A região de Ibicaba na primeira metade do século XIX antes dos imigrantes chegarem

Onde terminava a estrada e começava uma nova fronteira

Na primeira metade do século XIX, viajar de São Paulo em direção ao interior significava progressivamente abandonar um mundo conhecido. As cidades ficavam para trás. As estradas tornavam-se caminhos. As distâncias entre os povoados aumentavam. Matas, campos, rios e grandes propriedades rurais dominavam a paisagem.

Era nesse interior paulista ainda em transformação que se encontrava uma área conhecida como Ibicaba. Hoje, a Fazenda Ibicaba pertence ao município de Cordeirópolis, no interior do Estado de São Paulo. Na época, Cordeirópolis não existia. Limeira também ainda estava dando seus primeiros passos como núcleo urbano. E Piracicaba era conhecida oficialmente como Vila Nova da Constituição.

Compreender essa sucessão territorial é importante porque o mapa político que conhecemos atualmente pode criar uma impressão completamente equivocada do mundo encontrado pelos primeiros moradores e, posteriormente, pelos imigrantes.

Mapa da região de Ibicaba no século 19
Mapa da região de Ibicaba no século 19

Antes de Cordeirópolis

O município de Cordeirópolis surgiria muito depois dos acontecimentos que interessam à nossa história. Na primeira metade do século XIX, a área da atual Cordeirópolis era essencialmente rural e fazia parte de uma região mais ampla ligada a Limeira.

Também não devemos imaginar Limeira como a cidade atual. No começo daquele século, o território era formado por grandes propriedades, sítios, caminhos e pequenos agrupamentos populacionais. A história administrativa ajuda a compreender a transformação.

Em 1830, foi criada a Freguesia de Nossa Senhora das Dores de Tatuíbi, pertencente ao município da Vila Nova da Constituição, atual Piracicaba. Tatuíbi era um antigo nome associado à região de Limeira. Apenas em 1842, a freguesia foi elevada à categoria de vila com o nome de Limeira.

A partir daí, Limeira passou a possuir autonomia municipal. Em 1844 instalou-se sua Câmara Municipal. Portanto, quando os imigrantes germânicos chegaram à Fazenda Ibicaba, em 1847, o município de Limeira era extremamente jovem. Tinha apenas cinco anos de existência jurídica como vila autônoma. A cidade de Cordeirópolis ainda estava décadas no futuro.

Uma região moldada pelos caminhos

Muito antes da formação de Limeira, aquela parte do interior paulista era atravessada por caminhos que conectavam São Paulo às regiões mais distantes da colônia. Um deles teve importância fundamental. O caminho para Goiás.

Desde o período colonial, expedições, tropeiros, comerciantes e viajantes avançavam pelo interior em direção às áreas mineradoras e às regiões de fronteira. Essas rotas não eram estradas no sentido moderno. Eram caminhos.

Em determinados trechos, pouco mais do que trilhas abertas no terreno. O deslocamento era feito a pé, a cavalo ou acompanhado de tropas de mulas. Carros de boi eram lentos, mas essenciais para transportar cargas pesadas. Durante a estação chuvosa, certos caminhos podiam transformar-se em lama.

Rios precisavam ser atravessados. Pontes eram escassas. Viagens dependiam das condições climáticas e dos animais. Ao redor desses caminhos surgiram pousos, propriedades rurais e pequenos núcleos populacionais. A circulação de pessoas ajudou a ocupar progressivamente o território.

Uma paisagem muito diferente de Flonheim

O contraste com Rheinhessen seria extraordinário. Em Flonheim, praticamente toda a paisagem havia sido modificada pela presença humana durante séculos. Campos cultivados. Vinhedos. Estradas entre aldeias. Casas próximas umas das outras. Igrejas. Pedreiras.

Na região de Limeira, ainda existiam extensas áreas de mata. O clima era tropical e subtropical. A vegetação era completamente diferente. As distâncias eram muito maiores. Propriedades rurais podiam ocupar extensões que pareceriam enormes para um pequeno agricultor ou trabalhador europeu.

Córregos e rios cortavam a paisagem. As terras férteis despertavam o interesse de proprietários que avançavam para o interior. Era uma fronteira agrícola em expansão.

Paisagem da região de Ibicaba
Paisagem da região de Ibicaba no século 19

A sesmaria do Morro Azul

A ocupação econômica da região esteve profundamente relacionada à formação de grandes propriedades. Entre elas destacou-se a sesmaria do Morro Azul. As sesmarias eram concessões de terras utilizadas pela Coroa portuguesa para estimular a ocupação e a produção agrícola.

Grandes extensões acabaram concentradas nas mãos de proprietários com recursos para explorá-las. Nas primeiras décadas do século XIX, a região de Limeira era predominantemente rural e marcada por grandes propriedades formadas a partir dessas concessões.

Parte dessas terras acabaria ligada a um personagem fundamental para nossa história: Nicolau Pereira de Campos Vergueiro.

A agricultura antes do café

Quando pensamos no interior paulista do século XIX, é fácil imaginar imediatamente grandes cafezais. Mas o café não dominou a região desde o início. Antes dele, a cana-de-açúcar possuía enorme importância econômica.

Entre o final do século XVIII e as primeiras décadas do XIX, a produção açucareira avançou pelo chamado quadrilátero do açúcar paulista, que envolvia áreas como Itu, Campinas, Jundiaí e Piracicaba e alcançava as regiões próximas.

Engenhos produziam açúcar. Também produziam aguardente. Havia plantações destinadas ao abastecimento. Milho. Feijão. Mandioca. Arroz. Criação de porcos. Gado.

A agricultura não servia somente ao mercado externo. Uma grande propriedade precisava produzir parte considerável dos alimentos consumidos por seus moradores e trabalhadores. Isso transformava muitas fazendas em pequenos universos econômicos.

Nasce Ibicaba

Em 1817, Nicolau Pereira de Campos Vergueiro estabeleceu a propriedade que se tornaria conhecida como Fazenda Ibicaba. A história preservada pela própria fazenda identifica aquele ano como sua fundação.

Inicialmente, Ibicaba estava ligada principalmente à produção de açúcar e aguardente. Isso é fundamental. Os primeiros trabalhadores de Ibicaba não encontraram extensos cafezais. Encontraram uma propriedade característica da expansão agrícola paulista daquele período. Cana. Engenho. Mata. Roças. Animais. Trabalhadores livres. E pessoas escravizadas. Pouco a pouco, porém, uma nova cultura começou a modificar a propriedade. O café.

O café chega a Ibicaba

Durante as primeiras décadas do século XIX, a cafeicultura avançava pelo Sudeste. No início, o grande centro produtor estava no Vale do Paraíba. Mas a cultura começou a avançar também pelo interior paulista. Ibicaba esteve entre as propriedades pioneiras dessa expansão na região de Limeira.

Há registros que situam o cultivo de café na fazenda por volta de 1828. A escolha se mostraria decisiva. As condições naturais eram favoráveis. Clima. Solo. Disponibilidade de terras. E, principalmente, uma demanda internacional crescente. Europa e Estados Unidos queriam café. O interior paulista começava a perceber que havia ali uma enorme oportunidade econômica.

