Sobrinho (1873-1918)

Henrique Fischer (1874-1939)

José Fischer (1877-?)

Mathias Fischer (1879-?)

Maximiliano Fischer (1881-?)

Com seus filhos e parentes, o casal viveu na região de Limeira, São Paulo. Na mesma cidade eles também faleceram. Martinho Fischer morreu aos 63 anos, em 05 de agosto de 1913, vítima de hemorragia cerebral. Maria Dupre faleceu aos 92 anos, em 01 de setembro de 1942, em sua residência, na rua Doutor Trajano, nº 445, vítima de artérioesclerose cárdio renal. Ambos foram sepultados no cemitério municipal de Limeira.

Registro de óbito de Martinho Fischer
Registro de óbito de Martinho Fischer
Registro de Óbito de Maria Dupre
Registro de Óbito de Maria Dupre

De Muhl para Ibicaba a união da família Dupre com a família Fischer

Em 03 de junho de 1862 a família Dupre, oriunda de Muhl, Neuhütten, distrito de Trier-Saarburg, na Renânia-Palatinado, na Alemanha, embarcou no porto da Antuérpia, Bélgica, rumo ao Brasil. A bordo do navio patacho dinamarquês Challenger, dirigido pelo capitão Lubbe, Johann Michael Dupre, sua esposa Katharina Rosar e seus 6 filhos viajaram pelo Oceano Atlântico, juntos com outros imigrantes contratados pela Vergueiro e Cia.

Famílias Dupre e Rosar recrutadas em Muhl
Famílias Dupre e Rosar recrutadas em Muhl

Após 53 dias de viagem, eles desembarcaram no Porto de Santos, em 26 de julho de 1862 e, de lá, seguiram rumo a fazenda Ibicaba em Limeira, São Paulo, onde se estabeleceram como colonos e trabalharam no regime de parceria.

Família Dupre na lista de colonos de Ibicaba em 1862
Família Dupre na lista de colonos de Ibicaba em 1862

Johann e Katharina tinham 50 anos de idade cada um e seus filhos, alguns já eram adultos, outros adolescentes e crianças. Peter Dupre, 27 anos; Johann Dupre, 24 anos; Catharina Dupre, 20 anos; Max Dupre, 16 anos; Georg Dupre, 12 anos e Maria Dupre, 9 anos. Alguns estudos apontam que Peter não era filho legítimo, mas por ter migrado junto com a família, foi considerado como filho.

Uma outra filha do casal não emigrou com os pais, Helene Dupre ficou na Alemanha. Com 22 anos na época, ela possivelmente já era noiva de Johann Peter Rosar, com quem se casou em 1863.

Família Dupre
Família Dupre

Filha caçula de Johann e Katharina, Maria Dupre nasceu em 16 de fevereiro de 1851, em Muhl, na Alemanha e se casou em 1868, em Limeira, São Paulo, com Martinho Fischer. Ele filho de Anton Fischer e Elizabeth (Izabel) Barth e neto de Martin Fischer e Catharina Stumpf, também colonos de Ibicaba. Martinho nasceu em 5 de setembro de 1850, em Piracicaba, São Paulo.

Assento de batismos de Martinho Fischer
Assento de batismos de Martinho Fischer

Transcrição: No mesmo dia e igreja batizei e pus os santos olhos no menino Martinho, de idade de um mês, filho de Antonio Fischer e Izabel Barth. Foram padrinhos Martinho Fischer e sua mulher Catharina Fischer.

Não conseguimos precisar se Martinho e Maria se conheceram na fazenda Ibicaba ou posteriormente, quando as famílias de ambos já haviam deixado a colônia e se estabelecidos em cidades da região como Limeira, Rio Claro e Piracicaba.

Há indícios de que Maria era católica e Martinho protestante, mas a religião diferente não impediu o casamento. O enlace deste casal selou a união da família Fischer com a família Dupre e deu origem a uma das linhagens de Fischer no interior de São Paulo.

Casamento de Martinho Fischer e Maria Dupre
Casamento de Martinho Fischer e Maria Dupre

Transcrição: Aos vinte e sete dias de outubro de mil oitocentos e sessenta de oito, nesta matriz, na cidade de Limeira, pelas nove horas da manhã, com provisão do vigário e alvará do juiz municipal, ambos datados de vinte e seis de outubro, perante mim, receberam em matrimônio, por marido e mulher, na minha presença e das testemunhas abaixo assinadas, Martinho, filho de Antonio Fischer e Isabel Fischer, natural e batizado na cidade de Constituição e Maria, fila de João Dupre e de Catharina Dupre, natural e batizada na Alemanha, ambos fregueses desta cidade de Limeira, logo lhes dei as bençãos nupciais… e faço este assento.

Martinho Fischer e Maria Dupre tiveram 7 filhos, são eles:

Izabel Fischer (1869-?)

Catharina Fischer (1870-?)

João Fischer Sobrinho (1873-1918)

Henrique Fischer (1874-1939)

José Fischer (1877-?)

Mathias Fischer (1879-?)

Maximiliano Fischer (1881-?)

Com seus filhos e parentes, o casal viveu na região de Limeira, São Paulo. Ali eles também faleceram, Martinho em 1913, aos 63 anos e Maria em 1942, aos 92 anos.

Registro de óbito de Martinho Fischer
Registro de óbito de Martinho Fischer
Registro de Óbito de Maria Dupre
Registro de Óbito de Maria Dupre

Anton Fischer de colono a diretor da fazenda Ibicaba

Anton Fischer, filho de Martin Fischer e Katharina Stumpf, emigrou da Alemanha para o Brasil, com os pais e irmãos, em 1847. Eles fizeram parte da primeira leva de colonos contratado pela Vergueiro e Cia, no regime de parceria, para trabalharem na fazenda Ibicaba, em Limeira, São Paulo.

Anton, que no Brasil se transformou em Antônio Fischer, nasceu em 27 de abril de 1823, em Flonheim, Alzey-Worms, no atual estado da Renânia-Palatinado, na Alemanha. Ele foi casado com Elizabeth Barth, no Brasil o nome de sua esposa se tornou Izabel, mas não conseguimos precisar, ainda, se ele se casou no Brasil ou se veio casado da Alemanha. O casal teve comprovadamente 6 filhos, todos no Brasil, são eles:

Martinho Fischer (1850-1913)

Antônio Fischer Filho (1852-1909)

Henrique Fischer Sobrinho (1855-?)

João Fischer (1856-?)

Sebastião Fischer (1859-?)

Bárbara Fischer (1862-?)

Depois de trabalhar com seu pai, mãe e irmãos na colônia, Anton Fischer foi diretor da Fazenda Ibicaba. O nome dele é citado em livros que tratam sobre o trabalho dos colonos na fazenda, como o clássico Ibicaba, uma experiência pioneira, de autoria do historiador José Sebastião Witter, que aponta que os diretores de origem alemã Adolph Jonas e Anton Fischer detiveram o poder no período da Revolta dos Colonos entre 1856 e 1857. Nesse período Jonas seria o diretor e Fischer o vice-diretor.

Documentos mostram que Anton Fischer pode ter ascendido na função e passou a ser diretor anos mais tarde e esteve na função de administrar as conta do empreendimento por pelo menos 10 anos, entre 1862 até 1872.

O nome de Anton ou Antônio Fischer aparece no Livro Mestre da colônia Vergueiro, como assinatura nos documentos de contabilidade dos colonos, como no exemplo abaixo:

Contabilidade do colono Jacob Blumer na fazenda Ibicaba
Relatório de contabilidade do colono Jacob Blumer na fazenda Ibicaba

Alguns registros que abordam o período da revolta dos colonos contam que o diretor da fazenda Ibicaba, de sobrenome Fischer, era uma figura pouco apreciada pelos colonos e motivo de reclamações. Como diz esse trecho do livro Viagem às províncias do Rio de Janeiro e São Paulo, de autoria de J.J. Tschudi (pág. 187): “Um dos piores elementos desta categoria miserável foi, sem dúvida, o diretor da fazenda Vergueiro, um certo Fischer, homem sem cultura nem educação, inominávelmente brutal, que veio a ter que se entender com a polícia e a justiça”.

Após o período na fazenda Ibicaba, por volta de 1873, Antônio Fischer, possivelmente viúvo (não conseguimos precisar ainda a data da morte de Elizabeth Barth), se estabeleceu em Rio Claro, ali ele morou na Rua Alegre, nº 05, atual Avenida Cinco e passou a trabalhar como negociante. Ele estreitou laços com a comunidade evangélica local, prova disso é que o nome dele consta como padrinho de casamento e de batismo em alguns registros luteranos da época.