Uma transformação da paisagem

Produzir café exigia transformar a terra. Primeiro era necessário abrir áreas. Derrubar a vegetação. Preparar o solo. Plantar. Esperar. Um cafezal não produzia imediatamente. Depois vinham os cuidados com as plantas. A colheita. A secagem. O beneficiamento. O armazenamento. O transporte. Cada etapa exigia trabalhadores. 

Conforme os cafezais aumentavam, a própria paisagem mudava. Áreas anteriormente cobertas por mata transformavam-se em fileiras de cafeeiros. Caminhos internos eram abertos. Terreiros eram construídos. Edificações apareciam. A fazenda tornava-se uma verdadeira unidade de produção.

Quem fazia todo esse trabalho?

Aqui encontramos novamente uma realidade que não pode ser separada da história econômica brasileira. A escravidão. A expansão agrícola da região de Limeira foi sustentada durante décadas pelo trabalho de africanos escravizados e seus descendentes.

Eles derrubavam matas. Preparavam terrenos. Plantavam. Colhiam. Transportavam. Trabalhavam nos engenhos. Cuidavam de animais. Construíam. Executavam trabalhos domésticos. Desempenhavam ofícios especializados.

O desenvolvimento econômico da região não pode ser compreendido sem reconhecer essa presença. Ibicaba também era uma propriedade escravista. Isso produziria, alguns anos depois, uma situação particularmente complexa. Trabalhadores europeus livres seriam introduzidos em uma fazenda na qual pessoas escravizadas continuavam trabalhando. Dois sistemas de trabalho passariam a coexistir no mesmo espaço.

Quem vivia na região?

A população era muito diferente daquela encontrada em Flonheim. Não existia uma comunidade socialmente homogênea. A sociedade rural paulista era formada por grupos diversos. Grandes proprietários de terras. Famílias de fazendeiros. Administradores. Comerciantes. Artesãos. Tropeiros. Pequenos agricultores. Agregados. Posseiros. Trabalhadores livres. Libertos. Pessoas escravizadas. Também havia presença indígena na história da ocupação regional, embora a expansão colonial tivesse provocado deslocamento, violência e perda territorial para populações originárias. 

As diferenças sociais eram enormes. No topo estavam grandes proprietários, frequentemente ligados também à política. Na base encontravam-se os escravizados. Entre esses extremos existia uma população livre extremamente diversa.

Como vivia uma família livre pobre?

Nem todos os habitantes livres possuíam grandes fazendas. Muito pelo contrário. Pequenos agricultores e trabalhadores viviam de maneira simples. Uma casa rural podia ser construída com taipa de pilão, pau a pique, madeira e telhas de barro.

O mobiliário era limitado. Mesa. Bancos. Catres ou camas. Baús. Utensílios de cozinha. Ferramentas. A cozinha tinha importância central. O fogo servia para cozinhar e aquecer água. Não havia água encanada. A iluminação noturna era precária. O cotidiano começava cedo. A luz do dia determinava o ritmo das atividades.

O que se comia?

A alimentação cotidiana estava baseada principalmente nos produtos disponíveis na região. Milho. Feijão. Mandioca. Farinha. Arroz. Carne de porco. Toucinho. Carne-seca. Verduras. Frutas.

O milho podia aparecer de diferentes maneiras. A mandioca tinha enorme importância. A farinha acompanhava inúmeras refeições. Porcos eram particularmente úteis porque forneciam carne e gordura.

A caça e a pesca também podiam complementar a alimentação dependendo do lugar e da situação econômica. O café começava progressivamente a fazer parte dos hábitos cotidianos.

A alimentação dos mais ricos era evidentemente mais variada. Produtos importados podiam chegar às casas das elites. Mas para grande parte da população rural, a mesa dependia essencialmente do que a própria região produzia.

Um cotidiano comandado pelo sol

A vida começava cedo. Antes mesmo do nascer do sol, determinadas atividades já podiam estar em andamento. Era necessário alimentar animais. Preparar ferramentas. Acender o fogo. Buscar água. Organizar o trabalho.

Nas grandes propriedades, feitores e administradores distribuíam tarefas. Nos períodos de colheita, o ritmo se intensificava. Não existiam máquinas capazes de realizar grande parte dos trabalhos. A força humana e animal movimentava a economia.

O som cotidiano de uma propriedade rural podia incluir machados derrubando árvores, enxadas atingindo o solo, carros de boi rangendo pelos caminhos, animais, engenhos e vozes de trabalhadores. Era um mundo fisicamente exaustivo.

O transporte

Para o café tornar-se riqueza, havia um enorme problema: como levá-lo até o porto? Não existiam ferrovias na região na década de 1840. O primeiro trecho ferroviário brasileiro seria inaugurado somente em 1854, no Rio de Janeiro. No interior paulista, a ferrovia chegaria ainda mais tarde.

Portanto, praticamente tudo dependia de animais. As tropas de mulas eram essenciais. Cargas eram organizadas e conduzidas por tropeiros através de longas distâncias. Carros de boi transportavam materiais mais pesados.

A viagem até Santos era lenta. O café produzido no interior precisava vencer serras e caminhos difíceis antes de alcançar o porto. Depois atravessava o Atlântico.

A religião

A religião oficial do Império era o catolicismo. Na região de Limeira, como em grande parte do Brasil, a Igreja Católica ocupava posição central na organização social. A criação de uma freguesia estava diretamente relacionada à existência de uma comunidade religiosa estruturada.

A própria denominação original — Nossa Senhora das Dores de Tatuíbi — demonstra essa ligação. A igreja não servia apenas à fé. Ela ajudava a organizar a vida social. Batismos. Casamentos. Enterros. Festas religiosas. Procissões. Dias santos.

Os registros paroquiais eram fundamentais porque o registro civil brasileiro ainda não funcionava como atualmente. Para os genealogistas, esses livros religiosos constituem hoje algumas das fontes mais importantes sobre a população daquele período.

As festas

A vida não era apenas trabalho. Festas religiosas constituíam momentos importantes de sociabilidade. Procissões. Festas de santos. Casamentos. Batizados. Encontros familiares. Música e dança também faziam parte da cultura popular. Em comunidades rurais dispersas, esses acontecimentos eram oportunidades para encontrar pessoas que viviam a quilômetros de distância. A igreja, a venda e os caminhos funcionavam como pontos de encontro. As notícias circulavam de boca em boca.

Educação

As oportunidades educacionais eram limitadas. Havia iniciativas de instrução elementar, mas a realidade rural tornava o acesso difícil. Distâncias. Falta de professores. Necessidade do trabalho infantil. Pobreza. Tudo contribuía para uma escolarização irregular.

Crianças aprendiam muito dentro da própria família. Os meninos acompanhavam adultos nas atividades agrícolas e profissionais. Meninas participavam das tarefas domésticas, da preparação de alimentos, dos cuidados com crianças menores e também de trabalhos agrícolas.

Assim como em Flonheim, a infância terminava cedo. Mas a disponibilidade de escolas e a tradição de alfabetização eram bastante diferentes.

Limeira começa a surgir

Enquanto as grandes propriedades se expandiam, um núcleo urbano começava a ganhar importância. A freguesia de Nossa Senhora das Dores de Tatuíbi foi oficialmente criada em 9 de dezembro de 1830, subordinada à Vila Nova da Constituição.  A população utilizava cada vez mais o nome Limeira.

A origem desse nome é cercada por tradição local envolvendo um rancho, uma limeira e um frade, embora narrativas desse tipo devam ser tratadas como memória histórica e não necessariamente como fato documental comprovado.

O crescimento econômico da região aumentou a importância do povoado. Fazendeiros precisavam de comércio. Serviços. Artesãos. Autoridades. Igrejas. Estradas. A área urbana crescia como consequência da riqueza produzida no campo.

1842: nasce a Vila de Limeira

Em 8 de março de 1842, uma lei provincial elevou Limeira à categoria de vila. Esse acontecimento tinha significado administrativo importante. Limeira deixava de depender municipalmente da Vila Nova da Constituição. Mas a instalação efetiva das instituições municipais ainda demoraria.

Em 22 de julho de 1844, tomaram posse os primeiros vereadores da Câmara Municipal de Limeira. A partir daquele momento, a região possuía sua própria administração municipal. Portanto, quando os imigrantes alemães desembarcariam em Ibicaba apenas três anos depois, encontrariam uma vila recém-organizada.

As figuras importantes da região

A sociedade local era profundamente influenciada pelos grandes proprietários rurais. Entre eles, nenhum personagem seria mais importante para nossa história do que Nicolau Pereira de Campos Vergueiro. Nascido em Portugal em 1778, Vergueiro chegou ao Brasil no início do século XIX. Formado em Direito, construiu uma carreira que combinava propriedade rural, negócios e política.

Foi deputado. Senador. Ministro. Participou das grandes discussões políticas do Império. Participou da Regência Trina Provisória em nome de Dom Pedro II, ainda menor de idade. E simultaneamente investiu na expansão agrícola paulista. Ibicaba fazia parte desse projeto. 

Vergueiro representa perfeitamente um tipo de personagem característico do Brasil imperial: o grande proprietário cuja influência ultrapassava os limites da fazenda e chegava ao centro do poder político.

Senador Nicolau Vergueiro
Senador Nicolau Vergueiro

Nicolau Vergueiro

Para os habitantes da região, Vergueiro não era simplesmente um fazendeiro. Era uma figura nacional. Participara da política desde o processo de Independência e ocupou importantes cargos no Império. Sua posição permitia acesso a redes políticas, comerciais e financeiras que um proprietário comum não possuía.

Isso ajuda a explicar por que Ibicaba se tornaria palco de experiências agrícolas e trabalhistas incomuns. Vergueiro estava disposto a testar novas soluções. Novas culturas. Novos equipamentos. E, principalmente, uma nova forma de conseguir trabalhadores.

Luís Antônio de Souza

Outro personagem importante nos primeiros tempos de Ibicaba foi o brigadeiro Luís Antônio de Souza. Vergueiro constituiu com ele uma sociedade para exploração de propriedades rurais.

Luís Antônio estava entre os grandes homens de negócios de São Paulo e fazia parte de uma elite que acumulava riqueza por meio de comércio, terras, crédito e agricultura.

A parceria ajuda a mostrar que a expansão agrícola do interior não era simplesmente resultado de pequenos agricultores avançando espontaneamente sobre novas terras. Havia capital. Investimento. Redes comerciais. E grandes interesses econômicos.

As famílias locais

Ao lado dos grandes personagens políticos havia dezenas de famílias cuja importância era regional. Proprietários rurais. Comerciantes. Religiosos. Funcionários públicos. Militares. Administradores. Alguns nomes apareceriam repetidamente nos registros de batismo, casamento, propriedade e política.

Para nossa pesquisa genealógica, essas pessoas serão importantes porque poderiam surgir como testemunhas, padrinhos, empregadores, vizinhos ou autoridades nos documentos dos imigrantes. A história familiar raramente acontece isoladamente. Uma certidão de batismo pode revelar uma rede social inteira.

Ibicaba se transforma

Durante as décadas de 1820 e 1830, Ibicaba acompanhou a transformação econômica da região. O café ganhou espaço. A propriedade cresceu. A demanda por trabalhadores aumentou. Mas o mundo também começava a mudar.

A Inglaterra pressionava o Brasil para acabar com o tráfico atlântico de africanos escravizados. O debate sobre o futuro da mão de obra tornava-se cada vez mais importante. Vergueiro começou a procurar alternativas.

Em 1840, Ibicaba recebeu uma primeira experiência com famílias portuguesas do Minho. Não era ainda a grande experiência migratória que tornaria a fazenda famosa. Mas alguma coisa estava começando.

1842 e a política chegam à fazenda

O interior paulista também seria atingido pelas disputas políticas do Império. A Revolução Liberal de 1842 envolveu São Paulo e Minas Gerais. Vergueiro participou do movimento. Sua posição política provocou consequências pessoais e também atingiu os projetos da fazenda.

A experiência com os primeiros colonos portugueses acabou prejudicada pelo contexto político e pela ausência temporária de Vergueiro. Mais uma vez, a grande História entrava pela porteira de Ibicaba.

Vergueiro & Companhia

Em 1846, a estratégia foi reorganizada. Vergueiro estabeleceu com seus filhos uma empresa que teria papel fundamental no processo de imigração: Vergueiro & Cia.

Ela não se limitaria à administração agrícola. Atuaria também no recrutamento e transporte de imigrantes europeus. Ibicaba começava a transformar-se em laboratório de uma nova experiência de trabalho.

Em vez de depender exclusivamente de pessoas escravizadas, a fazenda passaria a incorporar famílias europeias. Não como proprietárias das terras. Mas como trabalhadores vinculados a contratos. Nascia o sistema que ficaria conhecido como parceria.

Ibicaba às vésperas de 1847

Imagine a fazenda naquele momento. Era uma grande propriedade rural. Cafezais avançavam pela paisagem. Pessoas escravizadas trabalhavam diariamente. Animais transportavam cargas. Carros de boi cruzavam os caminhos.

Construções destinadas à produção, administração e moradia ocupavam diferentes pontos da propriedade. Não havia eletricidade. Não havia telefone. Não havia ferrovia. As notícias viajavam na velocidade de cavalos e navios. 

Limeira era uma pequena vila recém-emancipada. Campinas era um importante centro regional. São Paulo ainda estava muito distante de se tornar a gigantesca metrópole atual. Santos era a conexão com o mundo exterior.

E, do outro lado do Atlântico, agentes ligados à Vergueiro & Companhia procuravam famílias dispostas a atravessar o oceano.

Linha do tempo região de Ibicaba
Linha do tempo região de Ibicaba

Dois mundos prestes a se encontrar

Agora podemos colocar lado a lado os dois lugares apresentados nos capítulos anteriores. Flonheim. Uma pequena comunidade europeia com aproximadamente 1.500 habitantes. Vinhedos. Pedreiras. Casas próximas. Uma população majoritariamente protestante. Séculos de ocupação. Pouca terra disponível. E trabalhadores procurando oportunidades.