Anton Fischer (administrador de Ibicaba) padrinho de Anton Koch
Anton Fischer (administrador de Ibicaba) padrinho de Anton Koch
Anton Fischer testemunha de casamento de Joahnn Laubenstein e Carolina Grahnert.
Anton Fischer testemunha de casamento de Joahnn Laubenstein e Carolina Grahnert
Anton Fischer padrinho de Anton Escher
Anton Fischer padrinho de Anton Escher

Em 08 de outubro de 1874, em Rio Claro, São Paulo, Anton Fischer, aos 51 anos, se casou, em segunda núpcias, com Paulina Grahnert, nascida em 11 de janeiro de 1846. Ela filha de Karl (Carlos) Grahnert e Margarida Grahnert, imigrantes provenientes da Turíngia, que também foram colonos em Ibicaba e chegaram no Brasil por volta de 1855/56.

Certidão de casamento de Anton e Paulina
Certidão de casamento de Anton e Paulina

Paulina Fischer faleceu pouco tempo depois do casamento, em 15 de novembro de 1875, em Rio Claro, São Paulo, onde foi sepultada no cemitério evangélico. O casal teria morado na Rua da Boa Vista, Nº 05, atual Rua Sete. O casal nao teve filhos.

Assento de óbito de Paulina Fischer, nascida Grahnert
Assento de óbito de Paulina Fischer, nascida Grahnert

O nome de Anton também aparece nos registros de membros/sócios do cemitério evangélico de Rio Claro, em 1879.

Lista de sócios do cemitério evangélico de Rio Claro
Lista de sócios do cemitério evangélico de Rio Claro

Antônio Fischer faleceu em 23 de agosto de 1884, aos 62 anos e foi sepultado no cemitério evangélico em Rio Claro, onde ele teria vivido seus últimos anos de vida. Sua residência teria sido na então Rua Alegre, Nº 5, atual Avenida Cinco.

Assento de óbito de Anton Fischer
Assento de óbito de Anton Fischer

Transcrição: Anton Fischer foi hoje aos 23 de agosto de 1884 – sepultado no Cemitério Evangélico local, natural da Alemanha, com 62 anos de idade.

Martin Fischer um patriarca da família Fischer no Brasil

Indícios mostram que Martin Fischer é um dos patriarcas pioneiros da família Fischer no Brasil e ainda mais se considerarmos apenas o estado de São Paulo. Ele chegou no Brasil em 1 de junho de 1847, como contratado pela Vergueiro e Cia, para trabalhar como colono, em regime de parceria, na Fazenda Ibicaba, em Limeira.

O nome de Martin Fischer consta no registro no livro de abertura da Colônia Vergueiro em agosto de 1846, como chefe de família. Nesta página online há um indivíduo de nome Martin Fischer que emigrou em 1846, mas não se sabe para onde. Na primeira lista de Ibicaba há apenas os nomes dos chefes de família e nada mais, o que dificulta as pesquisas. Já em listas posteriores da Colônia há o local de origem, profissão, estado civil e o nome da esposa e ainda os dos filhos.

Lista original dos imigrantes no livro de abertura da Colônia Vergueiro
Lista original dos imigrantes no livro de abertura da Colônia Vergueiro em 1846

Os registros de emigrantes, na Alemanha daquela época, eram de forma incompleta; geralmente as licenças para saírem do país, assim como os passaportes, eram dos grupos familiares e, até onde sabemos, nem sempre mencionavam o nome das esposas ou dos filhos. Assim como na Alemanha, os registros de imigrantes no Brasil, daquela época, eram precários ou inexistentes.

Segundo o autor José Eduardo Heflinger Jr. em seu livro Ibicaba o berço da imigração europeia de cunho particular (pag. 37, 38, 39 e 40), ele cita que em 1846 o Senador Nicolau de Campos Vergueiro, a pedido do governo imperial do Brasil, tendo em vista o eminente fim da escravidão, empreendeu a busca por imigrantes interessados em virem para o Brasil, iniciando a substituição do trabalho escravo pelo trabalhador livre. O fato da Confederação Germânica na época viver um período de grave crise, com falta de emprego, fome e frequentes conflitos internos e externos, motivava o alemão a ter interesse pela proposta de vida nova na América do Sul, mas segundo o autor, o interesse era maior da classe média urbana e não do pobre camponês, que vivia na roça e tinha medo de enfrentar o desconhecido. Por isso, muitos dos imigrantes que vieram para Ibicaba não eram lavradores, mas sim trabalhadores urbanos como marceneiros, serralheiros, sapateiros, ferreiros, pedreiros (profissão de Martin Fischer), entre outros.