Do outro lado: Ibicaba. Uma grande propriedade agrícola em uma região paulista em expansão. Matas sendo transformadas em lavouras. Cafezais crescendo. População dispersa. Catolicismo oficial. Escravidão. Abundância aparente de terras. E fazendeiros procurando trabalhadores.

Em um lugar havia trabalhadores procurando terra e oportunidades. No outro havia proprietários procurando braços. Entre os dois existiam aproximadamente dez mil quilômetros de distância e um oceano.

Foi essa combinação que aproximou mundos aparentemente sem qualquer relação. Em 1846, os preparativos começaram. Agentes procuraram famílias. Contratos foram apresentados. Promessas foram feitas. Nomes começaram a aparecer em listas.

Entre eles estava um homem de quarenta anos, trabalhador especializado em cortar pedra, que dez anos antes já havia tentado deixar a Alemanha. Martin Fischer. 

Desta vez, sua decisão seria definitiva. A próxima etapa de sua vida começaria não em Flonheim nem em Ibicaba. Começaria em uma estrada. Depois em um porto. E finalmente dentro de um navio que atravessaria o Atlântico.

Lista de abertura da colônia Vergueiro
Lista de abertura da colônia Vergueiro em 1846

A fazenda Ibicaba

A Fazenda Ibicaba, localizada no município de Cordeirópolis, no estado de São Paulo, Brasil, tem uma história rica e significativa, especialmente no contexto da imigração europeia para o Brasil. Fundada em 1826 por Nicolau Pereira de Campos Vergueiro, Ibicaba tornou-se um modelo influente no desenvolvimento da agricultura no Brasil, particularmente na introdução do cultivo do café.

Nicolau Pereira de Campos Vergueiro
Nicolau Pereira de Campos Vergueiro

Início e Desenvolvimento

Inicialmente, a Fazenda Ibicaba foi estabelecida para o cultivo de cana-de-açúcar e a produção de açúcar e álcool. No entanto, com a chegada de imigrantes europeus após 1840, especialmente portugueses e depois alemães e suíços, a fazenda começou a diversificar suas culturas.

Imigração e Sistema de Parceria

Em meados do século XIX, Nicolau Vergueiro implementou um sistema pioneiro de parceria na Fazenda Ibicaba, que se tornou um dos primeiros e mais notórios projetos de colonização por imigrantes na história do Brasil. Sob este sistema, os imigrantes não recebiam salários fixos; em vez disso, recebiam uma parcela dos lucros da produção agrícola. Este modelo visava a incentivar os imigrantes a aumentar a produtividade, já que o seu ganho estava diretamente relacionado ao sucesso das colheitas.

Conflitos e Resultados

Apesar das intenções iniciais, o sistema de parceria não funcionou tão bem quanto esperado e resultou em várias dificuldades e conflitos. Muitos imigrantes se encontraram em condições de trabalho difíceis e dívidas crescentes devido aos custos de vida e materiais fornecidos pela administração da fazenda. Isso culminou em revoltas e em um crescente descontentamento que foi crucial para o fim do sistema de parceria não apenas em Ibicaba, mas em outras fazendas no Brasil.

Legado

A Fazenda Ibicaba desempenhou um papel central na história da imigração e do desenvolvimento agrícola no Brasil. Ela foi um dos berços do cultivo do café em São Paulo, cultura que viria a dominar a economia brasileira no final do século XIX e início do século XX. Além disso, as experiências vividas pelos imigrantes em Ibicaba contribuíram para mudanças nas políticas de imigração e trabalho no Brasil.

Hoje, a Fazenda Ibicaba é reconhecida como parte importante do patrimônio histórico e cultural, relacionada com a história da imigração europeia para o Brasil e o desenvolvimento do interior paulista.

Martinho Fischer e Maria Dupre

Martinho Fischer e Maria Dupre, este casal deu origem a uma das linhagens da família Fischer no Brasil.

Retrato Martinho Fischer
Retrato Martinho Fischer

Filho de Anton Fischer e Elizabeth (Izabel) Barth, Martinho Fischer nasceu em 05 de setembro de 1850, na cidade de Constituição, atual Piracicaba no estado de São Paulo. Na mesma cidade ele foi batizado, na igreja católica, Matriz de Santo Antônio, no dia 05 de outubro de 1850. Foram padrinhos Martin Fischer e Catharina Stumpf, seus avós paternos.

Assento de batismos de Martinho Fischer
Assento de batismos de Martinho Fischer

Transcrição: No mesmo dia e igreja batizei e pus os santos olhos no menino Martinho, de idade de um mês, filho de Antonio Fischer e Izabel Barth. Foram padrinhos Martinho Fischer e sua mulher Catharina Fischer.

Por algum motivo que desconhecemos, Martinho Fischer foi rebatizado na mesma igreja Matriz de Piracicaba, 34 anos após seu nascimento. Acreditamos que o novo assento tenha sido necessário para que Martinho pudesse ser padrinho de alguma criança ou de casamento. Naquela época e mesmo hoje, os registros de batismos católicos são obrigatórios para que alguém possa participar de um dos sacramentos da Igreja, como batizar ou ser testemunha de casamento de outra pessoa católica. Então, devido ao mau estado de conservação do primeiro assento de Martinho, ou mesmo por não terem encontrado o registro original, foi necessário refazer o sacramento com a declaração de testemunhas.

Confirmação do batismo de Martinho Fischer em 1884
Confirmação do batismo de Martinho Fischer em 1884

Transcrição: Aos dezesseis de outubro de mil oitocentos e oitenta e quatro, nesta Matriz, em virtude de autorização que me foi concedida por sua Excelência Reverendíssima, em minha presença compareceram Martinho Hilsdorf e Valentim Hebling, pessoas legítimas e por mim conhecidas, por eles me foi informado e sob suas consciências com efeito de verdade, que foi batizado nesta matriz, no ano de mil oitocentos e cinquenta, pelo já falecido vigário José Gomes, o então inocente Martinho, filho legítimo de Anton Fischer e Izabel Fischer Barth. Foram padrinho Martinho Fischer e Maria Magdalena Hilsdorf. Nada mais foi perguntado e para constar lavrei este assento com as testemunhas.

Filha caçula do casal Johann Michael Dupre e Katharina Rosar, Maria Dupre nasceu em 16 de fevereiro de 1851, em Muhl, Neuhütten, Trier-Saarburg, Renânia-Palatinado, na Alemanha. Em 03 de junho de 1862, aos 9 anos de idade, ela emigrou para o Brasil com seus pais e irmãos.

A família Dupre foi contratada pela Vergueiro e Cia, como colonos no regime de parceria. Em 26 de julho de I862 desembarcaram em Santos, São Paulo e de lá foram encaminhados para a Colônia Vergueiro, na Fazenda Ibicaba, em Limeira, São Paulo.

Família Dupre na lista de colonos de Ibicaba em 1862
Família Dupre na lista de colonos de Ibicaba em 1862

Transcrição: Relação dos Colonos vindos de Anvers (Antuérpia) no Patacho Dinamarquês Challenger – Capitão W. Lubbe, entrados neste Porto (Santos), em 26 de julho de 1862, contratados pela Vergueiro e Cia para a Colonia Ibicaba.