A proposta de trabalho para o imigrante era o regime de parceria, no qual o contratante, no caso a Vergueiro e Cia, custeava a viagem do imigrante e seus familiares, que já saiam da Alemanha contratados, mas teriam que pagar essa dívida depois. Cerca de 450 pessoas, de várias partes da Alemanha, mas principalmente da Renânia e do Holstein, foram recrutadas na Alemanha e reunidos na cidade de Mainz. De lá foram para o Porto de Hamburgo, por onde deixaram a Europa em março de 1847. Ao chegarem no Brasil, em junho de 1847, desembarcaram no Porto de Santos 422 pessoas, sendo que 401 colonos foram encaminhados para a fazenda Ibicaba, onde tinham 34 casa aguardando para abriga-los. Na fazenda foram destinados a eles um pedaço de terra onde deveriam plantar ítens básicos para alimentação como feijão e arroz, no entorno da casa poderiam criar animais como porcos e galinhas. Outros alimentos eram vendidos para o colono numa espécie de armazém que havia dentro da própria fazenda. Cada família recebeu um número de pés de café que deveria cuidar. Parte do valor fruto das colheitas do café ficava para o fazendeiro e parte para o colono. Este dinheiro o colono usava para seu sustento e também para quitar sua dívida com o contratante. 

Depois de alguns meses na colônia, alguns imigrantes já celebravam a vida no Brasil e escreviam cartas para a Alemanha, contando como era a vida no novo país e muitas vezes convidando outros familiares para também emigrarem. Martin Fischer foi um dos colonos que, junto com outros imigrantes, escreveu uma carta para a Alemanha, em 1848, relatando como era a vida em Ibicaba e manifestando contentamento com o regime de parceria.

“um pai de família diligente, trabalhador, econômico e com filhos, quanto mais melhor, principalmente se já podem trabalhar […], pode construir aqui, em poucos anos, uma situação livre e independente”, teria dito Martin Fischer em sua carta.

Martin Fischer
Martin Fischer

Martin Fischer e Katharina Elizabeth Stumpf tiveram sete filhos que emigraram com eles para o Brasil:

Anton Fischer (1823-1884)

Johann Jakob Fischer (1825-?)

Johann Martin Fischer (1829-1912)

Friedrich Fischer (1831-?)

Heinrich Fischer (1834-?)

Katharina Fischer (1837-1892)

Phelipp Fischer (1843-?)

Martin Fischer nasceu em 1804 e sua esposa Katharina Elizabetha Stumpf em 1794. A diferença de 10 anos entre eles e no caso a esposa mais velha que o marido, embora pareça algo estranho, era comum na época.

Quando o casal emigrou com os filhos da Alemanha para o Brasil eles moravam em Flonheim, Alzey-Worms, no atual estado da Renânia-Palatinado, na Alemanha. Ali eles se casaram e tiveram seus filhos, mas não conseguimos confirmar, ainda, se eles são naturais dessa localidade.

Sobre o matrimônio do casal conseguimos encontrar um documento de 22 de maio de 1832, uma espécie de revalidação do casamento. O registro, em alemão, é da igreja de Flonheim.

Casamento Martin Fischer e Catharina Stumpf
Casamento Martin Fischer e Katharina Stumpf

Transcrição e tradução: Após inscrição no registro matrimonial da paróquia civil de Flonheim, de acordo com a certidão do prefeito local, o casamento entre Martin Fischer de Flonheim e Katharina Elisabeth Stumpf de Flonheim, foi celebrado no dia vinte e dois de Maio de 1832 e foi publicamente abençoado pelo pastor protestante de Flonheim, após a proclamação ordinária anterior, hoje no dia vinte de dois de Maio de 1832.

Uma curiosidade sobre Martin Fischer e sua família é que antes de emigrarem da Alemanha para o Brasil, eles tentaram emigrar para os EUA, em 1837, mas por algum motivo ainda desconhecido, eles não se mudaram para a América do Norte e 10 anos depois, em 1847 desembarcaram no Brasil.