Johann Dupre, 50 anos, casado, natural de Muhl, na Prussia, lavrador
Catharina, 50 anos, esposa
Peter, filho, 27 anos, solteiro
Johann, filho, 24 anos, solteiro
Catharina, filha, 20 anos, solteira
Max, filho, 16 anos, solteiro
Johann Georg, 12 anos, solteiro
Maria, 09 anos, solteira

A família Dupre era originária de Muhl, Neuhütten, uma pequena aldeia que tem sua data de criação por volta de 1725/30. Não há clareza total sobre a origem e interpretação do nome do lugar. Localizada numa região de florestas, os moradores viviam principalmente cortando lenha e queimando carvão. Provavelmente, a primeira família residente no local foi a de Dominik Dupre, o ancestral de todos na área com sobrenome Dupre. Como o sobrenome leva a crer, Dupre tem origem na língua francesa e os ancestrais da família de Maria eram originários da Bélgica, Holanda e Luxemburgo, que posteriormente se espalharam pela região da Renânia, que foi ocupada pela França, antes de voltar ao domínio da Alemanha.

Não conseguimos precisar se Martinho e Maria se conheceram na fazenda Ibicaba ou posteriormente, quando as famílias de ambos já haviam deixado a colônia e se estabelecidos em cidades da região como Limeira, Rio Claro e Piracicaba.

Há indícios de que Maria era católica e Martinho protestante, mas a religião diferente não impediu o casamento. O enlace deste casal selou a união da família Fischer com a família Dupre e deu origem a uma das linhagens de Fischer no interior de São Paulo.

Seis anos mais tarde, em 27 de outubro de 1868, na igreja católica, Matriz de Nossa Senhora das Dores, em Limeira, São Paulo, Martinho Fischer e Maria Dupre se casaram, ele com 18 anos e ela com 17 anos.

Casamento de Martinho Fischer e Maria Dupre
Casamento de Martinho Fischer e Maria Dupre

Transcrição: Aos vinte e sete dias de outubro de mil oitocentos e sessenta de oito, nesta matriz, na cidade de Limeira, pelas nove horas da manhã, com provisão do vigário e alvará do juiz municipal, ambos datados de vinte e seis de outubro, perante mim, receberam em matrimônio, por marido e mulher, na minha presença e das testemunhas abaixo assinadas, Martinho, filho de Antonio Fischer e Isabel Fischer, natural e batizado na cidade de Constituição e Maria, fila de João Dupre e de Catharina Dupre, natural e batizada na Alemanha, ambos fregueses desta cidade de Limeira, logo lhes dei as bençãos nupciais… e faço este assento.

O casal teve 7 filhos, são eles:

Izabel Fischer (1869-?)

Catharina Fischer (1870-?)

João Fischer Sobrinho (1873-1918)

Henrique Fischer (1874-1939)

José Fischer (1877-?)

Mathias Fischer (1879-?)

Maximiliano Fischer (1881-?)

Com seus filhos e parentes, o casal viveu na região de Limeira, São Paulo. Na mesma cidade eles também faleceram. Martinho Fischer morreu aos 63 anos, em 05 de agosto de 1913, vítima de hemorragia cerebral. Maria Dupre faleceu aos 92 anos, em 01 de setembro de 1942, em sua residência, na rua Doutor Trajano, nº 445, vítima de artérioesclerose cárdio renal. Ambos foram sepultados no cemitério municipal de Limeira.

Registro de óbito de Martinho Fischer
Registro de óbito de Martinho Fischer
Registro de Óbito de Maria Dupre
Registro de Óbito de Maria Dupre

De Muhl para Ibicaba a união da família Dupre com a família Fischer

Em 03 de junho de 1862 a família Dupre, oriunda de Muhl, Neuhütten, distrito de Trier-Saarburg, na Renânia-Palatinado, na Alemanha, embarcou no porto da Antuérpia, Bélgica, rumo ao Brasil. A bordo do navio patacho dinamarquês Challenger, dirigido pelo capitão Lubbe, Johann Michael Dupre, sua esposa Katharina Rosar e seus 6 filhos viajaram pelo Oceano Atlântico, juntos com outros imigrantes contratados pela Vergueiro e Cia.

Famílias Dupre e Rosar recrutadas em Muhl
Famílias Dupre e Rosar recrutadas em Muhl

Após 53 dias de viagem, eles desembarcaram no Porto de Santos, em 26 de julho de 1862 e, de lá, seguiram rumo a fazenda Ibicaba em Limeira, São Paulo, onde se estabeleceram como colonos e trabalharam no regime de parceria.

Família Dupre na lista de colonos de Ibicaba em 1862
Família Dupre na lista de colonos de Ibicaba em 1862

Johann e Katharina tinham 50 anos de idade cada um e seus filhos, alguns já eram adultos, outros adolescentes e crianças. Peter Dupre, 27 anos; Johann Dupre, 24 anos; Catharina Dupre, 20 anos; Max Dupre, 16 anos; Georg Dupre, 12 anos e Maria Dupre, 9 anos. Alguns estudos apontam que Peter não era filho legítimo, mas por ter migrado junto com a família, foi considerado como filho.

Uma outra filha do casal não emigrou com os pais, Helene Dupre ficou na Alemanha. Com 22 anos na época, ela possivelmente já era noiva de Johann Peter Rosar, com quem se casou em 1863.

Família Dupre
Família Dupre

Filha caçula de Johann e Katharina, Maria Dupre nasceu em 16 de fevereiro de 1851, em Muhl, na Alemanha e se casou em 1868, em Limeira, São Paulo, com Martinho Fischer. Ele filho de Anton Fischer e Elizabeth (Izabel) Barth e neto de Martin Fischer e Catharina Stumpf, também colonos de Ibicaba. Martinho nasceu em 5 de setembro de 1850, em Piracicaba, São Paulo.

Assento de batismos de Martinho Fischer
Assento de batismos de Martinho Fischer

Transcrição: No mesmo dia e igreja batizei e pus os santos olhos no menino Martinho, de idade de um mês, filho de Antonio Fischer e Izabel Barth. Foram padrinhos Martinho Fischer e sua mulher Catharina Fischer.

Não conseguimos precisar se Martinho e Maria se conheceram na fazenda Ibicaba ou posteriormente, quando as famílias de ambos já haviam deixado a colônia e se estabelecidos em cidades da região como Limeira, Rio Claro e Piracicaba.

Há indícios de que Maria era católica e Martinho protestante, mas a religião diferente não impediu o casamento. O enlace deste casal selou a união da família Fischer com a família Dupre e deu origem a uma das linhagens de Fischer no interior de São Paulo.

Casamento de Martinho Fischer e Maria Dupre
Casamento de Martinho Fischer e Maria Dupre

Transcrição: Aos vinte e sete dias de outubro de mil oitocentos e sessenta de oito, nesta matriz, na cidade de Limeira, pelas nove horas da manhã, com provisão do vigário e alvará do juiz municipal, ambos datados de vinte e seis de outubro, perante mim, receberam em matrimônio, por marido e mulher, na minha presença e das testemunhas abaixo assinadas, Martinho, filho de Antonio Fischer e Isabel Fischer, natural e batizado na cidade de Constituição e Maria, fila de João Dupre e de Catharina Dupre, natural e batizada na Alemanha, ambos fregueses desta cidade de Limeira, logo lhes dei as bençãos nupciais… e faço este assento.

Martinho Fischer e Maria Dupre tiveram 7 filhos, são eles:

Izabel Fischer (1869-?)

Catharina Fischer (1870-?)

João Fischer Sobrinho (1873-1918)

Henrique Fischer (1874-1939)

José Fischer (1877-?)

Mathias Fischer (1879-?)

Maximiliano Fischer (1881-?)

Com seus filhos e parentes, o casal viveu na região de Limeira, São Paulo. Ali eles também faleceram, Martinho em 1913, aos 63 anos e Maria em 1942, aos 92 anos.

Registro de óbito de Martinho Fischer
Registro de óbito de Martinho Fischer
Registro de Óbito de Maria Dupre
Registro de Óbito de Maria Dupre

Anton Fischer de colono a diretor da fazenda Ibicaba

Anton Fischer, filho de Martin Fischer e Katharina Stumpf, emigrou da Alemanha para o Brasil, com os pais e irmãos, em 1847. Eles fizeram parte da primeira leva de colonos contratado pela Vergueiro e Cia, no regime de parceria, para trabalharem na fazenda Ibicaba, em Limeira, São Paulo.

Anton, que no Brasil se transformou em Antônio Fischer, nasceu em 27 de abril de 1823, em Flonheim, Alzey-Worms, no atual estado da Renânia-Palatinado, na Alemanha. Ele foi casado com Elizabeth Barth, no Brasil o nome de sua esposa se tornou Izabel, mas não conseguimos precisar, ainda, se ele se casou no Brasil ou se veio casado da Alemanha. O casal teve comprovadamente 6 filhos, todos no Brasil, são eles:

Martinho Fischer (1850-1913)

Antônio Fischer Filho (1852-1909)

Henrique Fischer Sobrinho (1855-?)

João Fischer (1856-?)

Sebastião Fischer (1859-?)

Bárbara Fischer (1862-?)

Depois de trabalhar com seu pai, mãe e irmãos na colônia, Anton Fischer foi diretor da Fazenda Ibicaba. O nome dele é citado em livros que tratam sobre o trabalho dos colonos na fazenda, como o clássico Ibicaba, uma experiência pioneira, de autoria do historiador José Sebastião Witter, que aponta que os diretores de origem alemã Adolph Jonas e Anton Fischer detiveram o poder no período da Revolta dos Colonos entre 1856 e 1857. Nesse período Jonas seria o diretor e Fischer o vice-diretor.

Documentos mostram que Anton Fischer pode ter ascendido na função e passou a ser diretor anos mais tarde e esteve na função de administrar as conta do empreendimento por pelo menos 10 anos, entre 1862 até 1872.

O nome de Anton ou Antônio Fischer aparece no Livro Mestre da colônia Vergueiro, como assinatura nos documentos de contabilidade dos colonos, como no exemplo abaixo:

Contabilidade do colono Jacob Blumer na fazenda Ibicaba
Relatório de contabilidade do colono Jacob Blumer na fazenda Ibicaba

Alguns registros que abordam o período da revolta dos colonos contam que o diretor da fazenda Ibicaba, de sobrenome Fischer, era uma figura pouco apreciada pelos colonos e motivo de reclamações. Como diz esse trecho do livro Viagem às províncias do Rio de Janeiro e São Paulo, de autoria de J.J. Tschudi (pág. 187): “Um dos piores elementos desta categoria miserável foi, sem dúvida, o diretor da fazenda Vergueiro, um certo Fischer, homem sem cultura nem educação, inominávelmente brutal, que veio a ter que se entender com a polícia e a justiça”.

Após o período na fazenda Ibicaba, por volta de 1873, Antônio Fischer, possivelmente viúvo (não conseguimos precisar ainda a data da morte de Elizabeth Barth), se estabeleceu em Rio Claro, ali ele morou na Rua Alegre, nº 05, atual Avenida Cinco e passou a trabalhar como negociante. Ele estreitou laços com a comunidade evangélica local, prova disso é que o nome dele consta como padrinho de casamento e de batismo em alguns registros luteranos da época.

Anton Fischer (administrador de Ibicaba) padrinho de Anton Koch
Anton Fischer (administrador de Ibicaba) padrinho de Anton Koch
Anton Fischer testemunha de casamento de Joahnn Laubenstein e Carolina Grahnert.
Anton Fischer testemunha de casamento de Joahnn Laubenstein e Carolina Grahnert
Anton Fischer padrinho de Anton Escher
Anton Fischer padrinho de Anton Escher

Em 08 de outubro de 1874, em Rio Claro, São Paulo, Anton Fischer, aos 51 anos, se casou, em segunda núpcias, com Paulina Grahnert, nascida em 11 de janeiro de 1846. Ela filha de Karl (Carlos) Grahnert e Margarida Grahnert, imigrantes provenientes da Turíngia, que também foram colonos em Ibicaba e chegaram no Brasil por volta de 1855/56.

Certidão de casamento de Anton e Paulina
Certidão de casamento de Anton e Paulina

Paulina Fischer faleceu pouco tempo depois do casamento, em 15 de novembro de 1875, em Rio Claro, São Paulo, onde foi sepultada no cemitério evangélico. O casal teria morado na Rua da Boa Vista, Nº 05, atual Rua Sete. O casal nao teve filhos.

Assento de óbito de Paulina Fischer, nascida Grahnert
Assento de óbito de Paulina Fischer, nascida Grahnert

O nome de Anton também aparece nos registros de membros/sócios do cemitério evangélico de Rio Claro, em 1879.

Lista de sócios do cemitério evangélico de Rio Claro
Lista de sócios do cemitério evangélico de Rio Claro

Antônio Fischer faleceu em 23 de agosto de 1884, aos 62 anos e foi sepultado no cemitério evangélico em Rio Claro, onde ele teria vivido seus últimos anos de vida. Sua residência teria sido na então Rua Alegre, Nº 5, atual Avenida Cinco.

Assento de óbito de Anton Fischer
Assento de óbito de Anton Fischer

Transcrição: Anton Fischer foi hoje aos 23 de agosto de 1884 – sepultado no Cemitério Evangélico local, natural da Alemanha, com 62 anos de idade.

Martin Fischer um patriarca da família Fischer no Brasil

Indícios mostram que Martin Fischer é um dos patriarcas pioneiros da família Fischer no Brasil e ainda mais se considerarmos apenas o estado de São Paulo. Ele chegou no Brasil em 1 de junho de 1847, como contratado pela Vergueiro e Cia, para trabalhar como colono, em regime de parceria, na Fazenda Ibicaba, em Limeira.

O nome de Martin Fischer consta no registro no livro de abertura da Colônia Vergueiro em agosto de 1846, como chefe de família. Nesta página online há um indivíduo de nome Martin Fischer que emigrou em 1846, mas não se sabe para onde. Na primeira lista de Ibicaba há apenas os nomes dos chefes de família e nada mais, o que dificulta as pesquisas. Já em listas posteriores da Colônia há o local de origem, profissão, estado civil e o nome da esposa e ainda os dos filhos.