Cerca de 10 anos depois do início da Colônia Vergueiro, entre 1856 e 57, aconteceu a revolta dos colonos, liderada por Thomas Davatz, como consta no livro Memórias de um Colono no Brasil. Os revoltados acusavam o regime de parceria de ser injusto e impor aos colonos uma situação de escravidão por dívida. Os colonos descontentes relatavam que com o valor que recebiam da parte que lhes cabia na colheita, mais o alto custo dos produtos adquiridos por eles no armazém da fazenda, era impossível quitarem a dívida com o contratante e ficarem livres para viverem suas vidas onde quisessem. Este fato com grande repercussão na Europa, obrigou o senador Vergueiro a comprovar que a vida dos colonos na fazenda não era tão ruim e para isso precisou demonstrar através de dados, que muitos imigrantes haviam quitado suas dívidas e deixado a colônia, livres para viverem suas vidas nas cidades e alguns deles com dinheiro suficiente para adquirirem propriedades. 

Este foi o caso de Martin Fischer, que é citado na lista enviada pelo Senador Vergueiro, que consta no livro Revolta dos Parceiros de Ibicaba (pág. 62) como um dos colonos que em 1857 já havia deixado a colônia Ibicaba com dinheiro e tinha propriedade. Ou seja, embora alguns colonos pudessem ter enfrentado dificuldade que motivaram a revolta, outros, especialmente aqueles em idade ativa, com saúde e família numerosa, com muitos filhos já em idade para trabalhar, conseguiram quitar suas dívidas com o contratante e estavam livres para viverem suas vidas como quisessem.

Alguns documentos comprovam que Martin Fischer, além de atuar na lavoura de café, fazia trabalhos como pedreiro na construção de casas para outros colonos que chegaram posteriormente na Fazenda Ibicaba. Com essa atividade extra ele era remunerado, o que leva a crer que essa renda contribuiu para que ele conseguisse pagar em poucos anos toda a dívida com a Vergueiro e Cia.

Contabilidade do colono Martin Fischer na Fazenda Ibicaba
Contabilidade do colono Martin Fischer na Fazenda Ibicaba

Não conseguimos precisar a data exata que Martin Fischer deixou a fazenda Ibicaba, mas há indícios de que no início dos anos 1850 ele já não estava mais na colônia e seu filho mais velho Anton Fischer já havia assumido uma função administrativa na colônia, como cita o autor José Sebastião Witter, no livro Ibicaba uma experiência pioneira (pág. 58), quando diz que de 1850 até 1867 os diretores de origem alemã Adolph Jonas e Anton Fischer detiveram o poder.

Mas mesmo com os exemplos bem sucedidos de colonos que pagaram suas dívidas e seguiram suas vidas no Brasil, a campanha contra a imigração pelo regime de parceria causou grande repercussão na Europa, especialmente nos países germânicos, que proibiram em 1857, após a Revolta dos Colonos, a vinda, de maneira legal, de mais imigrantes. Outros grupos de emigrantes deixaram a Alemanha posteriormente a proibição, mas muitos de maneira ilegal, sem a aprovação do governo local. Essa dificuldade maior para os recrutadores, fez com que eles fossem obrigados a buscar outros povos interessados na vinda para o Brasil. Foi então que começou a vinda dos italianos, que no final do século XIX e início do século XX povoaram o Brasil e se tornaram um dos maiores grupos migratórios do país.

Martin ou Martinho Fischer uma confusão inicial

Martinho Fischer e Martin Fischer

Quando iniciamos as pesquisas genealógicas sobre a família Fischer, descobrimos que nosso antepassado mais antigo até então, Henrique Fischer (1874-1939), era natural de Constituição, atual Piracicaba, São Paulo e filho de Martinho Fischer e Maria Dupre.

Este nome, Martinho Fischer, despertou nossa curiosidade quando descobrimos que um dos imigrantes da primeira lista de colonos da Fazenda Ibicaba se chamava Martin Fischer. Pensávamos que Martinho pudesse ser uma forma carinhosa de tratamento no diminutivo para o pai de Henrique.

Martin Fischer é um dos imigrantes recrutados em agosto de 1846 pela Vergueiro e Cia sob o contrato de trabalho no regime de parceria, para integrar o grupo de colonos pioneiros da Fazenda Ibicaba. Ele deixou o porto de Hamburgo, onde hoje é a Alemanha, rumo ao Brasil, em abril de 1847 e, depois de 42 dias de viagem pelo Oceano Atlântico, em 01 de junho, chegou em Santos, São Paulo, junto com os primeiros imigrantes contratados.