Lista original dos imigrantes no livro de abertura da Colônia Vergueiro
Lista original dos imigrantes no livro de abertura da Colônia Vergueiro em 1846

Os registros de emigrantes, na Alemanha daquela época, eram de forma incompleta; geralmente as licenças para saírem do país, assim como os passaportes, eram dos grupos familiares e, até onde sabemos, nem sempre mencionavam o nome das esposas ou dos filhos. Assim como na Alemanha, os registros de imigrantes no Brasil, daquela época, eram precários ou inexistentes.

Segundo o autor José Eduardo Heflinger Jr. em seu livro Ibicaba o berço da imigração europeia de cunho particular (pag. 37, 38, 39 e 40), ele cita que em 1846 o Senador Nicolau de Campos Vergueiro, a pedido do governo imperial do Brasil, tendo em vista o eminente fim da escravidão, empreendeu a busca por imigrantes interessados em virem para o Brasil, iniciando a substituição do trabalho escravo pelo trabalhador livre. O fato da Confederação Germânica na época viver um período de grave crise, com falta de emprego, fome e frequentes conflitos internos e externos, motivava o alemão a ter interesse pela proposta de vida nova na América do Sul, mas segundo o autor, o interesse era maior da classe média urbana e não do pobre camponês, que vivia na roça e tinha medo de enfrentar o desconhecido. Por isso, muitos dos imigrantes que vieram para Ibicaba não eram lavradores, mas sim trabalhadores urbanos como marceneiros, serralheiros, sapateiros, ferreiros, pedreiros (profissão de Martin Fischer), entre outros.

A proposta de trabalho para o imigrante era o regime de parceria, no qual o contratante, no caso a Vergueiro e Cia, custeava a viagem do imigrante e seus familiares, que já saiam da Alemanha contratados, mas teriam que pagar essa dívida depois. Cerca de 450 pessoas, de várias partes da Alemanha, mas principalmente da Renânia e do Holstein, foram recrutadas na Alemanha e reunidos na cidade de Mainz. De lá foram para o Porto de Hamburgo, por onde deixaram a Europa em março de 1847. Ao chegarem no Brasil, em junho de 1847, desembarcaram no Porto de Santos 422 pessoas, sendo que 401 colonos foram encaminhados para a fazenda Ibicaba, onde tinham 34 casa aguardando para abriga-los. Na fazenda foram destinados a eles um pedaço de terra onde deveriam plantar ítens básicos para alimentação como feijão e arroz, no entorno da casa poderiam criar animais como porcos e galinhas. Outros alimentos eram vendidos para o colono numa espécie de armazém que havia dentro da própria fazenda. Cada família recebeu um número de pés de café que deveria cuidar. Parte do valor fruto das colheitas do café ficava para o fazendeiro e parte para o colono. Este dinheiro o colono usava para seu sustento e também para quitar sua dívida com o contratante. 

Depois de alguns meses na colônia, alguns imigrantes já celebravam a vida no Brasil e escreviam cartas para a Alemanha, contando como era a vida no novo país e muitas vezes convidando outros familiares para também emigrarem. Martin Fischer foi um dos colonos que, junto com outros imigrantes, escreveu uma carta para a Alemanha, em 1848, relatando como era a vida em Ibicaba e manifestando contentamento com o regime de parceria.

“um pai de família diligente, trabalhador, econômico e com filhos, quanto mais melhor, principalmente se já podem trabalhar […], pode construir aqui, em poucos anos, uma situação livre e independente”, teria dito Martin Fischer em sua carta.

Martin Fischer
Martin Fischer

Martin Fischer e Katharina Elizabeth Stumpf tiveram sete filhos que emigraram com eles para o Brasil:

Anton Fischer (1823-1884)

Johann Jakob Fischer (1825-?)

Johann Martin Fischer (1829-1912)

Friedrich Fischer (1831-?)

Heinrich Fischer (1834-?)

Katharina Fischer (1837-1892)

Phelipp Fischer (1843-?)

Martin Fischer nasceu em 1804 e sua esposa Katharina Elizabetha Stumpf em 1794. A diferença de 10 anos entre eles e no caso a esposa mais velha que o marido, embora pareça algo estranho, era comum na época.

Quando o casal emigrou com os filhos da Alemanha para o Brasil eles moravam em Flonheim, Alzey-Worms, no atual estado da Renânia-Palatinado, na Alemanha. Ali eles se casaram e tiveram seus filhos, mas não conseguimos confirmar, ainda, se eles são naturais dessa localidade.

Sobre o matrimônio do casal conseguimos encontrar um documento de 22 de maio de 1832, uma espécie de revalidação do casamento. O registro, em alemão, é da igreja de Flonheim.

Casamento Martin Fischer e Catharina Stumpf
Casamento Martin Fischer e Katharina Stumpf

Transcrição e tradução: Após inscrição no registro matrimonial da paróquia civil de Flonheim, de acordo com a certidão do prefeito local, o casamento entre Martin Fischer de Flonheim e Katharina Elisabeth Stumpf de Flonheim, foi celebrado no dia vinte e dois de Maio de 1832 e foi publicamente abençoado pelo pastor protestante de Flonheim, após a proclamação ordinária anterior, hoje no dia vinte de dois de Maio de 1832.

Uma curiosidade sobre Martin Fischer e sua família é que antes de emigrarem da Alemanha para o Brasil, eles tentaram emigrar para os EUA, em 1837, mas por algum motivo ainda desconhecido, eles não se mudaram para a América do Norte e 10 anos depois, em 1847 desembarcaram no Brasil.

Cerca de 10 anos depois do início da Colônia Vergueiro, entre 1856 e 57, aconteceu a revolta dos colonos, liderada por Thomas Davatz, como consta no livro Memórias de um Colono no Brasil. Os revoltados acusavam o regime de parceria de ser injusto e impor aos colonos uma situação de escravidão por dívida. Os colonos descontentes relatavam que com o valor que recebiam da parte que lhes cabia na colheita, mais o alto custo dos produtos adquiridos por eles no armazém da fazenda, era impossível quitarem a dívida com o contratante e ficarem livres para viverem suas vidas onde quisessem. Este fato com grande repercussão na Europa, obrigou o senador Vergueiro a comprovar que a vida dos colonos na fazenda não era tão ruim e para isso precisou demonstrar através de dados, que muitos imigrantes haviam quitado suas dívidas e deixado a colônia, livres para viverem suas vidas nas cidades e alguns deles com dinheiro suficiente para adquirirem propriedades. 

Este foi o caso de Martin Fischer, que é citado na lista enviada pelo Senador Vergueiro, que consta no livro Revolta dos Parceiros de Ibicaba (pág. 62) como um dos colonos que em 1857 já havia deixado a colônia Ibicaba com dinheiro e tinha propriedade. Ou seja, embora alguns colonos pudessem ter enfrentado dificuldade que motivaram a revolta, outros, especialmente aqueles em idade ativa, com saúde e família numerosa, com muitos filhos já em idade para trabalhar, conseguiram quitar suas dívidas com o contratante e estavam livres para viverem suas vidas como quisessem.

Alguns documentos comprovam que Martin Fischer, além de atuar na lavoura de café, fazia trabalhos como pedreiro na construção de casas para outros colonos que chegaram posteriormente na Fazenda Ibicaba. Com essa atividade extra ele era remunerado, o que leva a crer que essa renda contribuiu para que ele conseguisse pagar em poucos anos toda a dívida com a Vergueiro e Cia.

Contabilidade do colono Martin Fischer na Fazenda Ibicaba
Contabilidade do colono Martin Fischer na Fazenda Ibicaba

Não conseguimos precisar a data exata que Martin Fischer deixou a fazenda Ibicaba, mas há indícios de que no início dos anos 1850 ele já não estava mais na colônia e seu filho mais velho Anton Fischer já havia assumido uma função administrativa na colônia, como cita o autor José Sebastião Witter, no livro Ibicaba uma experiência pioneira (pág. 58), quando diz que de 1850 até 1867 os diretores de origem alemã Adolph Jonas e Anton Fischer detiveram o poder.

Mas mesmo com os exemplos bem sucedidos de colonos que pagaram suas dívidas e seguiram suas vidas no Brasil, a campanha contra a imigração pelo regime de parceria causou grande repercussão na Europa, especialmente nos países germânicos, que proibiram em 1857, após a Revolta dos Colonos, a vinda, de maneira legal, de mais imigrantes. Outros grupos de emigrantes deixaram a Alemanha posteriormente a proibição, mas muitos de maneira ilegal, sem a aprovação do governo local. Essa dificuldade maior para os recrutadores, fez com que eles fossem obrigados a buscar outros povos interessados na vinda para o Brasil. Foi então que começou a vinda dos italianos, que no final do século XIX e início do século XX povoaram o Brasil e se tornaram um dos maiores grupos migratórios do país.

Martin ou Martinho Fischer uma confusão inicial

Martinho Fischer e Martin Fischer

Quando iniciamos as pesquisas genealógicas sobre a família Fischer, descobrimos que nosso antepassado mais antigo até então, Henrique Fischer (1874-1939), era natural de Constituição, atual Piracicaba, São Paulo e filho de Martinho Fischer e Maria Dupre.

Este nome, Martinho Fischer, despertou nossa curiosidade quando descobrimos que um dos imigrantes da primeira lista de colonos da Fazenda Ibicaba se chamava Martin Fischer. Pensávamos que Martinho pudesse ser uma forma carinhosa de tratamento no diminutivo para o pai de Henrique.

Martin Fischer é um dos imigrantes recrutados em agosto de 1846 pela Vergueiro e Cia sob o contrato de trabalho no regime de parceria, para integrar o grupo de colonos pioneiros da Fazenda Ibicaba. Ele deixou o porto de Hamburgo, onde hoje é a Alemanha, rumo ao Brasil, em abril de 1847 e, depois de 42 dias de viagem pelo Oceano Atlântico, em 01 de junho, chegou em Santos, São Paulo, junto com os primeiros imigrantes contratados.

Lista original dos imigrantes no livro de abertura da Colônia Vergueiro
Lista original dos imigrantes no livro de abertura da Colônia Vergueiro em 1846
Lista dos imigrantes no livro de abertura da Colônia Vergueiro
Lista dos imigrantes no livro de abertura da Colônia Vergueiro em 1846

Depois de uma cansativa viagem, de Santos até Limeira, no lombo de cavalos e burros, em 16 de junho de 1847, junto com 75 famílias e 364 pessoas, Martin Fischer e sua família enfim chegavam na Fazenda Ibicaba, em Limeira, São Paulo.

Vale ressaltar que nesta lista dos primeiros colonos há apenas os nomes dos chefes de família e nada mais, diferente de listas posteriores da Colônia, que trazem dados como o local de origem, profissão, estado civil, o nome da esposa e ainda os dos filhos. 

Estávamos animados com nossas pesquisas, até descobrirmos que Martinho Fischer, pai de Henrique, nasceu em 1850. Com essa informação, comprovada pelo registro de óbito dele, em 1913, aos 63 anos, em Limeira, São Paulo, descartamos a possibilidade do nosso Martinho, ser o Martin Fischer que chegou em Ibicaba em 1847.

Mas não desistimos, nossas hipóteses levavam a pensar que Martinho pudesse ser filho de Martin. Continuamos as buscas até encontrarmos o assento de batismo de Martinho Fischer nos registros do Family Search.

No documento da Igreja Matriz de Nossa Senhora das Dores consta que Martinho Fischer nasceu em 05 de setembro de 1850 e foi batizado em 05 de outubro do mesmo ano. Ele era filho de Antonio Fischer e Izabel Barth.

Assento de batismos de Martinho Fischer
Assento de batismos de Martinho Fischer

Transcrição: No mesmo dia e igreja batizei e pus os santos olhos no menino Martinho, de idade de um mês, filho de Antonio Fischer e Izabel Barth. Foram padrinhos Martinho Fischer e sua mulher Catharina Fischer.

Este documento mostrou que Martinho não era filho do Martin Fischer de Ibicaba, mas com a informação sobre seu pai Antonio, descobrimos que ele era na verdade neto. Isso porque Antonio Fischer é na verdade Anton Fischer, um dos filhos de Martin.

Um espaço para preservar a memória da família Fischer

Logo Família Fischer

Este website foi criado para reunir informações sobre a família Fischer. Este clã se originou onde hoje é a Alemanha e, ao emigrar para o Brasil, em 1847, se fixou no interior de São Paulo. Tais membros pioneiros se estabeleceram especificamente na Colônia Vergueiro, localizada na Fazenda Ibicaba.

Passado o período como colonos no regime de parceria nesta fazenda, os membros dessa família pioneira, mudaram-se para áreas urbanas. Algumas cidades como Limeira, Piracicaba e Rio Claro foram as primeiras escolhidas. Posteriormente, seus descendentes se espalharam pelo Brasil.

Aqui o leitor encontra um ambiente online com informações e dados sobre genealogia, movimentos migratórios, contexto histórico e aspectos sociológicos. Um panorama geral sobre a família Fischer e outras famílias que se uniram a eles através de matrimônios. Como as famílias: Stumpf, Barth, Dupre e outras, inclusive de origens diversas e não apenas germânicas.

Os conteúdos passam pela origem do sobrenome Fischer e os locais de origem dos membros da família na Europa. Falam um pouco sobre a imigração, as colônias no Brasil, a vida dos imigrantes nas colônias e pequenas cidades. Abordam a formação das famílias e, claro, a árvore genealógica.

Baseado em documentos como assentos de batismo, matrimônio e óbito da igreja católica e protestante, os conteúdos publicados trazem comprovações sobre os membros da árvore e seus descendentes. Além de registros civis e história oral contada por familiares que corroboram para a validade das informações.

Além disso, para a contextualização histórica e sociológica, os textos trazem referências bibliográficas. Importantes obras que tratam sobre os assuntos abordados no website servem como alicerce para a construção dos conteúdos.

Tudo isso ao alcance do clique, para preservar a história da família Fischer. Além de tornar público e, ao acesso de todos, esse conteúdo importante para todos que apreciam a genealogia.