Lista original dos imigrantes no livro de abertura da Colônia Vergueiro
Lista original dos imigrantes no livro de abertura da Colônia Vergueiro em 1846
Lista dos imigrantes no livro de abertura da Colônia Vergueiro
Lista dos imigrantes no livro de abertura da Colônia Vergueiro em 1846

Depois de uma cansativa viagem, de Santos até Limeira, no lombo de cavalos e burros, em 16 de junho de 1847, junto com 75 famílias e 364 pessoas, Martin Fischer e sua família enfim chegavam na Fazenda Ibicaba, em Limeira, São Paulo.

Vale ressaltar que nesta lista dos primeiros colonos há apenas os nomes dos chefes de família e nada mais, diferente de listas posteriores da Colônia, que trazem dados como o local de origem, profissão, estado civil, o nome da esposa e ainda os dos filhos. 

Estávamos animados com nossas pesquisas, até descobrirmos que Martinho Fischer, pai de Henrique, nasceu em 1850. Com essa informação, comprovada pelo registro de óbito dele, em 1913, aos 63 anos, em Limeira, São Paulo, descartamos a possibilidade do nosso Martinho, ser o Martin Fischer que chegou em Ibicaba em 1847.

Mas não desistimos, nossas hipóteses levavam a pensar que Martinho pudesse ser filho de Martin. Continuamos as buscas até encontrarmos o assento de batismo de Martinho Fischer nos registros do Family Search.

No documento da Igreja Matriz de Nossa Senhora das Dores consta que Martinho Fischer nasceu em 05 de setembro de 1850 e foi batizado em 05 de outubro do mesmo ano. Ele era filho de Antonio Fischer e Izabel Barth.

Assento de batismos de Martinho Fischer
Assento de batismos de Martinho Fischer

Transcrição: No mesmo dia e igreja batizei e pus os santos olhos no menino Martinho, de idade de um mês, filho de Antonio Fischer e Izabel Barth. Foram padrinhos Martinho Fischer e sua mulher Catharina Fischer.

Este documento mostrou que Martinho não era filho do Martin Fischer de Ibicaba, mas com a informação sobre seu pai Antonio, descobrimos que ele era na verdade neto. Isso porque Antonio Fischer é na verdade Anton Fischer, um dos filhos de Martin.

Um espaço para preservar a memória da família Fischer

Logo Família Fischer

Este website foi criado para reunir informações sobre a família Fischer. Este clã se originou onde hoje é a Alemanha e, ao emigrar para o Brasil, em 1847, se fixou no interior de São Paulo. Tais membros pioneiros se estabeleceram especificamente na Colônia Vergueiro, localizada na Fazenda Ibicaba.

Passado o período como colonos no regime de parceria nesta fazenda, os membros dessa família pioneira, mudaram-se para áreas urbanas. Algumas cidades como Limeira, Piracicaba e Rio Claro foram as primeiras escolhidas. Posteriormente, seus descendentes se espalharam pelo Brasil.

Aqui o leitor encontra um ambiente online com informações e dados sobre genealogia, movimentos migratórios, contexto histórico e aspectos sociológicos. Um panorama geral sobre a família Fischer e outras famílias que se uniram a eles através de matrimônios. Como as famílias: Stumpf, Barth, Dupre e outras, inclusive de origens diversas e não apenas germânicas.

Os conteúdos passam pela origem do sobrenome Fischer e os locais de origem dos membros da família na Europa. Falam um pouco sobre a imigração, as colônias no Brasil, a vida dos imigrantes nas colônias e pequenas cidades. Abordam a formação das famílias e, claro, a árvore genealógica.

Baseado em documentos como assentos de batismo, matrimônio e óbito da igreja católica e protestante, os conteúdos publicados trazem comprovações sobre os membros da árvore e seus descendentes. Além de registros civis e história oral contada por familiares que corroboram para a validade das informações.

Além disso, para a contextualização histórica e sociológica, os textos trazem referências bibliográficas. Importantes obras que tratam sobre os assuntos abordados no website servem como alicerce para a construção dos conteúdos.

Tudo isso ao alcance do clique, para preservar a história da família Fischer. Além de tornar público e, ao acesso de todos, esse conteúdo importante para todos que apreciam a genealogia.